A dieta dos gregos

a dieta dos gregosSônia T. Felipe, em seu livro Galactolatria: mau deleite, resgata de uma forma muito apropriada o significado da palavra dieta, derivada do grego díaita, “modo de viver”, não apenas “comer”. Segundo ela “para o grego, o modo de comer é parte da dieta do indivíduo, um dos elementos do seu modo de vida. Portanto, comer não é algo à parte da moralidade humana, mas uma de suas características fundamentais, pois o espírito alimenta-se sutilmente da matéria ingerida”.

O ato de comer é o mais básico de nossa existência. Certo é que, “nem só de pão viverá o homem”, mas sem ele não sobrevivemos. Por meio dele é possível contar a história da humanidade. Não estamos acostumados a questionar sobre aquilo que oferecemos a nós mesmos ao longo do dia; se ingerimos além do que precisávamos; se passamos muitas horas sem nos alimentar; ou mesmo se bebemos água. Perguntamos menos ainda: aquilo que comi veio de onde? Quais processos foram utilizados? Sou coparticipante de qual sistema produtivo? Definitivamente, nossa concepção de dieta está longe da grega e se reduz a defini-la se é “da lua”, “da sopa”, ou do “Dr. Atkins”, e nada disso tem relação com a nossa corporeidade, com o nosso “ser sendo” ou como nos colocamos no mundo.

Ao sentarmos à mesa, conectamo-nos à terra que nos fornece os grãos, às frutas, aos frutos, folhas e raízes com todas suas cores, cheiros e formas repletas de todo o tipo de nutrientes de que necessitamos. Por falar em terra, qual a última vez em que nela pisamos? Quão longe estamos do húmus do qual fomos feitos! Carl Honoré, no livro Devagar, diz que nunca percorremos tantas distâncias e nunca pisamos tão pouco na terra! De outra forma, junto à mesa, podemos nos conectar aos abatedouros que nos fornecem “peças de carne”; às indústrias de extração de leite, entre outros produtos da indústria animal.

Aquilo que está em nosso prato pode nos remeter a dois tipos de mãos: daqueles que trabalharam semeando ou no cultivo, ou naquelas manchadas com o sangue de seres que foram privados de viver a própria vida a seu modo, para desfrutarmos de um efêmero prazer gastronômico.

O prato vazio remete-nos àqueles que, neste exato momento, não têm o que comer e que perambulam pelas ruas pedindo o pão. O que dizer daqueles que estão nas áreas castigadas pela seca e dos refugiados que imploram abrigo e um pedaço de pão? Por que tantos comem sem fome e outros não têm o bastante para saciá-la? Sejamos honestos: o que falta é mesmo o alimento? Sabemos que não. Basta investigar para onde vai a produção dos grãos nobres (aveia, milho, soja etc.) que a terra sobejamente nos oferece ou qual o destino dos milhões de hectares que deveriam ser de campos cultivados.

Enfim, o simples ato de comer, na verdade, o que tem de simples tem de complexo. Com ele vamos dizendo a que viemos, “como nos colocamos no mundo” e que tipo de alianças, associações e conexões, conscientes ou não, estamos fazendo. Tenho uma dúvida se a nossa “dieta” não está provocando a cegueira que nos impede de enxergar as interconexões ou a complexa teia de relações entre todas essas coisas.

Artigo de Aleluia Heringer – do Anda

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