“Amor” aos cavalos pode atrofiar e encurtar a vida deles

Dr. phil. Sônia T. Felipe

"Amor" aos cavalos pode atrofiar e encurtar a vida delesTem gente que “ama” tanto os cavalos que não resiste a passear em charretes torturando-os pelas ruas, e não vê o que faz e acha que quem mostra é que não presta.

Lendo muito sobre a arte de torturar cavalos forçando-os a puxarem cargas ou a levá-las sobre o lombo cheio de hematomas, com os joelhos doendo, os músculos estirados, a boca ferida, o estômago com úlceras e as patas com objetos encravados… E dê-lhe chicote para forçar o animal a galopar no redemoinho de tantas dores sofridas em silêncio, porque se relinchar o predador dá cabo dele, e ele sabe disso. Só os humanos não sabem que o cavalo sabe de tudo o que estão fazendo ao corpo dele, porque é ele quem está ali, sujeito da dor, sujeitado à ela.

E, considerando a pergunta sobre o que pensar de cavalos usados para corridas, penso que, se esses e todos os outros cavalos fossem, de fato, tratados com respeito por sua estrutura orgânica, sua psiquê equina e sua fisiologia natural, teríamos milhões deles vivendo por aí, idosos, o que não acontece.

Ninguém se pergunta onde estão guardados os cavalos “bem tratados” usados em corridas, na dressage, na tração e atração turística. Ninguém se pergunta onde estão os idosos cavalos aposentados. Sim, um cavalo saudável e não esgotado, física ou neuralmente, vive por até 40 anos.

Se cavalos usados para tração, corrida ou “dressage” fossem de fato bem tratados, não morreriam cedo, todos. E morrem. De dor. De hemorragia no pulmão. De cólicas, por conta da atrofia e destruição das parótidas causadas pela contenção brusca que puxa o pescoço do animal esmagando a glândula, o que leva àquela produção de espuma em vez de saliva. Sem a saliva, alcalina, o cavalo tem seu estômago ulcerado e todo o sistema digestório atrofiado, o que o leva a morrer de cólicas.

E se a estatística aí está, o que falta aos humanos para entenderem que quem encurta a vida dos cavalos não é a natureza deles, é a natureza do uso humano que os escraviza e exaure na dor e nas feridas internas que só olhos educados para ver e não para cegar podem confirmar?

No trabalho escravo, com alimentação deficiente, chicote no lombo, privação de tudo o que é natural ao éthos, sede, dor, sofrimento, medo e pânico, não há longevidade para o animal, seja humano ou equino.

A pessoa que usa o cavalo, mesmo que o “ame”, tem que causar dor a ele para se fazer obedecer, em todos os movimentos que quiser que o cavalo faça, mas que, para o cavalo, não tem sentido algum fazer, porque não lhe traz benefício algum.

A dor infligida é parte do processo da monta ou da tração. Não existe monta sem causar dor. Não existe tração de cargas sem causar dor. Isso é fisiológico. Não há amor montado ou tracionado que não esteja ali a causar dor ao animal que sofre a monta ou é obrigado a puxar a carga. E, porque tracionar dói muito, somente uma dor ainda maior leva o cavalo a fazer isso para atender ao humano: a dor na boca, a dor do chicote, a dor da espora.

Isso diz tudo sobre “amar” cavalos e montá-los, chicoteá-los, esporeá-los, forçá-los a puxarem cargas que estiram seus músculos, detonam seus tendões, atrofiam sua coluna. O resto é enfeite, para nos manter cegos quando olhamos um cavalo. Para nos forçar a não ver o cavalo. Só vemos as rendas nas quais os que os escravizam tecem a realidade. E se é rendosa e rentosa para os humanos, esteja certa, não é nada de bom para o cavalo. A prova disso é que esse animal escravizado morre cedo e estropiado. Que amor é este que atrofia, encurta a vida e machuca o animal?

[6/1/15] Ao contrário do que o senso comum mal-informado costuma apregoar, os cavalos não são fortes para suportar a tração de cargas que não fazem parte do seu corpo. Eles estão desenhados ou designados apenas para tracionar o seu peso e podem fazer isso no galope.

Entretanto, devido à extrema sensibilidade e fragilidade de seus músculos, tendões, juntas, cascos, sua natureza os dotou de um sistema neurológico autorregulador, da capacidade de diminuir a velocidade ou mesmo de estacar completamente, sempre que seu deslocamento está rápido demais para manter a oxigenação e a renovação dos tecidos lesados.

Na tração para atender aos interesses humanos, as trelas às quais atam os cavalos às carroças ou charretes, a carga que os forçam a puxar e a velocidade que impõem a tal esforço antinatural, acrescido do uso do chicote, impedem o animal de regular sua força, seu movimento e sua velocidade. Contrariando sua natureza, o cavalo faz o serviço mesmo sentindo as lesões, e se estaca, é chicoteado para continuar a se lesionar, e o carroceiro ou charreteiro está se lixando para agonia do animal, porque sequer tem noção do que faz ao corpo dele.

Então, as lesões se formam e ninguém as quer ver. Mas os estudos de veterinárias e veterinários mostram bem a realidade do estado de desgaste e inflamações dos animais usados para tração urbana, conforme se pode ler neste artigo escrito por Maranhão et alii, da Faculdade de Veterinária de Belo Horizonte, cujo link me foi passado pelo Alforria Já Paquetá. Acorda Rio.:

http://www.scielo.br/pdf/abmvz/v58n1/28775.pdf

Você já teve que fazer faxina alheia ou carregar sua mala pesada sofrendo as dores atrozes da tendinite? Que tal fazer isso aos cavalos todos os dias, a praticamente todos os cavalos, sem dó nem piedade? É isso que fazem as turistas e os turistas que se sentam naquelas charretes e se deixam levar pela força de um animal em dores agudas, queimantes, lancinantes.

Texto originalmente publicado na Fanpage do livro Galactolatria, Mau Deleite

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