Como acabar com a fome no mundo?

Entre as alternativas sugeridas, especialista defende uma dieta vegetariana e o fim da exploração de animais para entretenimento

como acabar com a fome no mundo?De acordo com o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) existiam 925 milhões de pessoas com fome ou em situação de insegurança alimentar no mundo, em 2010, o que correspondia a 13% da população mundial. A escassez de alimentos e a desnutrição acontece no meio da abundância de bens e serviços na economia internacional. A humanidade já possui todas as armas para vencer a fome e já existem diversas soluções pensadas, mas falta colocar em prática.

Vejamos algumas alternativas para acabar com a fome no mundo:

Uma primeira alternativa seria a eliminação ou, pelo menos, a redução dos gastos militares no mundo que estão na ordem de US$ 1,6 trilhão de dólares ao ano. Este dinheiro seria suficiente não só para acabar com a fome como para reconstruir áreas cultiváveis degradadas. Existem alguns milhões de homens e milhares de mulheres que passam a vida ativa na caserna fazendo trabalhos inúteis ou preparando guerras e ações militares que provocam mortes e danificam o meio ambiente. Se os recursos financeiros e humanos usados em gastos militares forem redirecionados para atividades produtivas a fome poderia ser eliminada, a educação e a saúde poderiam avançar, etc. Além de tudo, o movimento pacifista mundial agradeceria.

Uma segunda alternativa seria utilizar apenas fontes vegetais de nutrientes na alimentação. Os vegetais são seres vivos que produzem a sua própria alimentação (por meio da fotossíntese) e não possuem as capacidades de senciência dos animais. Os vegetais são capazes de fornecer tudo o que o organismo humano precisa para se nutrir: proteínas, carboidratos, lipídios, vitaminas e sais minerais. Portanto, deixar de comer peixes, carnes e derivados não só salvaria a vida de bilhões de seres sencientes que sofrem – na vida e na morte quando vão para os abatedouros – como abriria a possibilidade de transformar as áreas de pastagens, de confinamento de animais e de produção de ração para o gado em áreas de plantação de alimentos saudáveis, orgânicos e nutritivos. Seria uma também alternativa para a evitar a degração ambiental dos solos e da água e para a redução do aquecimento global (o metano é um dos principais gases de efeito estufa). Além disto seria uma alternativa adequada à filosofia do vegetarianismo e do veganismo, além de viabilizar o fim da “escravidão animal”.

Uma terceira alternativa seria eliminar o consumo e a produção de drogas e de bebidas alcoólicas, os jogos de azar, os cassinos e os jogos que utilizam animais como touradas, rodeios, corridas de cavalos, cachorros e camelos, brigas de galos, etc. Estas atividades são prejudiciais para a saúde dos humanos e dos não-humanos e envolvem uma industria – legal ou ilegal – de trilhões de dólares. O fim destas atividades seria suficiente para acabar com a fome e a pobreza extrema no mundo, evitaria muitas mortes por overdose, cirrose e acidentes de trânsito, além de liberar recursos para investimentos na educação, saúde, ciência e tecnologia, recuperação de florestas e ambientes degradados, etc.

Uma quarta alternativa seria proibir a produção de alimentos visando o lucro e eliminar os atravessadores na comercialização da comida e os especuladores que fazem fortunas nos mercados futuros de alimentos. Numa perspectiva socialista ou comunitária, poderia se transformar todas as empresas capitalistas de alimentos em cooperativas sem fins lucraticos, controladas pelos trabalhadores, produtores rurais e pela comunidade e consumidores. Os alimentos seriam produzidos para a vida e não para o lucro.

Uma quinta alternativa seria eliminar ou reduzir ao máximo o desperdício na produção, transporte, armazenamento, comercialização e consumo de alimentos. Somente esta alternativa já seria suficiente para acabar com a fome no mundo. Mas, evidentemente, não é fácil acabar com os desperdícios, pois os alimentos são, em geral, bens perecíveis e de difícil conservação. Evitar a perda na colheita significa investir muito para recuperar as sobras da produção, assim como seria preciso grandes investimentos para evitar perdas em toda a cadeia produtiva. Ajudaria muito promover uma educação para ensinar as pessoas a não deixarem comida no prato, não deixar passar o prazo de validade dos produtos, evitar as perdas nos restaurantes, etc. Para complicar, os desperdícios tendem a aumentar quando o preço dos alimentos caem ou quando a renda das pessoas sobe. Mas o fim do desperdício também seria o fim da fome no mundo.

Uma sexta alternativa seria eliminar ou reduzir ao máximo a gravidez indesejada, pois os dados mostram que a fome atinge em maior proporção as crianças e os países pobres que não possuem meios para universalizar os serviços de saúde sexual e reprodutiva, conforme acertado pelos Objetivos do Desenvolvimento do Milênio (ODM). Segundo o International Food Policy Research Institute (IFPRI) o Índice Global da Fome (IGF) apresenta as categorias alarmante e extremamente alarmante, especialmente naqueles países onde existem altas taxas de fecundidade. A Organização Mundial de Saúde (OMS) mostra que existem 215 milhões de mulheres no mundo que não possuem acesso aos métodos modernos de regulação da fecundidade. O número de nascimentos é de 135 milhões por ano. Além disto, muitas mulheres são vitimas de violência sexual e da segregação de gênero, o que impede que elas tenham autonomia social e econômica e capacidade de autodeterminação reprodutiva. Além disto, alta dependência demográfica nas famílias aumenta a competição por alimento entre os filhos, o que prejudica os mais fracos e necessitados. O fim da gravidez indesejada ajudaria a reduzir a fome.

Uma sétima alternativa seria uma distribuição mais justa dos alimentos. Dos 7 billhões de habitantes do mundo, pouco menos de 1 bilhão passam fome, cerca de 3 bilhões se alimentam de maneira razoável e os outros 3 bilhões consomem alimentos acima do necessário. Se estes 3 bilhões (que representam os ricos e as classes médias) reduzirem em 20% suas dietas alimentares, liberariam comida suficiente para alimentar a parcela dos 13% da população mundial que passa fome. Isto também contribuiria para diminuir a obesidade no mundo.

Uma oitava alternativa seria implementar a meta 1B dos Objetivos do Desenvolvimento do Milênio (ODM) que convoca os países a: “Alcançar o pleno emprego produtivo e o trabalho decente para todos, incluindo mulheres e jovens”. Se todas as pessoas do mundo tiverem emprego decente e renda então também terão dinheiro para colocar comida na mesa.

Ou seja, para acabar com a fome do mundo seria preciso a efetivação de pelo menos uma das oito alternativas ou a aplicação combinada de partes delas, vale dizer: reduzir gastos militares, incentivar uma dieta vegetariana, reduzir o consumo de drogas, bebidas alcoólicas e do dinheiro gasto em jogos, combater os atravessadores e especuladores de alimentos, reduzir os desperdícios, reduzir o crescimento populacional não desejado, repartir melhor o pão entre os cidadãos e cidadãs do mundo e criar políticas de pleno emprego com trabalho decente.

Evidentemente, na teoria é fácil acabar com a fome. O difícil é mexer com os inúmeros interesses pessoais, locais, grupais, regionais e nacionais envolvidos. Cada pessoa pode e deve fazer sua parte. Mas sem políticas macroeconômicas e institucionais, envolvendo todos os países do mundo, o problema da fome e da degradação ambiental não será resolvido.

Por José Eustáquio Diniz Alves,  Doutor em demografia e professor titular do mestrado em Estudos Populacionais e Pesquisas Sociais da Escola Nacional de Ciências Estatísticas

01/2012 – Fonte: EcoDebate

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