Apetite por carne destrói cerrado brasileiro

Agronegócio consome o segundo maior bioma do país

Apetite por carne destrói cerrado brasileiroO cerrado é um tipo distinto de paisagem, muito mais ameaçado que a Amazônia. Essa “savana tropical” constitui a maior e mais prolífica região de biodiversidade do Brasil e da América do Sul [depois da Amazônia], abrigando 5% de toda a vida no planeta.

Infelizmente, a agricultura industrial está destruindo rapidamente essa paisagem única. E cientistas advertem que sua rápida transformação é uma bomba-relógio que pode afetar significativamente o ciclo global de carbono, se o atual ritmo de devastação continuar.

Essa imensa extensão na região central do Brasil já foi tão impenetrável quanto a mais densa floresta tropical, tão isolada que os colonos portugueses a chamaram “cerrado”.

Atualmente, estradas conectam suas fronteiras meridionais, nos estados de São Paulo e Mato Grosso do Sul, aos seus limites setentrionais, a mais de2.400 kmde distância, perto da costa do Atlântico.

Ainda assim, o cerrado é em grande parte desconhecido, mesmo no Brasil.

Esse é um vasto mosaico de amplas planícies, rios flanqueados por esguias palmeiras e florestas densas formadas por um emaranhado de árvores de aspecto atrofiado, de casca grossa.

Mas a verdadeira “floresta” aqui é subterrânea — um imenso sistema de raízes e galhos profundamente enterrado para sobreviver a incêndios florestais e procurar por [fontes de] água durante os longos períodos de estiagem.

Até a década de 50, o solo era considerado pobre demais para o cultivo, razão pela qual a região permaneceu praticamente intocada. Mas nos anos 60, agrônomos descobriram que o cerrado podia se tornar extraordinariamente produtivo com o acréscimo de cal para reduzir a acidez do solo.

Tudo mudou

Com o suporte de fertilizantes químicos, o árido cerrado de repente começou a produzir culturas comerciais em larga escala, como milho, cana-de-açúcar, algodão e, acima de tudo, soja.

É o cultivo dessa milagrosa leguminosa, mais que qualquer outra planta, que está permitindo à China saciar a fome de sua crescente classe média por hambúrgueres, bifes e bacon; além de lhe permitir exportar tudo, de peixes a cosméticos, a garrafas de água de aço inoxidável e quinquilharias baratas de plástico.

Entre 2001 e 2005, só a sojicultura foi responsável por 10% do desmatamento amazônico.

Isso suscitou um protesto global que resultou em uma moratória do cultivo da planta na região da floresta tropical, o que ajudou a conter o desmatamento.

Mas essa reação também ajudou a deslocar sua produção para o cerrado: em 2013, cerca de 60% da soja brasileira eram cultivados ali.

Hoje, mais da metade de sua paisagem nativa já foi desmatada para dar lugar a plantações e à pecuária. E agora a região é um modelo global para o desenvolvimento de outras regiões de savana na África e na América do Sul.

Até recentemente, isso era tido inequivocamente como algo positivo; um uso produtivo de uma terra de outra forma considerada “ociosa e desperdiçada”.

Mas a escala desse desenvolvimento tornou-se fonte de grande preocupação para cientistas e ativistas ambientais, em vista da rica biodiversidade da região.

O cerrado contém quase 12 mil espécies de plantas, mais espécies endêmicas que em toda a Amazônia, além de mais de 800 espécies de aves e animais raros e/ou em extinção, como o tamanduá-bandeira, a onça-pintada e o tatu-bola.

Mas há outra inquietação; uma que até recentemente recebeu pouca atenção.

À medida que mais e mais terras do cerrado estão sendo lavradas, aquela rica floresta subterrânea está morrendo, liberando quantidades significativas de carbono e favorecendo o aumento do risco de incêndios altamente destrutivos na Amazônia.

O impulso para maximizar o potencial econômico do cerrado ofuscou, de longe, os esforços para protegê-lo.

Consumidores americanos, chineses e europeus de carne, alimentos processados e dos inúmeros outros produtos derivados da soja brasileira continuam, em grande parte, alheios ao seu papel na destruição desse valioso ecossistema e “sumidouro de carbono” (“carbon sink”, em inglês).

Resultados de esforços de governo

Nos 30 anos seguintes, o cerrado testemunhou uma revolução agrícola — até os fazendeiros começarem a utilizar fertilizantes, a soja nunca tinha sido cultivada com sucesso nos trópicos.

Hoje, graças à tecnologia, os sojicultores locais às vezes até conseguem um rendimento superior ao alcançado por produtores em climas temperados, como o centro-oeste dos Estados Unidos.

O timing da transformação foi excelente.

À medida que arados reviravam o cerrado, a demanda global de soja disparou.

Nos últimos 50 anos, a produção global da leguminosa aumentou quase 10 vezes, de acordo com um recente relatório da World Wildlife Fund (WWF).

Isso tem sido impulsionado em grande parte pelo crescente apetite mundial de carne: 80% da soja produzida agora são convertidos em ração animal.

Atualmente, o Brasil é o segundo maior exportador mundial dos grãos, depois dos Estados Unidos. E essa distância está diminuindo rapidamente.

Vários dos principais operadores multinacionais de commodities que impulsionam a produção de soja no Brasil estão sediados nos Estados Unidos, inclusive a Monsanto, a Cargill, Archer Daniels Midland e Bunge.

No entanto, empresas chinesas exercem uma crescente influência sobre o futuro do cerrado.

Atualmente, a China é o principal parceiro comercial do Brasil. Apesar de uma repressão, em 2010, à propriedade estrangeira de terras no Brasil, a China continua procurando meios de expandir seu controle sobre áreas agrícolas no cerrado através de acordos de produção, arrendamento de terras e investimentos, principalmente para cultivar soja.

A soja é o maior produto de importação agrícola da China e se destina principalmente a alimentar sua crescente demanda de carne: hoje, chineses consomem pouco menos de duas porções de carne por dia em média, duas vezes mais que em 1990. E, de acordo com projeções do Departamento da Agricultura dos Estados Unidos, esse consumo deve aumentar mais 12% até 2020.

O rastro da atividade

A conversão do cerrado em pastagens injetou mais de 275 milhões de toneladas de dióxido de carbono (CO2) na atmosfera por ano entre 2002 e 2008, de acordo com uma recente análise do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação do Brasil. Isso é mais da metade das emissões anuais de CO2 do Reino Unido, o 10º maior emissor do mundo, e mais que as emissões anuais da Amazônia brasileira.

E nada sugere que esse padrão mudará tão cedo.

Em um recente artigo divulgado na publicação científica Science, os autores advertem que ao conceder anistia para alguns desmatamentos ilegais ocorridos antes de 2008 e relaxar padrões para conservação e restauração, a versão emendada e diluída do Código Florestal poderia levar a um desmatamento adicional no cerrado, equivalente a uma área quase igual à da Califórnia [423.970 km2].

Na conferência de cúpula climática de setembro,em Nova York, 27 participantes subscreveram um acordo que limita o desmatamento, entre eles, os Estados Unidos, as Filipinas e a Indonésia, e empresas multinacionais como a Cargill e a Unilever. O Brasil estava ausente.

A história do cerrado é uma que já foi escrita antes em outras paisagens icônicas, da Califórnia e das Grande Planícies americanas ao Vale Central do Chile. Todas são advertências do que pode acontecer quando as demandas da humanidade pressionam a Natureza na direção de um ponto de inflexão ominoso.

Outros países em desenvolvimento ansiosos por estabelecer uma base agrícola produtiva estão adotando o modelo do cerrado.

A Embrapa, a agência brasileira creditada pela transformação do cerrado, está oferecendo sua experiência a vários países que procuram aplicar abordagens eficientes, de alto rendimento, à agricultura na África e América do Sul, inclusive o Paraguai, Argentina, Colômbia, Gana, Sudão e Moçambique.

Este último, em particular, abraçou o modelo brasileiro. A parceria de longo prazo com o Brasil e o Japão transformará milhões de hectares de savanas no norte do país africano em área de cultivo de alto rendimento de soja e outras culturas, principalmente para exportação.

O programa, chamado ProSavana, deverá atrair bilhões de dólares em projetos de infraestrutura regional. Mas críticos questionam se ele de fato melhorará significativamente a segurança alimentar para moçambicanos pobres, uma vez que o projeto escancarou as portas para empresas multinacionais, visando principalmente exportar commodities para a Europa e a Ásia.

Como a população mundial está projetada a aumentar em mais 2,6 bilhões de pessoas nos próximos 35 anos, é inevitável que sejam necessárias mais terras para a agricultura, e o aumento da produtividade será essencial.

Proponentes do “modelo cerrado” salientam que a agricultura intensiva significa que mais alimentos podem ser cultivados em menos terras, diminuindo, portanto, o desmatamento. Mas ainda restam muitas questões sobre se ele [o modelo] atingirá o objetivo de alimentar um mundo faminto, ou se ele simplesmente possibilitará um consumo cada vez mais voraz na China e nos países ocidentais desenvolvidos.

No período que antecedeu as negociações sobre mudanças climáticas promovidas pela ONU em Copenhague, em 2009, Sawyer pressionou para que o cerrado fosse incluído, junto com a Amazônia, no plano brasileiro para reduzir as emissões de gases de efeito estufa. Na conferência, o Brasil conquistou boa vontade internacional com sua proposta de cortar em 80% as emissões resultantes do desmatamento na Amazônia.

A meta de redução para o Cerrado? 40%.

Este artigo é composto por trechos do original publicado em 10/11/2014 pela Scientific American Brasil. Clique aqui para lê-lo na íntegra.

 

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