Direitos das minhocas

Dr. phil. Sônia T. Felipe

passaros-minhocasHá quem pense assim: “se os animais têm direito à vida e por essa razão não devemos comê-los, então os pássaros também não devem ter direito de comer minhocas”. Podemos listar centenas de milhares de exemplos como este da minhoca e do pássaro. E há quem pense que fazer tal tipo de raciocínio seja por si só uma grande sacada filosófica. Não é.

Há uma falha na premissa que antecede o próprio raciocínio. Esta falha é a de aplicar para os animais não humanos o conceito do “dever moral de não matar”. Precisamos nos lembrar que “deveres” e “direitos”, assim como “igualdade” e “justiça” não são conceitos naturais. Naturais são as leis que definem morfogenética e fisiologicamente de que modo o metabolismo de uma espécie de animal vai obter os aminoácidos essenciais à sua manutenção. E no caso humano, a lei natural nos deu a capacidade de sintetizar aminoácidos essenciais obtidos de vegetais, sem necessidade alguma de buscar algum desses aminoácidos em alimentos animalizados.

Só temos um desafio ético abolicionista, quer dizer, o dever de abolir de nossa prática alimentar, recreacional, terapêutica ou decorativa a tradição e o costume de forçar ao nascimento, criar, usar, escravizar e matar animais, porque, do mesmo modo como fomos livres para instituir tais práticas, somos livres e capazes de substituí-las por outras. Em segundo lugar, temos o dever de abolir as práticas de matança de seres sencientes, porque, sendo igualmente sencientes, estabelecemos que ninguém tem o direito de nos matar para extrair de nossa morte qualquer vantagem para si.

Por essas razões, porque os animais não são livres para fazer tais escolhas éticas, não há questão ética alguma na discussão sobre se os pássaros têm dever moral de não comer minhocas, devido ao fato de que os humanos não têm direito moral algum de matar porcos, galinhas, vacas, perus e quaisquer outros animais para comer.

Os humanos, bem o sabemos, podem muito bem compor sua cadeia proteica (aminoácidos essenciais) com alimentos exclusivamente de origem vegetal, algo que para algumas espécies de animais, por exemplo, a dos felinos, ainda não é possível. Isso não quer dizer que os felinos um dia não evoluam para voltarem a ser vegetarianos. Mas não temos nem o direito nem os meios para forçar a natureza deles a fazer tal salto. Já em relação a nós, não apenas temos os meios, quer dizer, a liberdade para dar o salto em direção à dieta abolicionista. Por uma questão de coerência, temos também o dever de fazer tal coisa.

Portanto, introduzir um falso dilema na discussão ética só causa imbróglio. Ressoa o mesmo padrão antropocêntrico especista e o bem-estar da própria consciência que se acomoda no consumo de produtos e derivados de origem animal, quando o sujeito têm a liberdade e os meios para substituir tudo por produtos e derivados de origem exclusivamente vegetal.

Se os pássaros continuam a comer minhocas, essa não é uma questão ética que afete os humanos. O que os animais fazem uns aos outros, desde que não tenhamos sido nós os responsáveis pela criação da situação de predação entre eles, é problema deles.

Não vamos nos esconder atrás das “leis da natureza” para nos desculpar por nossas falhas morais, por nossa dormência moral, por nosso comodismo, bem-estarismo ou desculpa furada para apontar sempre o dedo para o que fazem os outros quando queremos desviar a atenção que ora deve ser voltada para o que estamos a fazer a eles.

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