Direitos Animais em venda casada

por Sérgio Greif

O biólogo Sérgio Greif

O presente artigo traz um questionamento de até que ponto pode-se exigir do vegano, defensor dos direitos animais, um posicionamento em relação a questões políticas e ideológicas alheias à própria causa. Podem os direitos animais obedecer às demandas políticas de grupos específicos? Devem os veganos pensar de maneira uniforme sobre todos os assuntos? Trata-se de uma reflexão pessoal do autor e não reflete a opinião do veículo que o publica.

Costumeiramente tenho reiterado em minhas colocações que o veganismo e os direitos animais não devem ser associados a correntes políticas, filosóficas, religiosas ou a movimentos sociais, com risco de perda de adeptos. O veganismo é para toda a humanidade e não apenas para grupos de seres humanos que possuem determinados posicionamentos.

Ocorre que já há tempos percebo uma tendência de alguns indivíduos engajados em correntes supremacistas e grupos religiosos proselitistas, que pregam repetidamente que seria obrigação de todos os veganos seguirem em sua mesma direção, ou adotarem suas mesmas crenças. Ora, nada mais distante da realidade. Isso seria restringir bastante as possibilidades dentro do veganismo.

É claro que há elementos que não podem ser dissociados do veganismo, não quer dizer que tudo o que determinado indivíduo associe ao veganismo seja realmente parte dele. As pessoas adotam suas ideologias baseadas em estruturas de pensamentos específicas, não quer dizer que tais estruturas de pensamento estejam corretas nem que sejam as únicas que levem a tais conclusões. Há que se considerar que diferentes indivíduos possuem diferentes experiências, conhecimentos e planos de fundo (backgrounds).

Veganismo & Direitos Humanos

O veganismo é a expressão da teoria dos direitos animais na prática. E sendo os seres humanos animais, é claro que veganismo diz respeito também aos direitos humanos. Resta a discussão do que sejam direitos humanos e se há seres humanos cujos direitos devemos defender em detrimento de outros.

Quando dois lados se enfrentam de maneira ostensiva, e impera o dilema do matar ou morrer, é claro que mesmo que um dos lados seja composto exclusivamente por “pessoas de bem” (se é que isso é possível) ele terá de tentar provocar no lado oposto o maior dano possível. Não fazer isso seria assinar sua própria sentença de morte. É por isso que na disputa entre dois lados torcemos para que a situação não chegue a isso, mas se chegar que vença o lado mais justo.

Em outras palavras, sinto muito que 5,5 milhões de alemães nazistas, e mais outros milhões de nazistas de outros países, tenham morrido durante a Segunda Guerra Mundial, mas antes eles do que qualquer outro ser humano. Não tê-los combatidos, mas permitir que eles avançassem teria sido muito pior para o mundo inteiro. Alguém pode dizer que esse posicionamento é contra os direitos humanos e que eu deveria me envergonhar de pensar assim, mas fato é que isso não me envergonha em nada.

No Brasil vivemos uma guerra constante entre as forças policiais e o crime organizado. Sim, sei que em alguns casos a polícia extrapola suas funções, abusa do poder e mesmo executa suspeitos, sem a possibilidade de julgamento e defesa. Mas muitos destes suspeitos são simplesmente mortos em combate. Não vejo como atirar em um indivíduo que está tentando te matar seja ferir princípios de direitos humanos, nem demonizo ou desumanizo as forças policiais, porque o trabalho que eles desenvolvem é, em suma, a defesa dos interesses da população em geral.

Posso discutir isso mais extensamente com quem quiser, mas a forma como eu vejo é essa. Se for para morrer um policial ou um criminoso, que seja um criminoso. Se for para morrer um policial ou 10 criminosos, que sejam 10 criminosos.

Isso não é defender direitos humanos de forma seletiva. Defendê-los de forma seletiva é se manifestar apenas quando a policia mata o criminoso, mas não quando o criminoso mata um policial. Não vejo grupos de direitos humanos se manifestarem em favor dos policiais, nem apoiarem as famílias em momentos de perdas de seus entes, então questiono se esses grupos defendem direitos humanos de fato ou interesses políticos ou ideológicos ocultos.

Nas últimas semanas meu perfil no Facebook tem sido atacado por indivíduos com base no grupo étnico ao qual pertenço, fazendo alusão às operações que Israel vem realizando na Faixa de Gaza. Conheço muitos outros judeus étnicos que receberam os mesmos tipos de mensagens e que, talvez por isso, trataram de condenar as operações em Israel como sendo “crimes de guerra”.

Não é novidade que grupos de ódio utilizem Israel como desculpa para fazerem aflorar seus preconceitos anti-semitas (antes de Israel existir o que se usava eram mitos como os que os judeus disseminavam a peste bulbônica, que usavam sangue de crianças para fabricar pães ázimos de Páscoa ou que faziam bruxaria jogando nós em poços de água). Nesse caso ao menos as operações em Gaza de fato ocorrem, resta a discussão de se elas são defensáveis.

Conforme algumas críticas chegavam ao meu perfil eu as respondi, com maior ou menor tolerância. Quem me conhece pessoalmente, e já há algum tempo, sabe que sou uma pessoa extremamente cordial, racional e respeitosa, mas realmente alguns assuntos já me saturaram a paciência, e este é um deles. Então passei a revidar com a mesma agressividade que recebi.

Não entro em meu perfil já há algumas semanas, por motivos de trabalhos e viagens, mas fui informado por amigos próximos que estes receberam questionamentos em relação ao assunto, porque após ser atacado por motivos étnicos ao invés de me retrair defendi as operações de Israel. Algumas pessoas questionaram se haveria aí incompatibilidade entre a defesa dos direitos humanos (e portanto animais) e a defesa do direito de Israel continuar existindo.

O Facebook não é a plataforma mais adequada para eu fornecer uma resposta extensa sobre o assunto, e sequer creio que este texto seria a resposta mais adequada. Toda a informação que as pessoas dispõe sobre o assunto provém da mídia, que é extremamente enviesada. Eu me coloco à disposição (aliás, sempre me coloquei), para esclarecer a quem quiser honestamente entender o que se passa em relação a esse assunto.

Minha recomendação é que as pessoas deixem de lado seus preconceitos e passem a tentar entender a situação como algo muito mais complexo do que a TV, a Carta Capital ou a Wikipedia mostram. Caso contrário, qualquer defesa de direitos humanos será unilateral e hipócrita.

Antes de passar à explicação, torno claro que não defendo Israel por uma questão étnica ou religiosa. Sou descendente de judeus da Europa Central, Oriental e do Báltico, mas etnicidade e religião não são boas razões para qualquer posicionamento meu. Quem me conhece sabe que sou ateu assumido e no nível pessoal me dou igualmente bem com judeus e árabes, cristãos e muçulmanos. Simplificar os conflitos da região como étnicos ou religiosos é cair na armadilha da retórica. Embora esses elementos estejam presentes, e sirvam em especial para manipular as massas, a questão é bem outra.

Direitos Humanos & Israel

Conforme deixei claro acima, eu sou contrário às guerras e às violações de direitos humanos. Porém, me oponho à defesa seletiva de direitos humanos, pois todos os seres humanos por princípio merecem esse direito, inclusive os israelenses. Não cabem aqui análises simplistas à questão. O conflito em Gaza não começou em 07 de julho de 2014, quando a mídia ocidental resolveu dar alguma noticia sobre o assunto.
Nesse momento as pessoas estão se reunindo em passeatas, assinando abaixo-assinados online e postando material de repúdio a Israel em suas páginas do Facebook, deplorando as ações militares que matam civis inocentes na Faixa de Gaza. Mas considero realmente estranho que isso só ocorra nos momentos em que Israel contra-ataca, mas nunca quando é atacado.

O mundo se comporta com a parcialidade de tios que tem vários sobrinhos, sendo um deles rejeitado. Enquanto os primos queridos estão batendo no rosto do primo rejeitado e atiram coisas nele, mas ele permanece passivo, está tudo bem: são apenas crianças brincando. Mas quando o primo rejeitado resolve reagir e lesa seriamente um dos primos queridos os parentes intervêm, tentam separar, pedem que ele se acalme e que não use “força excessiva”.

Eu já havia ouvido o argumento risível de que Israel utiliza força desproporcional contra o Hamas. Ora, “força desproporcional”? O objetivo estatutário do Hamas é a destruição de Israel, que força deve ser usada nesse caso?

Israel diariamente recebe mísseis Qassam e morteiros Katyusha em seu território. Entre janeiro e junho de 2014 (antes da ofensiva israelense) o Hamas lançou contra Israel 181 mísseis e 16 morteiros, foram feridos 07 israelenses; em 2013 o Hamas lançou 52 mísseis e 18 morteiros; em 2012 lançou 2.221 mísseis e 196 morteiros, matando 6 israelenses e ferindo 69. Em 2011 foram 419 mísseis e 258 morteiros que mataram 3 e feriram 46.

Não vi pessoas se mobilizando pelo Facebook, não vi sequer um comentário. Agora as pessoas vem falar em força desproporcional? Em termos numéricos o Hamas lança todos os anos mais mísseis em Israel do que Israel lança em Gaza, se há alguma desproporcionalidade não é de Israel.

Se os ataques de Israel matam e ferem mais é porque Israel utiliza um sistema antimísseis eficiente e monitora cada atividade na faixa de Gaza. Talvez os apologistas da proporcionalidade desejassem ver mais baixas do lado israelense, assim veriam mais equilíbrio na equação e achariam a situação mais justa. Ou então Israel deveria abrir mão de seus mísseis teleguiados que acertam alvos específicos e começar a utilizar os mesmos foguetes que atingem alvos aleatórios utilizados pelos árabes. É indefensável e até ridículo qualquer desses pontos de vista, eu simplesmente não tenho nem como leva-los à sério.

Se o Hamas tivesse o poder de fogo que Israel possui atualmente, Israel já não mais existiria, no entanto, Israel é bastante comedido em sua resposta, atingindo precisamente os terroristas e tentando minimizar os efeitos à população civil.

O Hamas não está preocupado em poupar a população árabe dos ataques de Israel, pelo contrário, quanto mais pessoas morrerem em ataques israelenses melhor para sua propaganda. É por isso que seus escritórios são instalados em hospitais e escolas, e que os mísseis e morteiros são lançados contra Israel a partir de vizinhanças populosas ou na proximidade de empreendimentos mantidos pela ONU.
Israel monitora e sabe precisamente de onde saiu cada míssel e cada morteiro, mas em geral não pode responder aos ataques por medo de atingir civis inocentes. Pior do que terroristas que utilizam pessoas inocentes como alvo, o Hamas utiliza sua própria população, civis, mulheres e principalmente crianças, como escudo.

Está aí uma questão importante com a qual organizações de direitos humanos deveriam se preocupar: Desde os tempos da OLP de Yasser Arafat, que fechou escolas para que as crianças fossem a campo atirar pedras nos soldados, até o Hamas, que literalmente treina crianças para usar armas e explodirem seus próprios corpos em nome da “Causa Palestina”, são os árabes que causam maior número de baixas entre seus filhos.

Digite-se “crianças” e “hamas” no Google imagens e quem ainda não sabe fica sabendo. O Hamas arma crianças que mal sabem andar, então contra quem os grupos de direitos humanos deveriam se colocar? E se uma criança de 10 anos se aproxima rapidamente com armas na mão ou explosivos atados ao tronco e coloca em risco a segurança da outra parte, de que forma trata-la simplesmente como uma criança?
Quando civis, mulheres e crianças morrem em Gaza melhor para a propaganda do Hamas, pois as pessoas que em seu íntimo já odeiam os judeus por seus motivos os mais variados tem motivos para manifestar esse ódio. Chegaram a circular imagens de massacres cometidos contra civis pelo regime sírio e iraquiano e enquanto as pessoas achavam que haviam sido judeus que os cometeram toda sorte de maldições foram proferidas, mas após demonstrado que as imagens se referiam a massacres cometidos por árabes contra árabes, o mundo novamente silenciou em relação a  elas.

Está certo, as pessoas dirão que não odeiam os judeus, que tem muitos amigos judeus queridos, que há muitos judeus que se opõem às ações de Israel e que nem todos os judeus são sionistas, mas em verdade Israel em nada difere de qualquer outro país. Ele se formou nos mesmos moldes de todos os demais países, e sua história está envolta até mesmo em menos contrariedades aos direitos humanos do que a maioria dos países, mas nenhum outro país é tão questionado e até perseguido por seus opositores. Se isso não for ódio puro não saberei o que é.

Direitos Humanos & Países Árabes

Tenho números referentes a todas as operações militares realizadas no Oriente Médio se alguém quiser debater o assunto comigo; conheço as datas e razões que levaram a cada uma das guerras e sei quem começou cada campanha militar, que país atacou quem primeiro, antes mesmo desses países se formarem. Se alguém quiser debater o assunto comigo com mais profundidade estou disponível.
Só estranho que, repentinamente, tantas pessoas se digam entendidas em relação aos conflitos no Oriente Médio, ou que atribuam a culpa de tudo a Israel, justamente o país que mais respeita direitos humanos na região. Acho mesmo irônico que de repente tenhamos tantos especialistas e tantas pessoas preocupadas com o Oriente Médio, porque se há uma coisa que o veganismo prega é a igual consideração de interesses.

Em primeiro lugar os problemas do Oriente Médio não se restringem a Israel (na verdade os maiores problemas da região ocorrem longe de lá) e, em segundo lugar, que tipo de direitos humanos são esses que desconsideram os direitos dos israelenses? Se alguém não entendeu minha pergunta é porque simplesmente não entende a situação da região. Novamente fica minha sugestão de estudar.

Tenho claro por vários exemplos que as pessoas que defendem os “direitos humanos dos palestinos” estão em geral pouco preocupadas com os árabes. Árabes cristãos estão sendo, neste mesmo momento, expulsos das terras que já vinham ocupando no Iraque antes mesmo do país se tornar árabe e islâmico. O mesmo está ocorrendo nesse mesmo momento na Síria.

Durante a “primavera árabe” ditadores de vários países da região massacraram seu próprio povo e não vi uma única linha no Facebook, um único protesto em frente a alguma embaixada. O governo brasileiro se limitou a declarar, com relação à violação de direitos civis pelo Irã e outros “países amigos”, que o Brasil não discute questões internas dos países (não, exceto as questões internas de Israel).

Então sim, defendo direitos humanos, mas questiono as pessoas que carregam a bandeira dos direitos humanos e só a hasteiam quando lhes convém. O importante é defender os direitos humanos dos árabes ou cumprir com uma agenda oculta que implica na destruição de Israel? Se a idéia era defender os direitos humanos dos árabes várias oportunidades foram perdidas apenas entre 2013 e 2014, para não dizer outros anos.

Base para uma defesa ideológica de Israel

Não é necessário ser judeu ou gostar de judeus para apreciar Israel, o país representa no Oriente Médio a democracia, o livre pensar, a livre iniciativa, a igualdade de direitos, a justiça social e os direitos humanos de fato. Curiosamente os países, indivíduos, partidos, grupos e ideologias que mais severamente criticam Israel são justamente os que estão mais distantes dessa configuração.

Os que criticam Israel de forma moderada, em geral, fazem suas colocações com base em elementos que obtiveram de difamadores e pessoas de má fé. Quando expostos à integridade dos fatos a tendência é que deixem de demonizar o país, bem como desumanizar seus habitantes.

Sim, há também pessoas que vivem em Israel e que tem uma tendência a demonizar o sistema aberto em que vivem, mas é fácil entender como isso ocorre. São tendências políticas. Não existem também no Brasil grupos que se dizem “revolucionários” e denunciam o sistema, lutam por estabelecer uma nova ordem baseada em sistemas mais retrógrados do que os que temos atualmente? Tais grupos não se envergonham em adotar as mentiras que lhes convierem, em defesa de sua ideologia particular.

Mas mesmo isso prova que há democracia no país. Se tais grupos não são meramente suprimidos, nem seus membros são sumariamente executados como se costuma fazer nos países árabes com opositores do sistema, isso prova que se trata de um país bom. A ausência de opositores não seria suspeita?

Por outro lado há árabes e muçulmanos que, vivendo em Israel ou não, se identificam com o país, vendo no mesmo a melhor opção para os árabes no Oriente Médio. Daí a questão ser mais complexa do que parece. Por mais incrível que pareça as defesas mais apaixonadas que recebi de Israel nos últimos anos partiram de árabes nascidos no Líbano, na Síria e no Iraque e vivendo no Brasil. Desiludidos com seus próprios governos, de fora puderam perceber que todo o falso doutrinamento que receberam contra Israel nada mais era do que formas de mantê-los em regimes totalitários. Crie um inimigo externo para culpar pelos problemas internos.

Eu particularmente não defendo Israel por causa de meus vínculos étnicos, menos ainda religiosos. Defendo Israel porque tenho uma clara visão da situação. De um lado temos sistemas ditatoriais, corruptos, tribais e teocráticos, que desconhecem direitos para minorias étnicas e religiosas, os direitos de tribos rivais, de mulheres, de homossexuais, de animais, etc. De outro lado temos um país onde minorias étnicas e religiosas encontram igualdade de direitos, mulheres tomam parte em todos os assuntos internos e homossexuais não são discriminados.

Veganismo & Israel

Acho mesmo irônico que alguém tenha visto incompatibilidade entre minhas posições sempre defendidas, pelos direitos animais e pelo veganismo, e minha defesa de Israel. Não parece óbvio que este deva ser um país a ser defendido?

Israel é o país que possui maior percentagem de veganos no mundo. O veganismo é aberta e seriamente defendido no parlamento israelense (o knesset). O Tzaha’l, o Exército de Defesa de Israel, até onde sei, é o único serviço militar do mundo que se preocupa em oferecer refeições vegetarianas para seus soldados. Além disso, Israel já aboliu os testes de cosméticos em animais e é o único país do Oriente Médio que possui grupos de direitos animais.

Quando os judeus da Europa e do Iêmen se organizaram em ondas migratórias em direção a Israel, no fim do século XIX e início do século XX, encontraram uma terra devastada por séries de ocupações irresponsáveis. Não existiam mais as florestas e animais como os descritos na Bíblia, apenas pântanos ao norte e desertos ao sul. Iniciou-se então um programa de reflorestamento e reintrodução dos animais que antigamente existiam na região (o Irã ajudou Israel fornecendo mudas de árvores e matrizes de animais silvestres). Israel é o único país do mundo que hoje possui mais florestas do que possuía 100 anos atrás.

Qual o país que está mais próximo de atingir o ideal do veganismo?

Israel & os Árabes

Sim, não ignoro que entre as ditaduras medievais árabes e o moderno Estado de Israel existe uma população árabe que vive no interstício fronteiriço e que sofre diariamente pela situação em que se colocou ou que foi colocada, no entanto, atribuir a Israel a culpa por essa situação é desconhecer os fatos.

Não há nada em relação à formação do Estado de Israel que o difira de outros países, portanto, a discussão quanto ao seu direito à existência faz tanto sentido quanto a discussão do direito à existência de países como o Brasil, os Estados Unidos ou a Austrália. Mesmo os demais países do Oriente Médio se formaram em situações muito piores e não muitos antes de Israel.

De forma pontual exporei a seguir alguns fatos que servem de resposta às colocações que recebo com maior frequência em relação ao conflito. Eles tornam claro não haver nenhuma incompatibilidade entre a defesa do Estado de Israel e a defesa dos direitos animais/veganismo.

– O sionismo não é uma ideologia racista ou discriminatória, como os opositores de Israel querem fazer parecer. O sionismo surgiu como aspiração à auto-determinação, frente às perseguições contra judeus na Europa. O termo faz referência ao Monte Sion, Jerusalém, e ao vinculo ancestral dos judeus com o território. Isso não significa que o sionismo deplore outras etnias ou religiões, nem coloque os judeus em uma posição superior. (É possível que alguns israelenses expressem sentimentos racistas, mas eles não respondem pelo Estado e nem pelo povo judeu como um todo).

– Israel se constitui em uma sociedade diversa, multi-étnica e multi-religiosa. Trata-se do único país do Oriente Médio que permite a obtenção de cidadania por qualquer individuo do mundo, independente de sua origem. Há ali exilados sírios muçulmanos, exilados sudaneses muçulmanos, exilados filipinos cristãos. Todos os cidadãos gozam os mesmos direitos, inclusive os árabes, e há diversas ações afirmativas com vistas a igualar as oportunidades e tratamentos entre os diferentes grupos. Sim, o racismo que antes não existia passa a existir à medida que aumenta a insegurança e determinados grupos são identificados com o aumento da violência, mas, novamente, são indivíduos que estão errando, e não o país.

– Não é verdade que os judeus abandonaram a região por 2 mil anos. A maior parte dos judeus de Israel vieram da Europa e dos países árabes, mas uma população local sempre esteve lá. Ademais, fosse onde fosse na diáspora, os judeus sempre se referiram a Israel.

– Não é verdade que os árabes que viviam lá por ocasião da formação de Israel eram locais. Em 1948, 500 mil árabes eram locais, mas 900 mil provinham de outras regiões e foram atraídos para lá, entre 1880 e 1947, pelos salários pagos pelos judeus e pelos incrementos nas técnicas de agricultura. Não havia então distinção nacional entre os árabes, nem eles eram referidos como palestinos, sírios, iraquianos ou libaneses, porque essas nações sequer existiam.

– A Arábia Saudita e o Iraque são apenas 16 anos mais velhos do que Israel, o Líbano é 5 anos mais velho e a Síria e a Jordânia são 2 anos mais velhas. Absolutamente nenhum desses países possui população homogênea e absolutamente nenhum deles foi fundado com pleno consentimento de todas as etnias e grupos religiosos ali residentes. Em todos os casos, menos Israel, o que se implantou foram ditaduras absolutistas onde quem governava era uma minoria violenta que subjugava as demais tribos. A lei nesses países tem sido, desde então, “ou se aceita ou morre”.

– Israel não foi criado em cima de um outro país previamente existente, pois jamais existiu um país chamado Palestina. Palestina foi o nome que os romanos deram para a região que compreendia a Faixa de Gaza, mas que depois passou a se referir ao que hoje compreende o Estado de Israel, o reino da Jordânia e os territórios da margem ocidental do rio Jordão (Judéia e Samária) e da Faixa de Gaza. Todo esse território era chamado pelos árabes de Bilad Al-Sham (Levante), juntamente com o Líbano e a Síria, e tudo foi parte do Império Otomano, de 1281 a 1923. Não havia, até 1948, uma identidade nacional palestina (“Palestinos” até 1948 eram os judeus que haviam migrado para a Palestina, os árabes eram apenas árabes. Aliás, a língua árabe sequer possui pronuncia para o “P”), porque a forma de organizações dos árabes obedece a critérios tribais e religiosos, e não havia distinção de nacionalidades.

-Israel foi criado em 1948 em um território que era administrado pela coroa britânica, em terras que já vinham sendo compradas por colonos judeus de árabes residentes em Damasco (Síria) desde o século XIX, quando o território ainda era administrado pelos Otomanos. Os turcos permitiram aos judeus se fixarem na região, os proprietários de terras árabes venderam suas terras (65% das terras da Palestina a oeste do rio Jordão já haviam sido compradas pelos judeus quando de sua declaração de independência), a Declaração Balfour assegurou o direito dos judeus constituírem ali um “Lar Nacional”. Não houve confisco de terras, expulsões de árabes, nada disso.

– As animosidades entre judeus e árabes surgiram em 1920, em decorrência do nacionalismo árabe (pan-arabismo) que pretendia fazer do Oriente Médio inteiro uma federação árabe. Um Lar Nacional Judaico ia de encontro a esta proposta. Em 1920, incursões de centenas de xiitas vindos de Jabal Amil no Líbano atacaram a aldeia de Tel Hai, na Galiléia. No mesmo ano, durante o festival muçulmano de Nabi Musa, em Jerusalém, líderes religiosos incitaram os muçulmanos contra os judeus.

– Além de outros ataques menores, merece destaque um ocorrido em 24 de agosto de 1929, em Hebron, onde aproximadamente 70 judeus, entre homens, mulheres e crianças foram mortos a facadas, mutilados, estuprados e submetidos a torturas. Em todos esses casos os vizinhos árabes intervieram para proteger os judeus.

– Em 1922 a Grã-Bretanha entregou para o filho do xerife e emir de Meca e auto-proclamado Rei do Hejaz (Arábia Saudita), auto-proclamado califa de todos os muçulmanos, Hussein bin Ali o controle de 78% da Palestina, todas as terras a leste do rio Jordão. Ali poderia ter sido criado o Estado Palestino, mas ao invés disso criou-se a “Transjordânia”, mais tarde rebatizada Reino Hashemita da Jordânia. Um estado árabe constituído de “palestinos”, mas governado por uma tribo de origem saudita.

– Os restantes 22% da palestina seriam destinados ao Lar Nacional Judaico (prometido pela Declaração Balfour). O movimento pan-árabe se empenhou em impedir tal processo, pois em suas concepções nacionalistas, a Palestina deveria ser toda dos árabes. Árabes que continuavam a vender suas terras para os judeus eram mortos pelos nacionalistas árabes.

– Em 1941, o grande Mufti de Jerusalém, Mohammad Amin al-Husseini, foi recebido por Adolf Hitler, com honras de Chefe de Estado. Ele queria trazer uma proposta de solução final para o problema dos judeus na Palestina, à semelhança do projeto que a Alemanha vinha desenvolvendo em toda a Europa. Mas Hitler aparentemente estava ocupado demais para se empenhar nessa atividade.

– O sobrinho e amigo próximo do grande mufti, Mohammed Abdel Rahman Abdel Raouf Arafat al-Qudwa al-Husseini, ficou conhecido pela alcunha de Yasser Arafat, e embora tenha adotado o terrorismo como forma de atuação pela maior parte de sua vida, ganhou popularidade no ocidente após adotar uma atitude superficialmente pacífica.  O mufti influenciou, além do jovem Arafat, Anwar Sadat do Egito e Gamal Abdel Nasser da Síria. O pan-arabismo então namorava o nazismo.

– Em 1947 a ONU propôs uma nova partilha da Palestina (além daquela que já havia ocorrido quando da formação da Transjordânia/Jordânia). Os judeus receberiam 53% do território (bem menos do que os 65% que eles haviam adquirido por meio da compra de terras de seus proprietários árabes), e os árabes receberiam 47% das terras. Os judeus aceitaram a partilha de imediato, os árabes não.

– Em 14 de maio de 1948 foi fundado o Estado de Israel. Em sua declaração de independência, David Ben Gurion conclama os árabes de Israel a participarem da construção do país e aos árabes dos países vizinhos a viverem em paz e boa vizinhança, para estabelecer laços de cooperação e ajuda mútua. No dia seguinte à proclamação de independência o Egito, a Síria, o Líbano, o Iraque e a Transjordânia atacaram Israel, com apoio de recursos de outros países.

– Podemos dizer que este foi o início do problema com os refugiados palestino. Os palestinos chamam a esse episódio de Al-Naqba, o desastre. Quando os exércitos árabes decidiram atacar Israel, em maio de 1948, eles avisaram a população árabe local, fazendo uso de rádios e outros recursos, de que invadiriam o território com grande força e que “jogariam judeus ao mar”. Essa retórica levou as populações árabes locais, temendo estar na linha de fogo dos poderosos exércitos árabes, a buscar refúgio além de suas fronteiras.

– Uma guerra que a bravata dos ditadores árabes julgava ter fim em uma ou duas semanas durou 10 meses, com as forças israelenses conseguindo rechaçar os invasores árabes e tomar, além do território que a ONU lhe havia destinado, mais 60% das terras que haviam sido destinadas para a formação do Estado Palestino, a oeste do Jordão.

– Importante que até então os israelenses não contavam com apoio dos norte-americanos, nem dos europeus, nem de nenhuma nação ocidental. As armas utilizadas por Israel para sua defesa eram sucateadas e improvisadas, e algumas poucas foram trazidas de forma clandestina da Checoslováquia.

– Ao fim da guerra, ao invés dos “palestinos” aproveitarem o armistício de 1949 para fundar o Estado Palestino a oeste do Jordão, permitiram que este ficasse sob controle da Jordânia (onde aliás já ficava 78% da Palestina).

– Hoje, as pessoas que odeiam Israel por algum motivo ou que acreditam na propaganda promovida por pessoas que odeiam Israel podem acreditar que o país tenha expulsado árabes de suas terras e casas por motivos raciais, mas a verdade é que o Naqba “palestino” foi provocado pelos próprios árabes. Se os árabes tivessem aceitado a solução de dois estados proposta pela ONU em 1947, ao invés de tentarem jogar os judeus ao mar, o território da Palestina hoje seria apenas 11,6% israelense e 88,4% árabe.

– 700 mil árabes fugiram do recém proclamado Estado de Israel em 1948, mas lembremos que 64% desses árabes sequer pertenciam a tribos locais, eles haviam sido atraídos pelos próprios judeus como mão de obra poucos anos antes. Lembremos também que os judeus já eram, para todos os efeitos, proprietários das terras que compraram. Mas se os árabes fugiram, foi porque os vizinhos árabes os incitaram para tal. Então de quem é a culpa pelo problema dos refugiados “palestinos”?

– Curioso que tanto se fale em direitos humanos para os árabes “expulsos de Israel”, mas nunca se fale de outra questão de direitos humanos ainda maior. Ao mesmo tempo em que ocorria a Guerra da Independência de Israel, 800 mil judeus residentes em outros países do Oriente Médio e norte da África eram expulsos de suas casas e forçados a fugir, fosse para Israel fosse para outros países. Mais 200 mil judeus foram expulsos nos anos seguintes, até a década de 1970. Esses judeus pertenciam a comunidades fixadas nesses territórios desde tempos muitos remotos, antes mesmo de sua arabização e islamização, e jamais se constituíram em grupos terroristas ou representaram qualquer risco às soberanias nacionais.

– Os judeus expulsos dos países árabes e islâmicos não se constituíram em legiões de refugiados, sequer pediram indenização pelos bens e terras que tiveram de deixar para trás, eles saíram e de pronto foram absorvidos em outros países. Os “palestinos”, pelo contrário, constituíram-se em população indesejável nos próprios países árabes, e assim permaneceram até o presente dia.

– Interessante que a “questão palestina” afete tanto os humores de árabes em geral. Será que eles amam tanto assim os “palestinos”? Vejamos: As leis sauditas permitem que pessoas expatriadas que tenham residido no país por 10 anos ou mais, que requeiram cidadania saudita. A lei é específica em vetar esse mesmo benefício especificamente aos “palestinos”. Mesmo um “palestino” que tenha vivido na Arábia Saudita e seja muçulmano sunita como a lei ordena, que tenha tido ali filhos e netos, ele sempre será um estrangeiro.

– O Líbano possui leis específicas que proíbem aos “palestinos” adquirirem terras, comprar imóveis ou desempenharem profissões como advocacia, medicina ou engenharia, entre outras. Entre setembro de 1970 e julho de 1971 a Jordânia matou entre 3 mil e 5 mil “palestinos”, na maior parte civis, no episódio que ficou conhecido como Setembro Negro (lembremos que a Jordânia é 78% do território da Palestina).

– Parece irônico que se atribua a Israel um “genocídio palestino”, uma “limpeza étnica” ou que a democracia israelense seja atacada como “nazi-sionista”. Todos esses neologismos esdrúxulos criados para tentar associar Israel a um país que persegue suas minorias são desonestos e patéticos.

– Os árabes israelenses gozam absolutamente os mesmos benefícios que gozam os demais israelenses. Desde o mandato Turco Otomano até hoje a população de árabes muçulmanos de Israel e dos territórios da margem ocidental do rio Jordão apenas aumentou (genocídio? limpeza étnica?). Hoje vivem na região mais árabes do que jamais viveram e seu padrão de vida é muito superior ao que possuíam as populações locais antes da formação do Estado de Israel. O padrão de vida dos árabes de Israel é superior ao padrão dos árabes de outros países do Oriente Médio, e Israel nem é um país explorador de petróleo.

– Sim, há árabes israelenses que não se identificam com o país, ou reclamam de discriminação ou que se vêem desfavorecidos por determinadas leis, mas suas reclamações sequer procedem, basta examinar as leis que eles supõem discriminá-los. Existe sim discriminação por parte de indivíduos que vêem os árabes com desconfiança (como aliás a discriminação existe em qualquer sociedade), mas suas posições são isoladas e desencorajadas pelo governo de Israel, cujas leis são igualitárias e repletas de ações afirmativas. Os árabes em Israel possuem muito mais direitos individuais do que os árabes em outros países do Oriente Médio.

– A não identificação de alguns árabes com Israel se deve à utilização do termo “Estado Judeu”, ao nome do país se referir às antigas tribos de Israel e ao uso de símbolos judaicos em âmbito nacional. Estado Judeu não quer dizer nada, em termos práticos. Diferente da República Islâmica do Irã que declara no artigo 12º de sua constituição que o país é islâmico itna’asharis, ou seja, xiita duodecimano, e que apenas certas minorias religiosas são permitidas. O nome “Irã” também se refere a uma etnia específica, pois a palavra em persa significa “terra dos arianos”.

– O Reino da Arábia Saudita, além de se autodenominar “árabe” também contém o nome da tribo que o governa (os descendentes de Ibn Saud). Essa tribo é minoritária no país, no entanto ela priva todos os demais indivíduos de qualquer participação na vida política, além de limitar as manifestações religiosas ao islamismo sunita, de acordo com a interpretação wahabita da religião. Aliás, no dia 07/08/2014 a Arábia Saudita proibiu o casamento de homens sauditas com mulheres paquistanesas, de Bangladesh, de Chade e do Myanmar, além de outras leis discriminatórias que o Jornal Nacional e a revista Carta Capital não informam, mas que certamente seriam de conhecimento de todos, caso elas existissem em Israel.

– O Reino Hashemita da Jordânia faz alusão em seu nome à tribo Hashimi, à qual pertence a classe governante mas não a maior parte da população do país, constituída principalmente de árabes “palestinos” e beduínos.  O nome oficial da Síria é República Árabe da Síria, o nome oficial do Egito é República Árabe do Egito, no entanto esses países são habitados por outros povos não-árabes como os curdos, circassianos, turcos, armenos, coptas, núbios, etc.

– Acho mesmo que a maior parte dos 190 países do mundo tenha nomes derivados de grupos étnicos ou religiosos específicos. O problema ao meu ver não está na denominação que o país resolve adotar, mas na forma como o país trata suas minorias étnicas e religiosas.
– Israel é o único pais do Oriente Médio que garante liberdade religiosa para todos, e o único que não criminaliza o ateísmo. Todos os países árabes criminalizam práticas religiosas não permitidas e punem o ateísmo. O Irã tolera os judeus, os cristãos, os sunitas e os zoroatristas, mas não tolera outras crenças como a fé bahai e o mandeísmo, nem o ateísmo.

– Sim, a situação dos habitantes árabes não-israelenses que vivem nos territórios da margem ocidental do rio Jordão e na faixa de Gaza é bastante inferior ao padrão de vida dos israelenses (judeus ou árabes). Mas há diversos motivos para que a situação esteja assim. É falsa a noção de que a culpa por essas mazelas pertença única e exclusivamente a Israel, porque se formos analisar a questão de forma séria, Israel possui culpa mínima nisso.

– Uma acusação comum é que os israelenses deslocam recursos que deveriam servir igualmente aos árabes não-israelenses. Israel não desloca recursos, a região era deserto e pântanos até os judeus chegarem, eles criaram os recursos. Antes de Israel ser criado os árabes viviam com certa quantidade limitada de água. Agora eles tem mais água do que tinham em 1948 e certamente recebem mais água do que árabes que vivem na Jordânia ou na Arábia Saudita.

– Os israelenses são abastecidos por um sistema de distribuição de águas (o Movil Hamaim Haartzi) que foi construído pelo Estado de Israel. Se Israel é tão ruim porque que os “palestinos” vivem com mais água que os árabes dos países vizinhos? Não se trata de uma distribuição racista, os árabes de Israel tem tanto acesso à água quanto os judeus israelenses. Mas essa água é distribuída por um sistema criado por Israel e que não existia anteriormente.

– Se qualquer país do mundo tivesse em seu território uma população hostil ao governo e que ferisse sua soberania a todo momento entendo que qualquer país deixaria de prestar os mesmos serviços que presta à sua população. No Brasil nem temos essa hostilidade e a distribuição já é desigual, não vejo porque devamos encarar Israel como sendo diferente. O Movil Haartzi foi construído para Israel e serve também aos territórios não anexados e que lutam por sua independência. Se a Guiana Francesa lutasse por sua independência e a conseguisse por acaso a França ainda teria o compromisso de suprir essa população dos mesmos benefícios que recebem os franceses? Tenho dificuldade em concordar com isso.

– Sou a favor de um Estado Palestino independente e viável, vivendo harmonicamente ao lado do Estado de Israel, mas independência também implica que a ANP deva criar sua infraestrutura para suprir seu povo. Sei que a OLP e a Fatah receberam muitos recursos de doações, principalmente de países ricos em petróleo. Arafat, que não provinha de família rica e jamais exerceu qualquer atividade profissional, morreu com fortuna estimada em bilhões de dólares. Sim, culpem Israel pela miséria do povo “palestino”.

Estado Palestino & Paz entre Vizinhos

Como vemos acima Israel em nada difere de qualquer país “normal”. Ao contrário de muitos países, formados sobre terras indígenas trocadas por miçangas ou cuja população foi exterminada, Israel surgiu sobre terras adquiridas legalmente. Seu direito à existência é inquestionável.

E embora ressentidos com os anos de conflitos, a solução que a maioria dos israelenses vêem, mesmo os classificados como sendo de “direita” é a paz mediante a solução de dois Estados vivendo lado a lado de forma pacífica.

Não, israel simplesmente não avançou sobre territórios árabes, entendamos como surgiram os “territórios ocupados”:

– Entre 1948 e 1967 Gaza, a Judéia, a Samária e Jerusalém Oriental estavam sob administração da Jordânia e do Egito. Caso houvesse intenção de fundar um Estado Palestino a oeste do Jordão, não se pode dizer que não houve oportunidade. Foram 19 anos apenas entre a fundação do Estado de Israel e a Guerra dos Seis Dias.

– O fechamento do canal de Suez pelo Egito, impedindo a passagem de navios ocidentais e israelenses, o desvio de afluentes de água do rio Jordão por parte da Síria e o impedimento dos judeus de irem aos locais sagrados à sua religião em Jerusalém levou à Guerra dos Seis Dias. Nessa guerra Israel combateu exércitos do Egito, da Jordânia e da Síria, que foram apoiados pelo Iraque, Kuwait, Arábia Saudita, Argélia e Sudão. Esta foi a primeira guerra que Israel recebeu apoio dos EUA.

– Ao fim de seis dias, Israel conseguiu ocupar Jerusalém Oriental (que estava sob controle da Jordânia, mas jamais houve expulsão da população árabe, nem qualquer tentativa de impedir seu acesso aos seus locais de culto, que aliás só ganharam importância para o mundo islâmico após a conquista israelense), as colinas do Golan (garantindo o fluxo de água pelo Rio Jordão), a península do Sinai (permitindo a passagem de navios europeus e israelenses pelo canal de Suez, entre o Mar Vermelho e o Mediterrâneo), a Faixa de Gaza e a Cisjordânia.

– Finalizada a guerra Israel ofereceu devolver à Síria as colinas do Golan e ao Egito toda a Península do Sinai, em troca de paz. Mais do que terras, Israel sempre buscou a paz com seus vizinhos árabes. Embora esses territórios fossem utilizados para fixar assentamentos judaicos, Israel sempre esteve aberto à sua devolução, condicionando isso ao reconhecimento ao seu direito de existir.

– Os árabes se reuniram em uma conferência na capital do Sudão, Kartum, de onde decidiram pelos “três nãos”: Não ter paz com Israel, não reconhecer sua existência, não aceitar qualquer negociação.

– Em 1977 o Egito voltou atrás dessa decisão e aceitou reconhecer Israel e assinar um acordo de paz, e em troca recebeu de volta toda a península do Sinai, em 1979. Importante dizer é que pelo tempo que a Península do Sinai esteve em mãos israelenses muitos assentamentos foram realizados na região, e todos eles foram devolvidos para o Egito. O segundo país árabe a reconhecer o Estado de Israel foi a Jordânia, em 1994.

– Israel, reiteradamente com Yitzchak Rabin, Ehud Barak e Ehud Olmert, envidou esforços em alcançar um tratado de paz com a Síria, mediante a devolução das colinas do Golan e garantia do suprimento de água do Rio Jordão, mas esses esforços jamais surtiram resultados. Jamais houve movimento visível do outro lado.
– Israel mantinha desde a guerra civil libanesa, em 1982, uma zona de segurança no sul do Líbano, de onde evitava ataques de terroristas à Galiléia. Embora o Líbano jamais tenha se aproximado de Israel com uma proposta de paz, Israel decidiu fazer um primeiro movimento nessa direção retirando-se da zona de segurança em 2000. Até hoje os países não se entendem, mas o Líbano tem se empenhado em evitar ataques à Israel por parte do Hezbollah e outras milícias terroristas.

– Em 1993 Israel se envolveu em negociações de paz com Yasser Arafat, então presidente da OLP. Lembro de haver comemorado o processo de paz aqui em São Paulo, quando membros da comunidade judaica e árabe, que aqui jamais foram inimigas, realizaram comemorações juntas. Mas a alegria durou pouco. Nos dias seguintes ao processo de paz ocorreram atentados em Israel e os soldados sequer sabiam de que forma proceder. “Eles estão atirando na gente. Podemos ou não atirar de volta? Como fica o processo de paz?”

– Embora superficialmente Arafat declarasse ao mundo ocidental haver abandonado o terrorismo, continuou promovendo-o quando se dirigia aos árabes. Em novembro de 1995, num discurso feito à rádio árabe Arafat declarou: “A luta continuará até TODA a Palestina ser libertada”. Em 1996 ele declarou em árabe “Conhecemos apenas uma palavra: Jihad, jihad, jihad”

– Em uma reunião com diplomatas árabes em janeiro de 1996 Arafat declarou: “Nós, a OLP, concentraremos todos os nossos esforços em dividir psicologicamente Israel em dois grupos. Dentro de cinco anos nós teremos seis a sete milhões de árabes vivendo na Margem Ocidental e em Jerusalém. A OLP planeja eliminar o Estado de Israel e estabelecer um Estado palestino puro. Nós faremos a vida insuportável para os judeus por meio de guerra psicológica e explosão demográfica; os judeus não irão querer viver entre árabes”. Se dirigindo a uma delegação de árabes importantes em Hebron, Arafat perguntou “Acabaram as pedras em Hebron? Preparem as pedras”.

– Apesar de saber de toda a continuidade de envolvimento de Yasser Arafat com o terrorismo, por pressão do presidente Clinton dos EUA Israel aceitou uma nova rodada de negociações. Em 2000 Ehud Barak ofereceu a Arafat exatamente tudo o que ele abertamente expressava querer, quando falava em inglês. Barak ofereceu toda a faixa de Gaza, 91% da Cisjordânia e a parte árabe de Jerusalém Oriental. Tudo o que Israel pedia em troca era a paz. Arafat recusou a proposta. A proposta aumentou para 97% da Cisjordania e todos os demais benefícios, e novamente Arafat recusou. De forma debochada Arafat afirmou para Clinton que Jerusalém não tinha nenhuma relação com os judeus, que o Templo de Salomão na verdade havia sido construído em Nablus.

– De fato, “acadêmicos palestinos” revisionaram todo o passado do povo judeu tentando desvinculá-lo de Israel. Eram os cananeus e não os judeus que haviam construído o Templo de Salomão, os hebreus eram na verdade beduínos, a Bíblia foi escrita na Arábia, os judeus não haviam existido na Palestina entre o ano 70 e 1880, os judeus de hoje não eram descendentes dos hebreus, mas de tribos turcas fixadas na Bulgária, bem como outras falácias sem fundamento.

– Em 2005 Israel entregou toda a Faixa de Gaza para a Autoridade Nacional Palestina, em um movimento unilateral em busca da paz. Ao invés de entenderem esse feito como um gesto de boa vontade, a Autoridade Nacional Palestina entendeu-o como um gesto de rendição. Os palestinos tomaram o território e investiram com violência contra as colônias israelenses já esvaziadas. Bravata. Em 2006, a com a vitória do Hamas nas urnas, Gaza passou a ser usada como território livre para lançamento de ataques mais cruentos contra a população do sul de Israel.

– Israel desde 1948 sempre foi favorável à solução de dois estados: um Estado Palestino viável ao lado de um Estado Israelense, e ambos vivendo de forma harmônica e colaborativa. Creio que descrevi acima diversas oportunidades em que essas tentativas foram frustradas pelos árabes.

– Um Estado Palestino não existe porque ele não aceita viver ao lado de um Estado Israelense. Mais do que um território onde possam expressar sua autodeterminação, o que os lideres palestinos desejam é a destruição de Israel.

– Israel não anexou os territórios da Cisjordânia e nem o fará, essas são terras que Israel reservou para trocar por paz. Algumas pessoas vêem nos assentamentos judaicos na Cisjordânia um bloqueio à paz, mas eles já foram oferecidos em troca de paz, e o processo foi rejeitado. Não são os assentamentos que comprometem a paz.
– Recentemente me disseram que Israel jamais entregará as terras ocupadas pelos assentamentos na Cisjordânia, pois “as pessoas não abdicam facilmente de suas casas, comunidades locais, cidades”. Israel já devolveu a península do Sinai ao Egito, está disposto a entregar o Golan à Siria, entregou o sul do Líbano ao país, entregou Gaza aos à administração da ANP. Historicamente sei que os assentamentos saem de forma mais difícil do que entram, mas eles saem. Quando Israel devolveu para o Egito a Peninsula do Sinai existiam milhares de israelenses ali assentados. Suas casas eram verdadeiras mansões, diferentes das casas padrões que se encontra em Israel.

– Quando Israel entregou Gaza aos “palestinos” os israelenses assentados foram tirados de lá, mesmo que à força. Quando Israel ofereceu a Cisjordânia aos palestinos eles prometeram que tirariam os judeus assentados lá. Não vale a pena para Israel manter esses territórios e esse poderio militar para manter uns poucos colonos assentados. Embora retirar pessoas de assentamentos tenha um custo político, isso vale a pena em troca de paz, então não tenho duvida de que em havendo um comprometimento com a paz por parte dos árabes isso será feito.

– Não vejo porque acreditar que no caso da Cisjordânia Israel faria diferente.  Aliás, algumas dessas colônias que se reclama existirem na Cisjordânia já existiam antes de 1948, e foram construídas em terras compradas. Então acho ingenuidade acreditar que Israel tenha tomado terras que pertenciam a um estado pré-existente. Mas sim, a Palestina pode existir, se os palestinos quiserem. Tudo o que Israel quer em troca é paz.

Finalização

Não creio que com esse resgate histórico eu vá convencer as pessoas a pensarem exatamente como eu penso, nem sei se aprovo essa padronização de pensamentos. O que eu não aceito e vou continuar não aceitando é que essa ditadura do pensamento único, essa supremacia irracional e despropositada se aproprie do veganismo e dos direitos animais.

Não há absolutamente nenhuma disparidade entre defender os direitos animais e o veganismo e mesmo assim ter um posicionamento liberal em relação a questões de ordem política e econômica, ou se posicionar em defesa de Israel, porque o país é atacado diariamente e tem o direito de se defender.

Questiono sim que a bandeira dos direitos humanos apenas seja hasteada quando convém, quando o alvo não corresponde à sua mesma ideologia política. Porque o que as pessoas e governos hipocritamente defendem não são direitos humanos de fato, caso contrário seu alvo seria a Arábia Saudita, Siria, Iraque, Cuba, Russia, Irã, China, Mali, Congo, Afeganistão . . . penso mesmo que apenas se manifestar por direitos humanos nas ocasiões em que Israel está se defendendo pega muito mal.

O veganismo não pode ser confundido com essa estrutura de pensamento arcaica e irracional, porque ele é muito mais profundo do que essa visão rasa que as pessoas costumam ter do mundo. Nós devemos batalhar pelo mundo que queremos, de um lado temos um país que sim, erra (como todos os outros), mas que está no caminho certo e, também, que dá boa acolhida ao veganismo e às causas sociais sem demagogia.

De outro lado temos países que nem mesmo reconhecem direitos individuais, onde mulheres muitas vezes não podem sair sozinhas à rua, onde homossexuais são enforcados ou onde você vale a religião que professa ou a tribo á qual você pertence.

Eu persistirei no esforço de difusão do veganismo e dos direitos animais, mas parte deste esforço também implica em mostrar às pessoas o que o veganismo não é. As pessoas que tentarem associar o veganismo às suas próprias ideologias políticas terão de escutar que estão erradas.

Eu jamais me neguei a esclarecer meus pontos de vista e sei que eles são muito bem fundamentados. Mais do que o fundamentalismo ideológico e as frases prontas, a minha defesa é racional e historicamente embasada.

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