Entrevista com Alex Hershaft, sobrevivente do Holocausto e ativista pelos direitos animais

Alex-HershaftFundador do Farm Animal Rights Movement (movimento pelos direitos dos animais de fazenda), Alex Hershaft nasceu em 1934, em Varsóvia, na Polônia. No início de 1940, ele e sua família foram obrigados a se deslocar para a parte da cidade que logo se tornaria o Gueto de Varsóvia. Ele e seus pais escaparam do gueto com a ajuda de uma empregada da família e documentos falsos. Mas no final de 1943, como as suspeitas de seus vizinhos na cidade cresceu, o jovem Hershaft e sua mãe partiram para o interior, para depois ir parar num campo de refugiados na Itália. Eles nunca mais ouviram falar de seu pai – ou qualquer outro membro da família – de novo.

A mãe de Hershaft mudou-se para Israel, enquanto ele imigrou para os Estados Unidos, onde iria conquistar um PhD em Química pela Universidade Estadual de Iowa, em homenagem a seu pai químico. Foi enquanto trabalhava para uma empresa de consultoria ambiental que ele visitou um matadouro de Indiana em 1972, e deparou-se com uma cena horrível que ele não poderia ignorar: pilhas de patas e corações e crânios, assustadoramente semelhante às pilhas de cabelo e óculos e sapatos que ele tinha visto durante uma visita anterior a Auschwitz.

O encontro preparou o palco para a sua controversa tese: a de que existem inegáveis paralelos entre o Holocausto e a prática de abate sistemático de animais para alimentação.

Em 2 de outubro – data escolhida para homenagear o aniversário de Gandhi – Hershaft embarcou para sua 33a anual Fast Against Slaughter, evento que se tornou nacional ano passado. O site da Moment Magazine falou com Hershaft, que tem 81 anos mas que parece precisamente 20 anos mais jovem do que isso, uma façanha que ele credita em parte à sua dieta, sobre sua particular marca no ativismo e por que é tão controversa.

Leia abaixo a um trecho da entrevista, com livre tradução do Veggi & Tal:

Muitos sobreviventes do Holocausto se debruçaram sobre as suas experiências para defender os direitos humanos e para lançar luz sobre outros genocídios. Por que você fez dos direitos dos animais a sua causa?

Posso dar-lhe a razão imediata e também a razão mais ampla. O motivo imediato foi visitar um matadouro e ver pilhas de partes de corpos, assim como você pode testemunhar ao visitar Auschwitz hoje, as pilhas de cabelo, óculos e dentes. E aquilo me fez lembrar disto. E eu disse, isso é apenas uma coincidência, ou estou exagerando? Então eu comecei a olhar para os detalhes, em algumas das semelhanças, e foi chocante. Coisas como a utilização de vagões de gado para nos transportar para campos de extermínio, a habitação em caixas de madeira, a atitude fria dos executores, sabe, como se fosse apenas um trabalho. Quanto mais eu comecei a pensar sobre isso, mais eu vi os paralelos. E então disse, OK, eu vejo os paralelos, mas o que faço com isso? E meio que não me preocupei com isso, porque eu não vi motivo, até que fui convidado a falar pela primeira vez em Pittsburgh [no verão passado] e depois em Israel [maio]. Há uma espécie de pressentimento de que há uma relação [entre o tratamento dos animais e do Holocausto], especialmente entre os jovens, mas, quando eles apresentam a sua tese para seus pais e avós, recebem uma reação chocada e não estão autorizados a trazer isso à mesa do jantar. A idéia era trazer um sobrevivente real que concorda com eles para apresentar o caso.

Dizer que devemos ser gentis com os outros, sabe – Cristo disse isso há 2.000 anos, e muitos outros antes dele. Então, essa não é a verdadeira lição. E dizer que os alemães são maus … eles deram origem à melhor música, à melhor literatura na Terra. E, além disso, onde isso leva? OK, então eles são maus, e daí? Onde vamos depois disto? Você não vai visitar a Alemanha? Parece-me que o mínimo que podemos fazer para as vítimas do Holocausto é tentar tirar algumas lições práticas a partir dele. E se você desenhar uma analogia entre o Holocausto judaico e o holocausto animal, a lição a ser tirada é que todos nós somos capazes de opressão. E todo aquele que vai ao supermercado hoje subsidia a opressão de milhares de milhões de animais.

Eu fui acusado de fazer pouco do Holocausto. Duramente. Eu acho que as pessoas que se recusam a tirar lições a partir dele, fazem pouco dele. Eu acho que estou honrando o Holocausto judeu, tentando tirar algumas lições práticas.

Você vê a causa dos direitos dos animais diferente ou separada de causas humanitárias especificamente, ou você entende como as outras pessoas podem vê-los como diferentes ou separados?

Oh, absolutamente, eu vejo. Cada organização por justiça social – é o que eu chamo de o culto da vitimização.  Sabe, “Minha vítima é melhor que a sua.” E isso é por toda parte. É assim por toda parte. Isso não é apenas entre animais e judeus. As mulheres pensam que os direitos das mulheres são mais importantes; pessoas com deficiência pensam que suas vítimas são as mais importantes. Faz todo o sentido. Por que você iria trabalhar para uma organização, a menos que você pense que é a coisa mais importante que você estaria fazendo? E eu não tenho problema com isso. O problema que eu tenho é quando você coloca para baixo os outros movimentos por direitos.

Os judeus são, provavelmente, mais culpados disto que qualquer um que eu conheça. Vitimização judaica é sagrada. Ninguém sofre como os judeus. Nós somos os campeões do sofrimento. E você não deve ousar comparar tutsis ou armênios ou cambojanos ou quaisquer outras vítimas do genocídio com o que os judeus passaram. E, obviamente, sim, temos esta competição infeliz em número e em métodos que foram usados. Mas eu acho que é perigoso habitar em sua vitimização. É somente uma espécie de desativação de sua vida. Você deve, obviamente, lembrar disto e tentar honrar isto, tornando este mundo um lugar melhor. Mas só habitar nela, como um monte de pessoas mais velhas fazer em Israel particularmente, acho que é prejudicial.

E fica pior. Eu tive uma discussão com minha mãe. Eu disse, como você pode viver neste país quando está oprimindo a população árabe, os palestinos? E ela disse: “Bem, nós podemos fazer isso com eles por causa do que foi feito para nós.” E eu disse: “Mãe, é exatamente o oposto! Por causa do que foi feito para nós, devemos entender melhor. Essa é a lição. ”

As comparações entre o Holocausto e tratamento de animais têm sido amplamente criticadas e rotuladas como anti-semitas.

Auto-ódio judeu.

As pessoas têm chamado você desse jeito?

Não diretamente, mas eu vi o termo sendo usado. Para ser um judeu que se odeia, você não tem que ser vegan. Você também pode defender a paz entre Israel e os palestinos, para acabar com a ocupação. Isso é o suficiente para ser um judeu que se odeia.

Como você responde a isso?

Por quê? Por que responder a isso? Na maioria das vezes, as pessoas que me chamam de judeu que se odeia não merecem uma resposta. Eles não querem uma resposta. Eles só querem chamar-me de coisas.

A principal crítica é que nós estamos fazendo pouco do sacrifício do Holocausto, e, claro, nós não estamos. Longe disso. Nós estamos honrando-o, tentando tirar algumas lições para a humanidade.

O erro comum é que nós estamos comparando vítimas. E, claro, os judeus não são porcos, porcos não são judeus. Opressão não é sobre as vítimas; é sobre o opressor. E o opressor não se importa realmente com quem são as vítimas. Hitler escolheu judeus porque éramos a única minoria na Europa. Os americanos não entendem isso. Fomos a única minoria na Europa. Não houve afro-americanos, não houve asiático-americanos. Se você visse uma pessoa de pele negra na rua, você iria para casa contar a história. Quero dizer, isso era muito incomum. Era assim. Então, fomos presas fáceis.

Muitas pessoas acreditam que o Holocausto foi horrível demais para ser comparado.

Obviamente, para nós, a nossa vitimização é a mais importante. Não é mesmo uma coisa sobre espécies. Eu freqüentemente trago isso porque as pessoas dizem, “Oh, eles são apenas animais.” E eu digo: “Se o seu cão precisasse de uma cirurgia de mil dólares, e um garoto somali precisasse de uma cirurgia de mil dólares para viver, quem iria receber os mil dólares? “Não se trata de espécies. É sobre o seu relacionamento com esse ser vivo.

O Holocausto foi baseado no ódio aos judeus, mas não matamos e comemos galinhas porque nós odiamos elas. Você acha que podemos fazer essa distinção?

Eu não acho que o ódio é a coisa relevante aqui. Acho que a indiferença é o fator chave. Porque as pessoas que gaseavam os judeus não estavam fazendo isso por ódio. Era o seu trabalho. Eles não odiavam os judeus mais do que os trabalhadores dos matadouros odeiam os porcos. Não é uma questão de sentimentos pessoais. Obviamente, Hitler tinha ódio. Não estou dizendo que esse elemento não existe. Mas não é muito relevante. O ódio por si só não faria isso. Você não pode fazer esses milhares de carrascos odiarem na maneira que Hitler odiava.

Se você olhar para o mapa de Treblinka, os guardas e o comandante estavam vivendo nas terras do acampamento. Você não pode viver com as pessoas que você odeia. Lá estavam as pessoas a serem mortas e os assassinos. Isto é…

Indiferença.

Sim. E a outra coisa que eu aponto … é a indiferença dos espectadores. Não são apenas os que praticam; são os espectadores. E esse é o maior problema. Você sempre pode conseguir um certo número de pessoas para fazer o mal. Mas o que torna possível para que o mal realmente se traduza em danos é o parecer favorável, o silêncio. Elie Wiesel disse que: O silêncio ajuda os opressores, nunca as vítimas.

Você sabe, quando vamos ao supermercado, não é que nós estamos odiando animais. Nós simplesmente não pensamos nisso.

E você está dizendo que era o mesmo nos campos de extermínio.

Sim. A diferença era que, se um polonês ou um alemão objetasse, eles iriam levar um tiro. Se nós objetamos, podemos publicar no Facebook.

Você diz que seu ativismo não vem de um carinho especial por animais. Você não tem nenhum animal de estimação. Por que sua causa não é sobre ser amante dos animais?

É uma questão de justiça. E então você diz, bem, por que não trabalhar pelas mulheres, ou crianças, ou afro-americanos ou mexicanos? Bem, eu faço. Eu fiz. Eu contribuo- não sou um grande ativista em qualquer uma dessas causas, mas simpatizo e apoio. Mas por que os animais? É porque essa é a raiz. Se você quiser ser eficaz, você trabalha nas raízes. Essa é a forma de opressão mais universalmente aceita. As pessoas às vezes perguntam: por que os animais? E minha resposta é, não é sobre os animais. É sobre nós. É sobre quem somos, como nós tratamos o menos defensável, os mais oprimidos, os mais fracos da nossa sociedade. O que isso diz sobre nós?

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