Entrevista com Eline Bélier para a ANDA

musicista-eline-belierA musicista e compositora Eline Bélier canta pelos direitos animais. Vegana há 11 anos após ter adotado uma alimentação ovolactovegetariana por 15 anos, a artista lançou recentemente a música “Sorriso do Vento”, concebida juntamente com Luís Martini. Com enfoque abolicionista, a canção é um hino de liberdade e amor aos animais e enfatiza a condição deles como seres sencientes.

“Sorriso do Vento” é o primeiro trabalho em conjunto dos músicos filiados ao Projeto VEGAMA – Arroz Musical – sobre o qual a artista fala mais nesta entrevista – com a banda Vegang, composta inteiramente por músicos veganos.

Como em seus outros trabalhos, neste Bélier também visa conscientizar o público a respeito da exploração contínua e brutal a que animais não humanos e inocentes são submetidos diariamente por diversas indústrias como a alimentícia, de entretenimento, da moda e a farmacêutica.

Em 2015, Eline também iniciou um mapeamento de músicos veganos do Brasil que continua em andamento. Nesta entrevista, ela conta mais sobre todos estes projetos.

ANDA: Como ocorreu a união entre o veganismo e seu lado artístico?

Há uns três ou quatro anos, me veio um forte desejo de compor pelos animais e utilizar a minha música como instrumento de conscientização sobre o equívoco em que incorre a espécie humana em relação ao tratamento dispensado aos animais e às demais formas de vida do planeta, consequentemente difundindo, por meio dela, o estilo de vida vegano e os ideais animalistas abolicionistas e não especistas.

O clipe de sua música “Um dia parei para pensar”, que fala sobre a exploração animal, reúne imagens em forma de desenho animado em vez de imagens reais. Algumas são até mais lúdicas tendo em vista a gravidade do tema. Essa escolha foi proposital? Você acha que a escolha de imagens reais iria impactar o público de alguma forma diferente?

Optei por um clipe de animação para poder atingir também o público infanto-juvenil. Além disso, essa canção provoca reflexões profundas de uma forma muito amorosa, e, em muitos casos, o amor é mais capaz de atingir corações “embrutecidos” do que a agressividade. Neste caso, refiro-me aos corações embrutecidos pelos costumes sociais especistas que supostamente dão aos humanos o direito de usurpar ao seu bel prazer, tudo e todos, direito que de fato não têm e que faz a humanidade e tudo à sua volta adoecerem.

Sua música mais recente, “Sorriso do Vento” foi gravada apenas por músicos veganos. Como foi o processo de composição e gravação?

A partir de um mapeamento dos músicos veganos no Brasil, que estou conduzindo, conheci outros músicos e letristas, com alguns dos quais realizei parceria musical em composições. É o caso da compositora e cantora Maga Lee, do rapper Marcos Favela e do letrista Luís Martini, ativista animalista abolicionista vegano. O Luís e eu fizemos, juntos, a canção “Vegana Edukado”, em Esperanto, que fala sobre educação vegana e que publicamos em dezembro de 2015. Logo após, o Luís me deu a letra de “Sorriso do Vento”.

Eu me encantei imediatamente com a suavidade do texto, ao mesmo tempo profundo, e me senti tão inspirada por ele que compus a melodia em pouquíssimo tempo, procurando passar nela a mesma suavidade. Tivemos, então, a ideia de convidar os músicos que integram o projeto VEGAMA-Arroz Musical para participar da gravação, fazendo deste um trabalho coletivo e 100% vegano. Foram seis meses entre a criação da música e sua publicação, mas o resultado foi como esperávamos, e a acolhida pelo público tem sido muito calorosa, inclusive entre o público não vegano.

Você participa do projeto VEGAMA – Arroz Musical. O que é e como funciona o projeto?

O projeto VEGAMA-Arroz Musical foi iniciado em dezembro de 2015 em uma reunião realizada em São Paulo com músicos que haviam, até então, participado do mapeamento dos músicos veganos no Brasil (eram 22 músicos na época). Seis pessoas foram à reunião e a partir daí temos nos reunido regularmente. O grupo cresceu, somos 12 atualmente, e está se formalizando.

O objetivo do projeto é utilizar a música em geral e o talento de cada um, em particular, como instrumentos de difusão do estilo de vida vegano e de conscientização sobre a triste realidade dos animais não humanos no planeta Terra. O projeto se desenvolve em vários braços: apresentações musicais, palestras com música, parcerias etc.

Não há apenas músicos no grupo, pois necessitamos também de pessoas com outros conhecimentos e especialidades que possam, por exemplo, nos orientar quanto aos aspectos burocráticos legais da estruturação formal do grupo. A ativista abolicionista animalista vegana Mara Silva, especialista contábil, participa ativamente das reuniões e nos auxilia na elaboração das atas e nos instrui sobre assuntos legais.

Suas músicas misturam estilos diferentes, como o Pop Rock e a MPB, por exemplo. Como é trabalhar dessa forma? Você acha que essa diversidade pode ajudar a atrair mais pessoas para o veganismo?

Quando componho deixo que a inspiração me conduza. Nunca penso no gênero ou estilo. Faço jazz, bossa, blues, pop, rock, MPB, samba, música erudita, e,sobretudo, músicas difíceis de entrarem em uma classificação. Isso depende das emoções que a letra desperta em mim, e quando faço a música antes da letra ou quando faço música instrumental, deixo o meu processo criativo ser guiado pelas emoções que me levaram a sentar diante do piano ou a pegar o violão para criar.

Acredito que essa diversidade possa chamar a atenção de pessoas com gostos musicais variados para o veganismo.

Como você tem percebido a recepção das pessoas em relação ao seu trabalho?

De uma maneira geral, as pessoas têm sido extremamente gentis comigo e têm acolhido muito amorosamente o meu trabalho. Sou grata a elas. Fico especialmente muito feliz quando um educador ou educadora me contata para me dizer que está utilizando minhas canções para introduzir o debate sobre a questão animal junto a seus alunos.Gostaria, no entanto, de vê-las mais utilizadas pelos ativistas veganos, na luta animalista.

Gostaria de saber mais sobre o mapeamento de músicos veganos. Quando começou e como você tem percebido a intersecção entre música e veganismo? Pode citar alguns dados revelados pelo mapeamento?

Tive a ideia de fazer esse mapeamento após o lançamento da “Um Dia Eu Parei Pra Pensar”, minha primeira música ativista vegana publicada. Fiquei surpresa ao ouvir repetidas vezes, por parte do público, que o meu trabalho era pioneiro e que não conheciam nenhum outro artista com trabalho parecido. Refleti sobre isso e percebi que tampouco eu conhecia, porém certamente deveriam existir. A partir do mapeamento pude constatar que existiam, sim, e alguns com trabalho muito bons.

A pesquisa se iniciou em agosto de 2015, e segue aberta, mas percebo que muitos músicos não participam pois não querem ter o seu nome associado ao veganismo, temendo restringir o seu público ou, quem sabe, “espantar” ou ofender o público não vegano. Outros, simplesmente não se interessam em participar; e sei que muitos não tiveram acesso à pesquisa, ainda que ela tenha sido amplamente divulgada na mídia vegana.

Embora a adesão não tenha sido muito significativa numericamente, a pesquisa já foi responsável por bons frutos, como o encontro entre músicos participantes, e o próprio projeto VEGAMA. Há 32 participantes, dos quais 5 se dizem ainda em transição para o veganismo e entre os veganos, a maioria dos músicos é de São Paulo. Em segundo lugar, está Minas Gerais.

Quais benefícios o mapeamento pode trazer tanto para os próprios músicos como para o público em geral?

Saber onde estão esses músicos vai propiciar (como já tem ocorrido) o encontro entre eles, que façam música juntos, que se unam em/para apresentações musicais, que troquem ideias para realizar projetos comuns. Disso poderão surgir núcleos musicais veganos geograficamente fortes. Para o público, há a possibilidade de conhecer mais músicos e conhecer músicas que podem ser o “fundo musical” da transformação planetária, nessa transição para o mundo com que sonhamos.

Como uma musicista que canta pelos animais, o que você busca alcançar com o seu trabalho?

O meu objetivo primeiro é o de dar voz aos animais. Quero utilizar a minha música para despertar aqueles que seguem adormecidos ou sonolentos em relação ao cruel tratamento dispensado aos animais. Quero tocar os corações humanos, que são os responsáveis pelo destino de todos os seres no planeta. Quero que não haja mais animais sacrificados, explorados, torturados e espero que “Sorriso do Vento” ajude a construir essa mudança de um mundo sem escravidão, sem exploração humana ou animal.

Mapeamento: Músicos veganos no Brasil

Fonte: ANDA

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