BBC publica matéria sobre a história da pecuária no Brasil

A pecuária no país jamais se distanciou de escândalos

Com o título: “Dos engenhos de açúcar à Carne Fraca: como a pecuária ajuda a contar a história do Brasil” (matéria pulicada em 21 de março) a BBC conta que muito antes da Operação Carne Fraca, que denunciou um esquema de corrupção envolvendo frigoríficos e fiscais agropecuários, a pecuária no país jamais se distanciou de polêmicas e escândalos.

Encomendados por senhores de engenho, os primeiros bovinos a chegar ao país eram empregados nas fazendas de açúcar do Brasil Colônia como bestas de carga e força motriz,  comida e couro. Os primeiros bois chegaram ao país por volta de 1534, vindos da então colônia portuguesa de Cabo Verde, na África. Desde então, a pecuária se tornou um dos setores mais rentáveis da economia brasileira, movimentando R$ 400 bilhões em 2016.

Conforme os rebanhos cresciam, a cração de gado deixou de ser usada unicamente na lavoura de cana e foi crucial para a ocupação de territórios da jovem colônia. Em artigo publicado em 1995 na revista Le Portugal et l’Europe Atlantique, le Brésil et l’Amérique Latine, a historiadora Maria Yedda Leite Linhares (1921-2011) remonta o crescimento da pecuária no Brasil às sesmarias, terras distribuídas pela Coroa e destinadas à produção agrícola.

Linhares conta que, para conseguir ocupar os territórios, os sesmeiros costumavam arrendar áreas menores a sitiantes que possuíam rebanhos. Era importante preencher as áreas porque terras livres podiam ser retomadas pela Coroa para serem redistribuídas. A pecuária bovina começa a se espalhar pelo interior do país; o gado avança de São Vicente (SP) até os campos de Curitiba; de Pernambuco, para o Agreste e o Piauí; da Bahia, para o Ceará, o Tocantins e o Araguaia. Nos séculos seguintes, os rebanhos ocupariam ainda o Semiárido, Minas Gerais, o Rio Grande do Sul, o Cerrado e franjas da Amazônia.

Linhares diz que está superada a noção de que as fazendas de gado pioneiras se caracterizavam pela natureza livre do trabalho de peões e vaqueiros, em contraste com a escravidão nos engenhos de cana: “Tal avanço sobre a terra nada teve de pacífico, sendo numerosos os registros de reação violenta das populações indígenas à incorporação de sua força de trabalho nas fazendas de gado”, ela afirma.

“À custa de tramoias, de ameaças e de chacinas, os criadores de gado espoliaram a maioria deles, e os remanescentes de vários grupos se viram obrigados a juntar-se nas terras que lhes restavam, insuficientes para o provimento da subsistência à base da caça, da coleta e da agricultura supletiva desses índios.”

A ditadura militar também estimulou a atividade ao promover a colonização da Amazônia. A construção da rodovia Transamazônica (1968-1974) empurrou a fronteira pecuária até o sul do Pará, enquanto a oeste fazendeiros – muitos deles paulistas e gaúchos – substituíam florestas por pastagens em Mato Grosso, em Rondônia e no Acre, às margens da BR-364.

Até hoje, a pecuária é tida como a principal responsável pelo desmatamento da Amazônia. Áreas destruídas pelo fogo podem se tornar pastagens sem grandes custos, e a mobilidade dos bois permite que sejam criados longe de estradas e centros de consumo. Além disso, o gado criado em áreas desmatadas ilegalmente pode ser abatido e comercializado por frigoríficos regulares, o que dificulta seu rastreamento.

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