Oświęcim (nome polonês para Auschwitz)

Por Nathalia Cury

auschwitzOntem visitei Auschwitz-Birkenau, na Polônia, um dos campos de concentração mais famosos da história.
Ano passado estive em Sachenhausen, na Alemanha, e fiquei impressionada, mas nada se compara ao que eu vi ontem.

No começo estava meio fora do que tudo aquilo representava, por causa da confusão para comprar os tickets e toda a tecnologia de fones de ouvido e frequência para ser ajustada e ouvir bem o guia. A primeira coisa que vemos é aquele tão conhecido portão, com a frase “Arbeit Macht Frei” (O trabalho liberta) típica dos campos de concentração. Aliás, acho que algumas pessoas ainda acreditam de fato nessa frase.

O sol brilhava, o céu estava azul. E eu, apaixonada pelo sol, achei aquilo obsceno. O sol nunca deveria brilhar num lugar daqueles, preferia ter ido visitar em meio a uma nevasca, chuva, dia nublado. Combinava mais com o aperto no peito.

Passei pelo portão e o guia, com sua voz grave, pausada e calma, me fez entrar num filme do qual só sairia mais de uma hora depois (toda a visita dura duas horas e meia, uma hora e pouco em Auschwitz e o mesmo tempo em Birkenau). Há muitos prédios a serem visitados, e o primeiro que entramos foi o bloco 7, que mostrava como os prisioneiros viviam e quais eram as condições sanitárias.

A primeira coisa que eu senti foi fraqueza, náuseas. As paredes do prédio são forradas com fotografias: homens de um lado, mulheres de outro, todas aquelas centenas de rostos olhando para você. Na legenda de cada foto, três datas: nascimento, chegada ao campo de concentração e morte. Cada um daqueles rostos viu os horrores de Auschwitz por cerca de três ou quatro meses, tempo que o corpo resistia às rações de comida de 1500kcal diária e 12 horas de trabalho forçado. Olhei vários deles, as fotografias eram tiradas no momento de chegada, e só vieram a se tornar públicas porque o encarregado de fotografar enterrou os negativos num lugar, e depois da libertação voltou lá para buscar. Uma das mulheres me chamou a atenção, porque ela quase que sorria. Acho que era dessas pessoas cuja alma não se deixa apagar, os olhos brilhavam, quase desafiadores. Ela parecia essas pessoas que são felizes e ponto. E isso me deu mais náuseas. Como é possível que aquela pessoa tivesse essa alegria espontânea retirada por tão cruel arbitrariedade? Seu nome era Helena Biskup, e acho que essa vida insistente que ela carregava dentro de si a fez viver por extensos 14 meses naquele lugar.

Vimos as condições de vida: primeiro palha no chão, depois um arremedo de colchão. Alguns prisioneiros dormiram em tábuas de madeira durante toda sua estadia. Era permitido o uso da latrina (como chamar aqueles buracos de cimento próximos uns dos outros?) por cerca de 30 segundos, duas vezes por dia. O odor fétido fazia com que os nazistas nunca entrassem nesses banheiros públicos, por isso eram designados outros prisioneiros para tomar conta disso.

Fomos a outros prédios, vimos documentos do extermínio, fotos de famílias chegando ao campo, e durante aquela uma hora eu vivi o horror de tudo aquilo. Eu estava me sentindo terrivelmente triste, mas ainda não tinha chorado. Estava no meio de um grupo, e estava me sentindo miseravelmente solitária. Outras pessoas estavam tristes, mas nenhuma tristeza compartilhada aplacava o que eu sentia. É aquela dor na alma, que não tem remédio, não tem cura. Uma vez que você vê, aquilo passa a fazer parte de você.

E aí chegamos a uma parede onde eram assassinadas pessoas a tiro, um tiro na nuca. Maneira rápida e provavelmente indolor de se matar, antes das câmaras de gás serem idealizadas. Segundo o guia, 10 mil pessoas foram mortas assim, naquele lugar. Mas bebês não mereciam o gasto de um tiro. Relatos dizem que os nazistas simplesmente arremessavam a cabeça dos bebês contra o muro, ou pisavam mesmo, para matá-los. Imaginei a cena. Olhei o muro. A frase “arremessavam os bebês no muro” repetindo na minha cabeça. Não sei quanto tempo fiquei olhando para o muro, inerte, chorando. Sei que saí dali meio em choque, e não consegui me recompor muito bem até o final da visita. Na verdade ainda não me recompus.

Num dos blocos eles guardam pertences das pessoas que chegavam até lá com a promessa de um local de trabalho. Traziam suas coisas íntimas: roupas, maquiagem, bonecas, pente, óculos. Pessoas normais, como eu e você, que por vezes pagaram por seus bilhetes de trem que os levariam até o campo de concentração.

Não sei por onde começar a descrever.

Vi toneladas de cabelo humano, que teriam pertencido a 400 mil mulheres. Depois de mortas, tinham seus cabelos retirados, tudo era aproveitado (conseguem fazer alguma conexão aqui? eu consigo), e inclusive tapetes foram tecidos com cabelo humano.

Vi milhares de óculos, todos me pareciam iguais, aro redondo, fininho, pertencentes a milhares de homens que não tinham nenhum motivo para irem parar lá.
Vi milhares de pernas de plástico, coletes de ferro e outros artefatos usados por pessoas que tinham algum problema motor. Depois de terem sobrevivido a dias de transporte num vagão fechado, sem comida, sem banheiro e sem ar, pessoas com deficiência que chegavam ao campo eram imediatamente selecionadas para irem tomar um “banho” (nome dado para causar menos pavor, afinal as pessoas não devem gostar de saber que estão sendo levadas a uma câmara de gás). Isso ainda acontece, só que não com seres humanos.
Vi malas, muitas malas. Em uma delas a inscrição do nome e da data de nascimento nos contou que era uma menininha de um ano e meio a dona daquela mala. Um ano e meio. Imaginaram? Outra mala nos contou que pertencia a uma senhora de mais de 60 anos. E é tudo o que sei sobre essas, que são apenas duas pessoas de um único “carregamento”. As milhares de malas em exposição correspondem a um único trem. E os números assombrosos não deixam esconder que cada uma daquelas pessoas era única, um ser vivo que teve sua liberdade retirada de uma forma tão horrorosa.

Vi milhares de escovas, pentes, tinha até potinhos de hidratante, canecas, garfos, facas, pratos. Tudo foi tirado dessas pessoas, de pertences materiais à liberdade.

E aí, como se não bastasse, vi uma seleção especial atrás de um vidro: roupas de bebê, sapatinhos de bebê e uma boneca quebrada. Uma boneca quebrada, assim como quebraram a vida, a infância e a dignidade de milhões de pessoas. Quebrei junto. E não sei se tem conserto.

Vi o modelo da câmara de gás, visitei a primeira câmara de gás, que depois foi desativada porque construíram maiores. Vi os fornos onde eram queimados os corpos, vi os prédios onde experimentos médicos eram realizados, vi câmaras de gás destruídas para apagar vestígios do horror que se encenava ali. Vi o trilho que conduzia os trens abarrotados, vi o lugar onde os prisioneiros eram selecionados, vi o lugar onde as mulheres dormiam amontoadas. “Como animais”, disse o guia. E talvez nem ele entenda como é verdadeiro isso que disse.

Nada que eu falar será capaz de fazer qualquer pessoa sentir o que é visitar esse lugar. O que é sentir raiva do sol por estar brilhando um dia tão bonito, o que é se sentir solitária e miseravelmente triste mais de 24 horas depois. Muita gente vai lá prestar homenagens, deixam flores, e aposto que a experiência marcará suas vidas para sempre.

Só que posso afirmar que eu senti algo diferente. Não mais, claro. Como comparar meu sofrimento ao de judeus que visitam aquele museu diariamente? Não dá. Mas eu sei que senti diferente. Porque com aquela frase “tratados como animais” o guia me fez sair do filme no qual eu estava vivendo por aquela mais de uma hora e me fez lembrar do mundo real, que continua tão horrível (ou pior) quanto aquele inferno que eu acabara de conhecer.

Quando uma pessoa como eu, que nunca passou por uma situação sequer parecida, tenta fazer uma comparação, pode parecer desrespeitoso, agressivo, exagero, “radical”. Por isso deixo aqui as palavras de um sobrevivente do campo de concentração de Dachau: “Eu me recuso a comer animais porque eu não posso me alimentar do sofrimento e da morte de outras criaturas. Eu me recuso a fazer isto porque eu mesmo sofri tão dolorosamente que eu consigo sentir as dores dos outros pela lembrança dos meus próprios sofrimentos.” – Edgar Kupfer-Koberwitz

Estar em Auschwitz me fez ter certeza do que o ser humano é capaz. Me fez ver com meus próprios olhos tudo aquilo que eu ouvia dos livros de história e que só pensava conhecer, só imaginava sentir. Estar lá é ter certeza que precisamos estudar, estudar e estudar, e conhecer muito bem nossa história.
Uma das frases escritas logo na entrada de um dos prédios é: “Quem não conhece a sua história está fadado a repeti-la”.
(Those who cannot remember the past are condemned to repeat it. – George Santayana)

Lembremos, então, para que nem cultura, nem história, nem hábito, nem sociedade, nem ordens, nem religião, nem amor, nem ódio, nem nada nos deixe cometer essas injustiças novamente, seja com quem for.

Como eu disse a um amigo, a tristeza que estou sentindo agora é aquela que a gente tem que deixar doer tudo que precisa ser doído.
Desculpem, espero que tenha doído um pouquinho em vocês também.

P.S.: estima-se que 2,5 milhões de pessoas tenham sido assassinadas somente em Auschwitz, entre 1940 e 1943. O número de animais assassinados em abatedouros do mundo todo, em apenas um ano, é de 60 bilhões. Esses números não incluem animais marinhos. Segundo dados do IBGE, o abate de bovinos no Brasil, do 2º trimestre de 2013, foi de 8,557 milhões de animais; em apenas um trimestre de 2013 1,4 bilhão (sim) de frangos foram assassinados, e 8,9 milhões de porcos no mesmo período.

Nathalia Cury é bióloga, vegana e ativista pelos direitos animais

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