O abate ao vivo é “chocante” para o “consumi-dor”

Dr. phil. Sônia T. Felipe

hilbertA pessoa quer comer carnes, laticínios e ovos. Mas não quer ver o que está comendo. Não quer ver nem saber da agonia, do tormento, do pavor do animal que foi derrotado pela degola e a sangria e agora ali está em pedaços, no prato de quem quer comer, mas não quer saber o que está comendo. De quem quer comer cegamente. Cegamente é o mesmo que: com a mente cega. Não há termo melhor do que este para designar a repulsa das pessoas ao verem as imagens de um bebê animal ovino sendo morto ao vivo para um programa de tevê, mas saindo do sofá e indo pegar carnes para comer, no intervalo entre o programa e a propaganda de carnes que sustenta a mesma emissora de tevê. Sustento dado, obviamente, pelo consumo delas. Quem paga para as grandes marcas de alimentos animalizados fazerem comerciais que reforçam a compulsão por comer alimentos feitos de dor, sofrimento e morte animais é quem compra esses alimentos, quem os come. Não é mais o caso dos abolicionistas veganos.

Carol Adams, autora do livro ‘A política sexual da carne’, descreve com perspicácia o processo pelo qual toda dor, sofrimento e crueldade, praticadas contra os animais mortos para consumo humano são escondidos das vistas do consumi-dor.

Você pode consumir produtos animalizados, obtidos a partir da dor, causada inevitavelmente aos animais: carnes, couros, lãs, sedas, gorduras, sangue, gelatina, leites, laticínios, ovos, mel etc. Mas, como você é um humano e sua mente é capaz de perceber por imagens a cadeia de sofrimento embutida em sua salsicha, seu churrasco, seu queijo, sua omelete, seu casaco, seu sorvete, sua torta, sua bolsa e seu batom, sua diversão, seu medicamento, é melhor que você, que costuma consumir a dor, mas não costuma gostar de ver o quanto a causa aos animais, você que se deixou transformar em um mero ‘consumi-dor’, seja obnubilado por outras imagens, inocentes, do processo já em ritmo comercial, que sucede ao da criação cruel e da morte dolorosa dos bilhões de animais mortos anualmente no Brasil e no mundo para consumo humano: o “empacotamento das carnes”, o “carregamento dos caminhões”, as gôndolas dos supermercados onde jazem as carnes, inertes, porque mortas. Nenhum animal vivo é evocado nessa sequência de imagens.

Se você está lendo este texto, pode achar que eu estou inventando coisas, como costumam achar alguns profissionais veterinários que me atacam no meu perfil aqui do FB, dizendo que o bem-estarismo ‘garante manejo suave e morte indolor’ aos animais, mortos por dia no Brasil, da ordem de 84 mil bovinos (30 milhões de mortos por ano), 107 mil suínos (39 milhões de mortos por ano) e 15 milhões de aves (5,5 bilhões de mortas por ano). Todos foram criados com muito ‘carinho e cuidados’, porque os trabalhadores recebem salários cobiçáveis para dar carinho em massa a esses animais em todos os processos que os levam à esteira da morte. Basta ver o documentário Carne Osso para conferir.

Também dizem que todos os animais são mortos sem perceber a morte, o que seria plausível apenas para o caso de um animal com graves deficiências mentais, que não perceberia a estranheza do processo, não sentiria o cheiro do sangue, não receberia telepaticamente as imagens enviadas por seus colegas lá dentro da câmara de sangria, sim, os animais são mudos porque se comunicam enviando imagens uns aos outros, é bom ler ‘Os cães que sabem quando seus donos voltam para casa’, de Rupert Sheldrake.

Que a morte é suave, é o que dizem esses profissionais, pagos para nos cegar e calar nossa defesa dos direitos animais e do fim do consumo deles pelos humanos. Se o ‘abate humanitário’ garantisse morte suave aos animais, bem o sabemos, as ‘paredes dos abatedouros poderiam ser de vidro’. Mas elas não o são. E por que razão?

Sabemos que quem desenhou os abatedouros ‘modernos’ não foi um engenheiro ou arquiteto, foi uma cientista, autista de ‘alta performance’, como ela própria se classifica, em seu livro, ‘O cérebro autista: pensando através do espectro’: Temple Grandin. Por ser bióloga, desconheceria Grandin o material vítreo, destinado ao uso arquitetônico, e por o desconhecer teria desenhado os matadouros sem usar ‘paredes de vidro’? Não. Obviamente, não. Ela desenhou os matadouros com ‘paredes cegas’. Isso produz o consumi-dor cego. Se nada pode ser visto, fica difícil pensar que existe, não é mesmo? E agora vem Rodrigo Hilbert, um mata-dor ama-dor, e estraga ao vivo na tevê o trabalho de Temple Grandin, a ídola dos matadores profissionais de animais.

Agradeço de coração ao Presidente da ABRAFRIGO, Péricles Salazar, por, finalmente, nos dar a resposta sincera, em sua entrevista à Zero Hora, sobre a razão pela qual eles nunca filmam nem revelam o que se passa entre as quatro paredes cegas, lá onde os animais são mortos diariamente aos milhões. A razão é que tudo aquilo é tão ‘chocante’ que as pessoas seriam levadas a não querer mais comer carnes, incluindo as crianças, que, bem o sabemos, já nascem conscientes da brutalidade do que suas mães botam em seus pratos. Eis aqui suas palavras:

“É sempre chocante você assistir a um abate. Sempre que se quer fazer um vídeo ou um material publicitário a respeito da indústria de carne, nunca se mostra o abate do animal, porque isso toca nas pessoas. A gente filma a carne sendo embalada, sendo transportada nos caminhões, sendo vendida, mas nunca o abate do animal, porque aquilo é chocante.” – disse Péricles Salazar, presidente da ABRAFRIGO (Associação Brasileira de Frigoríficos).

Ele condenou Rodrigo Hilbert, o ator ama-dor que matou um bebê ovino ao vivo, para um programa de tevê que se chama “Tempero de Família” e melhor seria ser chamado ‘Como temperar a família dos outros’. O ama-dor, sem respeitar as normas do ‘abate humanitário’ que todos os matadores profissionais têm que respeitar, achando que, por ser um ator global não tem que buscar informações sobre legalidade e ética em nada do que faz, porque seu fazer é mera ‘representação’, esqueceu que está em um programa ao vivo e não em uma telenovela, crê que o que ele faz está acima da lei e da ética, além de ‘fora de qualquer estética’. Mas esta vale para todos os que comem alimentos animalizados.

Não apenas este senhor se colocou acima da lei, desde o Art. 225 da Constituição, que concede ao Estado Brasileiro a tutela de todos os animais e dá a ele o poder de autorizar um indivíduo ou uma instituição, ou não, a matar qualquer animal em nosso país, até as leis de regulamentação do abate, a famigerada e hipócrita, mas ainda assim, lei, do ‘abate humanitário’.

O ator se colocou também além da ética animalista, que defende os direitos fundamentas animais. Quanto à estética de fundo de quintal, claro, esta não perde nada para qualquer bancada de açougue de qualquer supermercado. Afinal, a tevê não está aí para incrementar os desejos dos ‘consumi-dores’, mesmo que para isso tenha que usar o trabalho de um ‘ama-dor’?

Por vias bem tortas, como muitos defensores dos animais, antes mesmo da entrevista dada pelo Presidente da associação dos matadores de animais brasileiros já haviam concluído, o ator global sem lei, sem ética e estética (se é que ética e estética estão mesmo dissociadas em sua essência) pode ter dado uma contribuição inestimável para a conscientização dos ‘consumi-dores’ brasileiros. Estes já não podem alegar que ‘não sabiam de nada’. Perderam a inocência. E, para todo ato não inocente, repetido por puro ‘mau deleite’, já não há perdão. Mas daí já estamos no mundo da psicopatia mesmo, da perversão moral. Eu já teria que falar de outro livro, ‘Os psicopatas do cotidiano’, que não cabe aqui. Animastê!

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