Dormir em cama de fezes? (Dr. phil. Sônia T. Felipe)

Dr. phil. Sônia T. Felipe

cama-fezesVocê chega do trabalho na maior exaustão. O dia todo correndo de lá prá cá, puxando cargas acima do seu peso, do depósito para a vitrine, retirando cargas das prateleiras e levando para o depósito. Sem descanso. Sem poder sentar-se sequer.

Imagina, então, o prazer que é deitar-se e deixar que a circulação ocorra de modo a lhe trazer a cada célula dos músculos, nervos, tendões e ossos a endorfina necessária para limpar o ácido lático formado pelo desgaste, pelo uso repetitivo, enfim, pelo esforço que, naturalmente, seu corpo não evoluiu para fazer todo dia o dia todo.

Após esse dia de trabalho, que é exatamente igual a todos os outros dias do seu trabalho escravo, colocam você em um cubículo de dois por três metros, no máximo, sua cela, sua sala, seu quarto, sua copa, sua varanda e seu bacio, sem bacio, claro, só o piso mesmo. E lá você descansa. Certo?

Errado. Você é um animal senciente. Isso significa que você tem todos os seus sentidos bem evoluídos e além deles uma memória emocional que não o deixa esquecer-se do que os seus sentidos já lhe mostraram ser ruim para seu corpo e tormento para sua alma. Você tem consciência de tudo o que deixam ficar ali nessa cela, bacio e sala, quarto e copa, varanda e garagem, onde o aprisionam durante as noites, quando o tiram das cangas nas quais passou o dia a puxar cargas de lá para cá e de cá para lá, sob sol, chuva, vento, secura, com fome, calor, frio, sede e dor. Muita dor.

Feridas estragam sua pele. Sobre elas, põem cangas, amarram cordas, fixam traves de madeira, engatam apetrechos de ferro para conter você. Você não tem escapatória. Seu calvário é a atrofia diária de seu espírito de cavalo.

Agora você está “em casa”. Hora de descansar. Por que não aproveita e se deita, finalmente, para deixar seus músculos exauridos sentirem por um minuto a leveza do descanso? Vai ficar assim, de pé, a noite toda, só para provar que é forte, que aguenta o dia de escravo e a noite em permanente vigilância?

Trabalha em dois turnos? Um, puxando cargas humanas, outro fazendo plantão na porta de sua “casa”, com medo de que alguém o venha “roubar” e lhe privar dessa mansão e da vida maravilhosa que lhe deram?

Por que não descansa, afinal?

Queria muito descansar. Muito mesmo. Mas se você trabalha, como eu, o dia todo em pé, sem poder sentar-se ou deitar-se, ao chegar em sua casa, você pode deitar-se em sua cama, após aquele banho que leva pelo ralo as sujeiras, o suor e outras coisas menos visíveis ao olho humano, mesmo ao “olho que vê”.

Eu? Após horas e horas de trabalho escravo, puxando uma carga superior ao meu próprio peso, sem água, sem comida, sem descanso, cheio de feridas, cicatrizes ou atrofias causadas por esforço repetitivo danoso, sou levado para minha “baia”. E lá, como recompensa por ter puxado você em passeio turístico, tenho como cama as fezes e a urina de noites e noites anteriores, que não foram retiradas dali por quem me usa, me explora, me gasta, me tortura e escraviza.

Como posso deitar para descansar, se em vez de palha tenho uma cloaca? Sofro com todos os desgastes, da coluna que já não está mais em seu lugar nem tem mais seu perfil saudável, à pele que está em chagas, pelo atrito com aqueles apetrechos que atrelam em meu corpo todo dia o dia todo, roçando e raspando meus pelos até que a área fique em carne viva, que você chama de ferida.

Sofro com tudo o que fazem contra meu corpo e com o tormento de jamais poder dar asas ao meu espírito, voando pelas pradarias. E minhas noites são passadas, assim, em vigília, com os cascos imersos nas fezes e na urina ácidas, deixadas ali por dias e dias. Não posso deitar-me ali, porque então a acidez destruirá outras áreas do meu corpo também, e amanhã serei atrelado a artefatos de ferro, madeira, cordas e couro, para puxar esse troço que chamam de charrete, no qual as turistas adoram embarcar. Elas passeiam puxadas por mim. E eu, mal forças, tendo.

Quando elas deitarem em seus lençóis limpinhos no apartamento de luxo do hotel, terei sido levado para aquela mansão de dois por três, casa, copa, banheiro, quarto, sala, varanda, eu terei sido levado para essa cloaca carregada de fezes e urina, para “descansar”.

Passarei a noite em vigília, não porque não goste de deitar-me para o descanso, mas porque não evoluí para dormir no colchão de urina e excrementos que me oferecem essas turistas que adoram passear puxadas por mim e dormir em camas limpinhas com suas parceiras ou parceiros após o “cansaço” do passeio.

Se é possível haver algum perdão? Toda gente que me faz tanto mal está sempre a se perdoar, a se locupletar com os prazeres que têm em me explorar e matar. Assim, gastaram todo o perdão que havia no mundo. E, se me exploram, torturam e matam, de onde arrancaria eu o perdão para o que me fazem? Estou exaurido. Em todos os sentidos. Quero a minha liberdade e o meu descanso, antes. Depois, se forças ainda tiver, pensarei em algum perdão. Não para tudo, nem para todos, certamente, não!

Texto originalmente publicado na Fanpage do livro Galactolatria, Mau Deleite

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