Mengeles do Brasil e a nova ordem social

Caso Instituto Royal

Por Júlio Ottoboni
Mengeles do Brasil e a nova ordem socialJosef Mengele (1911-1979), um dos mais terríveis nomes gravados no histórico das perversidades produzidas sob a égide da ciência, deixou herdeiros no Brasil. Longe de ser gêmeos idênticos, filhotes da ficção sobre a manipulação genética, mas seguidores da mesma visão antropocêntrica que confere ao homem subordinar todas as outras espécies de vida e habitantes do planeta aos seus caprichos e interesses, principalmente os de ordem econômica. Como se a ciência conferisse a seus seguidores a condição de semideuses, olímpicos e inquestionáveis.

Aos poucos, setores da imprensa e a própria sociedade diante da democratização do conhecimento passaram a revelar as imperfeições de Narciso. E ele se revoltou – não é tão belo quanto propala ser. O protesto, seguido de invasão do Instituto Royal, em São Roque, interior paulista, mostrou que a ciência narcísica ainda predomina em vários de seus setores e prefere promover discursos anacrônicos e obsoletos na tentativa de explicar-se diante dos questionamentos novos e emergentes.

Ao instituto coube tentar explicar que os cães e outras cobaias não sofriam com seus experimentos, apesar de boa parte da imprensa e dos manifestantes terem apresentado imagens absolutamente revoltantes quanto à condição de saúde e vida dos animais. Quando esse argumento foi derrubado, partiu-se então para os chavões do mundo científico, como o imenso prejuízo à pesquisa, a perda de anos de estudos e a legalidade dos procedimentos.

Informou também que seus clientes, usuários de seus serviços e consorciados, estavam protegidos por segredo contratual sobre que ocorria no interior do campo de concentração tropicalizado. Só não soube explicar o porquê não ter migrado para tecnologias muito mais avançadas como a dos softwares. Hoje, a própria comunidade científica de centros mais avançados combate o uso de animais em experimentos.

Financiamento agendado

À imprensa coube assegurar o direito da privacidade dos financiadores do terror e transformar os ativistas em terroristas. A mídia está se tornando pródiga nisso, pois de investigação existe pouco nas redações que estão cada vez mais semelhantes a repartições públicas burocratizadas e entupidas de preconceitos.

Sempre pelo caminho mais fácil, o jornalismo nonsense tratoue rapidamente de replicar as antigas estruturas – cientistas cultos e arautos da humanidade contra incultos e idiotizados. Sequer houve a sensibilidade mínima das chefias de reportagem para incluírem nas pautas informações que dessem parâmetros para se compreender os níveis de sofrimento físico e emocional dos animais resgatados.

Inclui-se nessa masmorra jornalística mais um fato. Os ativistas ligados aos direitos dos animais reclamaram muito sobre a abordagem das reportagens de alguns veículos de comunicação, particularmente da Rede Globo e suas afiliadas, e de seu portal G1. O material produzido teria sido, no mínimo, tendencioso e quando não displicente, pois os repórteres tiveram em mãos informações como o uso de primatas pela entidade e sequer buscaram se aprofundar no assunto. Embora isso não chegue a espantar, dado ao histórico deste complexo de comunicação em atuar como porta-voz de setores guarnecidos pelos poderes político e econômico. Além disso, havia a chancela da legalidade a favor dos pesquisadores.

A destruição reclamada pelos diretores e doutores geneticistas do Instituto Royal deverá ser recuperada em breve. Pois a entidade receberá até o final de 2014 um gordo financiamento do governo federal, via Finep, órgão ligado ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação. E ainda sensibilizou por demasiado a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), que emitiu nota à imprensa destacando que “o Instituto Royal foi criado para promover o desenvolvimento e a pesquisa de tecnologias inovadoras”.

Mais adiante

Os senhores da verdade, da razão e da lógica cartesiana estão sendo forçados a deixar o pedestal muitas vezes edificado na arrogância, na presunção e em egos especularmente inflados para estabelecer novas frentes de diálogo. O discurso da ciência tem de sair do século 19 e ingressar nesta nova era, na qual os status quo estão sendo desmontados diariamente e reconstruídos sob a observação de milhões de cidadãos. Achincalhar a opinião pública, ignorá-la, será a partir de agora erro primário.

Apesar da ciência se postar como agnóstica, ainda se serve em muitos casos – mesmo que subliminarmente – dos dogmas judaico-cristão, como estabelecido pelo livro do Genesis, quando Deus disse: “Façamos o homem à nossa imagem e semelhança. Que ele reine sobre os peixes do mar, sobre as aves dos céus, sobre os animais domésticos e sobre toda a terra, e sobre todos os répteis que se arrastem sobre a terra”. Mas se esqueceu de que alguns versículos a frente surgiria a Arca de Noé.

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Júlio Ottoboni é jornalista, pós-graduado em jornalismo científico.

Fonte: Observatório da Imprensa

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