Carne de soja

Por Roberto Gonçalves Juliano

carne de sjoa Frequentemente, a (delicada) pergunta: “-Não me leve a mal, mas tenho percebido que os veganos fazem questão de comer coisas com nomes de produtos de carne, como quibe, linguiça, carne de soja, bife de soja, salsicha…. Não há aí uma incoerência? Seria mais lógico se buscassem outras texturas, comessem cenoura e alface, e não PVT, PTS, essa gama de produtos de soja com textura próxima à da carne.”
Nessa pergunta está embutida provocativamente uma “acusação”, a de que vegano é um amante da carne e que busca substituí-la com os mais diversos simulacros, intentando saciar-se no “me engana que eu gosto”, uma prova de que o ser humano é carnívoro.
Essa lógica torta comete alguns esquecimentos propositais, tudo com a finalidade de brincar de snooker.
Vamos, pela enésima vez, considerar que fazemos o que queremos ora bolas! E que esses nomes (linguiça, hambúrguer, salsicha) não são pertinentes à carne. Onde foi que li? Se está enrolado é linguiça/salsicha, se achatarmos vira hambúrguer e se fazemos bolinha vira almôndega, e isso com respeito a qualquer ingrediente. É tão simples o argumento que o reproduzi aqui, muito grato a quem o elaborou. Essas palavras não pertencem ao mundo carnívoro, que delas tenta apropriar-se para jogar sinuca com os veganos que considerem presas mais tranquilas de sua verve, embora tosca. Vamos devolver essas palavras aos dicionários e com o significado que lhes deu meu amigo anônimo.
Por outro lado, e se assim fosse?

Veganos são renunciantes radicais que, em um heroico dia, abriram os olhos para a realidade, perceberam o que se faz neste planeta e se recusaram a participar da matança. Esse é um dia heroico porque é o dia de contrariar a cultura em que estavam mergulhados há anos, quiça por toda sua vida, longa ou não, e seria natural que buscassem texturas que lhes demonstrassem que a renúncia é pífia. Mas muito mais do que isso:
Veganos são ativistas de uma causa que informa,a quem tem olhos de ver e ouvidos de ouvir que não há necessidade de bichos mortos para satisfazer os prazeres dos mais telúricos sabores. Vegano não é santo, vegetariano não é um ser superior, mas apenas alguém que se abriu para outros níveis de consciência. Da consciência decorre a responsabilidade.
Assim sendo, bem aventurados os simples, os que não têm a consciência do que fazem, pois nenhuma responsabilidade lhes é cobrada. Da inconsciência e da ignorância vem sua paz, efêmera paz que satisfaz apetites, destrói o planeta e inviabiliza o futuro.

Carne vermelha não pode? Pode, mas eu não quero.
Peixe pode, não pode? Pode, mas eu não quero.
Pode o que quisermos, mas o que queremos depende do grau de consciência que alcançamos e do amor que de nós emana em direção a todos os seres do Universo.

Roberto Gonçalves Juliano é Licenciado em Letras, Português e Latim; pós-graduado em Linguística e Literatura Brasileira, e doutorado em História Social. Professor do Cursinho do Objetivo (São Paulo). Autor do livro O dilema do vegano.

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