Ética abolicionista animalista não tem nada a ver com outras formas de discriminação? Que separatismo é este?

Dr. phil. Sônia T. Felipe

armadilhasQuem não faz intersecção alguma com sua escolha moral vegana, tipo, “não discuto fobias sexuais”, “não quero falar de racismo quando estou defendendo os direitos animais”, “não vou tratar da discriminação contra os pobres e do abandono de crianças e idosos”, “não vou falar dos malefícios do leite de vaca à saúde humana, porque isso é defender os humanos e eu quero que os humanos se lixem”, está simplesmente repetindo um mantra que conheço muito bem, tanto da filosofia política, quanto das religiões e da ética: “Primeiro temos que ser éticos com os humanos.” Só depois de termos gastado nossa ética com os humanos, como não restará ética alguma, é que vamos ser éticos com os animais? Me engana que eu gosto!?!!

Retrógrados e obsessivos são avós de si mesmos. Repetem o mantrazinho misógino, sexista, racista, e especista que tanto acalentou o retardo moral (kakothymía) de toda gente que viveu por dois milênios esperando o milagre do aprendizado de como se trata humanos com respeito moral para se poder tratar com igual respeito qualquer outro animal. Nunca se aprende coisa alguma separando e hierarquizando. Então, ficam no velho conforto, no velho e batido bem-estarismo da própria consciência que não quer mexer em nada para não ter algum trabalho na vida.

Essa gente é igual àquela que posta foto de arco-íris sobre a criança africana em pele e osso, e escreve que só lutará pelo direito universal de casar (de quem quiser com quem igualmente o quiser), no dia em que um país inteiro se unir por uma causa tipo acabar a miséria na África, enquanto se locupletam com queijos que roubam toda a comida dos pobres.

Sabemos que jamais na história humana um país todo se une por alguma coisa. Sempre se vai no racha. A coisa só deslancha quando a maioria salta fora da rachadura.

Assim é com o movimento abolicionista vegano. Se ficarmos agora esperando primeiro que os glutões, folgazões, abandonadores, estupradores e matadores de animais parem de fazer tudo isso, para só então a gente “voltar” a tocar nos assuntos: racismo, sexismo em todos os tons, e especismo, para só então pensarmos na abolição também de todas essas formas de discriminação, jamais tiraremos o pé da armadilha na qual há quem agora queira nos travar. E bota trava nisso, céus! Quanto conservadorismo moral!

A hora é de passar o rodo em todas as formas de discriminação, pois todas ferem o princípio moral da igualdade, violado quando uns se julgam mais que os outros, e, com isso, armados pelo poder institucional, paralisam e exterminam a vida do outro, seja esse um humano ou outro qualquer animal.

Distinguir espécies de gente ou de bicho para separar hierarquicamente e, então, melhor dominar os que forem alocados na posição mais vulnerável, é separatismo. Vimos no que dá o separatismo nos matizes de todas as espécies ao longo da história humana: racismo, escravismo, sexismo, machismo, xenofilismo ou chauvinismo e especismo.

A abolição do especismo não pode cair na armadilha do separatismo especista invertido. Isso vai dar no mesmo que defender a igualdade das mulheres para que elas tenham privilégios que as empoderem para oprimir, iguais aos que os homens gozaram ao longo dos milênios. Dois erros nunca fazem um acerto.

É o que estão querendo agora os que criticam as intersecções abolicionistas, que não excluem os animais, não os colocam em segundo plano, mas veem que a abolição animalista tem a responsabilidade de passar o rodo mais uma vez em todas as outras formas de discriminação pretensamente já superadas.

Seguir somente um raciocínio lógico, seguir em linha reta, sem querer olhar as implicações morais e afetivas de suas conclusões é seguir firme para a queda num poço sem fundo no qual a moral especista (antropocêntrica, hierárquica, machista, sexista e zoofóbica) nos atirou nesses dois mil anos.

Todas as formas de discriminação baseadas na “espécie” do “outro” devem ser abolidas. Um trabalho da mesma matriz cognitiva, moral e política. Cada um pode priorizar sua agenda. Isso não é o mesmo que desqualificar a luta abolicionista animalista. Se ditatorialmente impomos aos abolicionistas uma temática excludente, tipo: só se deve defender os animais não humanos, tirando das pessoas o desejo de abolir todas as formas de discriminação e violência, e se essas pessoas forem de outras etnias que não as caucasiano-descendentes, de outra sexualidade que não a bipadronizada, de outro gênero que não o dominante etc., etc., então o que se está fazendo é o mesmo que a ética antropocêntrica fez: exigir que se ignore todas as questões que não interessam aos homens dominantes heteros e brancos.

Se alguém cuida de criança, de idoso e de animal e não usa, não escraviza nem mata nenhum deles, a razão, com certeza, é a mesma: respeito igual pelos interesses e direitos de todas essas pessoas. E se quem faz isso é uma branca transsexual ou uma negra bissexual, ou um branco heterossexual, cada um levará para a causa abolicionista vegana sua memória singular, carregada de afetos e de medos, tecidos com o que sua pele, seu gênero e sua sexualidade configuraram em seus registros mentais, amorosos, sexuais e morais. Quem quer separar tudo isso só pode ter um adjetivo: separatista.

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