Carne, queijo e leite feliz?

Dr. phil. Sônia T. Felipe

vacasGosto de prestar atenção a um argumento e mergulhar em seus desdobramentos até o fundo. Hoje escolho, mais uma vez, o argumento da carne, do queijo e do ovo “feliz”, o argumento tão amado pelos bem-estaristas. Obviamente, chamar de feliz tudo isso já é uma piada. Imagina então o que não é chamar os animais, dos quais tudo isso foi arrancado, de felizes?

Quando é que um animal é chamado de “feliz” pelos comedores de alimentos animalizados? Quando lhes foi vendida a crença de que o animal cujas carnes, laticínios e ovos agora estão a comer foi “criado solto”.

Ser “criado solto”, por acaso, é o mesmo que “ser feliz”? Ora, ora, ora. Tem bilhões de humanos “soltos” por aí na maior infelicidade. Então, por que acreditar que se um animal foi forçado a nascer, mantido sob a guarda e manejo de um humano interessado em tirar dele alguma coisa, incluindo sua vida, esse animal foi “feliz”?

Só crê em tal coisa quem precisa muito manter o bem-estar da própria consciência, livrando-se do peso que a imagem de um animal atrofiado pelo manejo lhe causaria … no estômago. Sim, as pessoas que escolhem estar bem com sua consciência, mesmo causando o inferno à vida de porcos, galinhas, vacas, ovelhas, cabras, cães, gatos, cavalos e tantos outros caçados e pescados, matando-os para comer, não têm mesmo coração, só estômago.

Por que um animal nascido e mantido vivo por não mais que o período de bebê ou, no máximo, até chegar ao final de sua infância, teria sido um animal “feliz”? Vou explicar o por quê de tal coisa não existir a não ser na consciência bem-estarista de quem quer comer animalizadamente.

Aristóteles afirma que só se pode dizer de um homem se foi feliz ou não no velório dele. As palavras não foram exatamente essas, mas o sentido foi. Só quando uma vida completou seu ciclo e pôde ser desenhada à imagem daquilo que no vivente foi seu éthos, o primeiro traçado que indica a forma de expressão na qual a vida será plenamente levada a efeito, é que se pode concluir que tal vida foi “feliz”. Havia ali um plano, uma forma de expressão na qual aquela vida seria vivida até acabar o sopro, a chama, a força, a energia, naturalmente.

Toda vida “interrompida” por uma navalha, uma motosserra, uma marreta, um tiro, um gás, uma exaustão, é uma vida que não pôde expressar-se plenamente de modo ético, pois uma força externa a ela a interrompeu, intempestivamente. Acaba-se ali a chance de tal vida ser designada de “feliz”.

E sabem por que não é possível falar de carne feliz, de leite feliz, de ovo feliz, muito menos de tudo isso com o adjetivo “ético”? Por que ali, escondida em cada uma dessas comidas, havia um destino, um éthos que deveria ter sido vivido e tornado expressão. E a escravização, o abuso e a morte interromperam o projeto daquela vida, destruíram a imagem que ela veio para refletir.

Desde Platão, passando por Carl Jung e chegando a James Hillman (The Soul’s Code) temos uma ideia sempre revisitada de que antes de tomarmos a forma de vida na qual nascemos, tivemos chance de ver a imagem do que gostaríamos de vir a ser aqui neste planeta. A partir desta imagem ganhamos um anjo, nosso “daimon”, que vela por nosso projeto, mantém essa imagem vívida, para que a reencontremos após todos os roseios, rodeios e volteios que tivermos dado para nos esquivar de ser o que escolhemos ser antes mesmo de tomarmos a forma deste éthos animal que tomamos. Nosso “daimon” está aqui, ele carrega para nós a imagem que escolhemos vir a ser, porque o nascimento é um ato de tamanha tragicidade que nos leva a perder a memória de tudo o que antes ali estava. Precisamos da memória daquela imagem que escolhemos vir a ser. E nosso daimon a mantém intacta para quando retornarmos ao nosso projeto, sentido da palavra “conversão”.

O mesmo pode ser pensado para cada animal. Sua alma está aí para viver plenamente o éthos ou a imagem que o desenhou materialmente. Como podemos chamar de “feliz” um animal criado solto e matado quando ainda bebê ou no fim da infância? Frangos são mortos aos 43 dias, ou até menos, porcos são mortos aos 140 dias, bois aos dois anos de idade, vitelos, aos quatro meses. Todos bebês, todos crianças muito pequenas.

Como é que alguém pode acreditar na balela de que, por terem sido “criados soltos” e assassinados “humanitariamente” na mais tenra idade, esses animais foram “felizes” e, então, não há nada de antiético em se comer suas carnes, os laticínios feitos com seu leite ou os ovos que foram forçadas a pôr sem descanso? Se um animal foi forçado a nascer, se foi mantido sob domínio e manejo humano e ao final foi assassinado, essa vida, absolutamente, não foi nada “feliz”.

O bem próprio deste animal, conforme o conceituaram Tom Regan e Paul W. Taylor, desde a década de 80 do século XX, jamais foi levado em conta. O bem-estar da consciência de seus comedores é fabricado com propagandas enganosas, imagens falsas de uma soltura que de fato nem existe e a grande mentira de que se pode matar sem causar pânico um ser dotado de consciência igual à nossa. Entra lá, na fila do abate e aguarda a morte “humanitária” que inflige a todos os animais que come, depois me conta quão feliz foi ter sido impedido de expressar até o último fôlego a vida que escolheu vir aqui neste planeta viver!

Hoje é dia de Todos os Santos, pela fé Católica. Não há santidade alguma em se interromper a expressão da alma de qualquer animal, matando-o e arrancando-a da matéria que veio lhe dar forma, impedindo-a de desenhar a imagem que a definiu antes mesmo de tomar para si o design da espécie animal que escolheu vir a ser.

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