Ética e catástrofe (Dr. phil. Sônia T. Felipe)

boia-mar“Meu bebê e minha mãe primeiro!”Nada contra. Se, em caso de catástrofe, você abandona seu bebê ou sua progenitora à própria sorte, e foge, pouco se importando se eles ainda estão vivos sob os escombros ou debaixo da lama, você não pode esperar que as pessoas a achem uma pessoa generosa. Há quem até diria que você é uma pessoa desumana, na falta de termo melhor para designar uma pessoa humana que parece não se importar muito com a vida de seus entes queridos.
Priorizar a defesa da vida de pessoas da família, mesmo em detrimento da vida de outras pessoas, é uma atitude válida para a situação de catástrofe. Nesse momento, estamos condenados às forças da natureza. Então, salvar vidas é um ato não apenas heroico, mas um dever moral, pois você espera que o ajudem se estiver em situação idêntica no futuro.
O mesmo padrão moral que prioriza numa catástrofe, a vida de parentes próximos, em detrimento da vida de pessoas não ligadas afetivamente a você, não vale para configurar a ética que visa estabelecer um padrão de tratamento igual a todos os seres em tempos não catastróficos, no dia-a-dia, no que chamamos de rotina. Neste caso, o da vida correndo normalmente, dispomos de algo precioso que não temos no momento de risco de morte: a liberdade.
E a liberdade para fazer escolhas para além do dever afetivo de salvar a vida do próprio bebê ou da própria mãe, torna nossas escolhas morais, principalmente a escolha do que colocamos no prato, um dever de primeira ordem, pois elas implicam em dispor da vida dos outros para satisfazer nosso palato. Escrevo “satisfazer nosso palato”, porque necessidade proteica não vale mais como desculpa para o consumo de alimentos animalizados, desde que a ciência confirmou que podemos obter os vinte aminoácidos que formam a cadeia proteica a partir de alimentos vegetais. Estudos feitos em ratos em 1914 induziram a medicina a julgar que precisamos, como os ratos, obter 10 aminoácidos diretamente dos alimentos, que nosso metabolismo não seria capaz, como não o é o dos ratos, de sintetizar 12 aminoácidos a partir de 8 ingeridos das fontes vegetais. Hoje já se sabe que isso é possível e os veganos são a prova viva de que não é necessário comer carnes, leites e ovos para obter a famosa proteína [Ver o texto: Dieta de ratos, postado nesta coluna].
Até a Organização Mundial da Saúde – OMS e várias associações de médicos de diferentes áreas, não apenas do coração, mas também do câncer, do diabetes e da nutrição há anos reconhecem que a dieta vegana é apropriada para qualquer idade, desde que se tome cuidado, como em qualquer tipo de dieta adotada, de comer o que importa em vez de ficar a comer junk food, achando que isso tem valor nutricional. Logicamente, essas notícias do meio médico não dão na televisão. Então, toda gente crê que se não comer carnes e laticínios vai desmaiar e nunca mais voltar a si.
Quando falam do valor da vida, geralmente os que querem se defender do argumento abolicionista vegano insistem em dizer que a vida tem valor para mais ou para menos, sim, porque, se a gente estivesse numa situação de risco, a gente salvaria primeiro a mãe ou o filho.
As pessoas, e não somente as que não estudam filosofia, fazem essa confusão. Os livros estão cheios de exemplos do “bote” para desqualificar a ética que tenta afirmar a igualdade sem discriminação. Eles confundem situação de risco, onde reagimos por impulso, por termos apenas uma fração de segundo para tomar alguma providência, com situação normal de vida, onde todas as vidas podem ser consideradas de igual valor. Já dispomos de meios para poupar da morte todas as vidas sem colocar nossa própria vida, a vida do nosso bebê ou a de nossa mãe, em risco.
Portanto, estamos tratando genuinamente de uma questão ética, a do valor igual da vida, quando nenhum evento natural ou social ameaça a vida de nossos entes queridos. Ficar sem comer carnes, leites, ovos, mel e todos os alimentos derivados dessa matança de animais é algo que não ameaça de morte seres humanos em sua rotina alimentar, pois temos alimentos vegetais abundantes para ingerir. E nosso corpo sintetiza os aminoácidos não-essenciais com sabedoria, como sempre o fez ao longo do processo evolutivo de nossa espécie.
Portanto, quando abolimos a dieta animalizada não estamos colocando em risco nossas vidas. Os únicos a sofrerem, de fato, a morte, são os animais não-humanos. A catástrofe é vivida por eles. Então, temos o dever de salvar suas vidas. O dever de não comê-los. Eis tudo o que importa. Esse dever se impõe, tanto mais, moralmente, quanto mais alimentos vegetais tivermos à disposição. Isso vale para 5 bilhões de humanos ao redor do planeta. Se dispõem de carnes, laticínios e ovos em seu prato, quer dizer que dispuseram de grãos, cereais e forragens dados aos animais. Quer dizer, comida não falta.
Não há desculpas para continuar a matar e comer animais, a explorar e depois matar animais (porcas, vacas e galinhas), se produzimos tanta comida ao redor do mundo que com ela poderíamos alimentar mais sete bilhões de humanos. Alimentamos 56 bilhões de animais, mortos todos os anos para nos servirmos de suas carnes. Se temos tanto alimento assim para dar de comer a eles, como dizer que faltariam alimentos para dar de comer a apenas 7 bilhões de humanos?
E justamente essa comida toda é dada aos animais para que eles sintetizem 12 aminoácidos, que nosso organismo evoluiu para bem sintetizar. Os animais pagam com sua vida por nossa preguiça. O planeta paga com sua vitalidade por tanto cultivo biocida de comida que será desperdiçada para alimentar a preguiça humana de cuidar do que come.
Para se ter uma ideia do desperdício, de cada 100 g de proteína vegetal comida por vacas e bois, sua carne devolve apenas 4 g. O resto, os 96 g da proteína ingerida foi gasta mantendo vivo o corpo do boi e da vaca. Terceirizamos o metabolismo proteico. E a devastação alimentar e hídrica come solta ao redor do planeta, pela boca de humanos displicentes. Torturamos os animais. Matamos o solo, o ar e a água do planeta. Matamos os animais. Comemos suas carnes. Adoecemos. Compramos remédios e nos submetemos à cirurgia para tirar fora pedaços de tecidos de nossos órgãos adoecidos pela dieta animalizada. Estamos cada vez mais de-mentes.
O exemplo da reação de salvar primeiro o bebê ou a mãe, em caso de catástrofe, geralmente é usado na filosofia para mostrar o limite da ética em situações de não-liberdade para se fazer escolhas. Repito: em uma catástrofe, não se tem tempo para calcular o valor de coisa alguma, pois tudo é arrasado em fração de segundos. Então, num ato impulsivo, a gente resgata e leva consigo o que vive e está ao alcance da mão. Raramente é a mãe. Raramente é o bebê. Se fossem, não haveria tanta gente de luto depois de uma tragédia. É que não dá tempo para nada. Por isso mesmo, porque não dá tempo para calcular coisa alguma, não dá para concluir também que a vida da mãe vale mais do que a do cão. Não dá tempo.
Mas, quando sobra tempo para pensar sobre o fato de que a vida da porca, da vaca, da ovelha ou da galinha tem tanto valor para cada um desses indivíduos, quanto o tem a nossa própria vida, para nós, o que fazemos com o tempo que a rotina estável nos dá para pensarmos sobre isso?
A ética deve ser construída pensando-se que a maioria absoluta de nós jamais passará por uma situação de ter que escolher arrastar o corpo da própria mãe, ou o do bebê, derrubado sob os escombros ou levado pela lama, ainda vivo; mas, a maioria da qual ainda fazemos parte viverá, quem sabe, por 80 ou 100 anos, praticando todos os dias, em sua rotina, o que não deveria praticar: comer animais ou derivados tirados do corpo doído e doente deles, como é o caso do leite e dos ovos.
É para a vida cotidiana que a ética deve servir. E há tudo por resolver, raciocinando-se com tempo sobre o valor da vida de todos os seres que compartilham conosco a moradia nesse planeta.
Se pensamos somente com base no padrão, “Ah! Mas em caso de catástrofe você salvaria primeiro sua mãe, por isso a vida de sua mãe tem mais valor do que a vida de um cão ou de um porco!”,  não saímos do lugar. Tal raciocínio é absolutamente nihilista do ponto de vista ético.
É para gente que não quer mudar nada em sua vida que tais frases servem. E essa gente conclui que, se no caso de uma catástrofe salvamos primeiro nosso bebê ou nossa progenitora, então essa é a prova contundente de que estamos autorizados a matar o bebê ou a progenitora dos outros animais, para nos servirmos de suas carnes, leite e ovos, porque a vida deles não tem tanto valor quanto a vida do nosso bebê ou da nossa mãe tem. O pretexto é a malfadada e hipotética catástrofe, equiparada à catástrofe que pretensamente existiria se deixássemos de ingerir proteínas de origem animal. Tudo junto e misturado. Isso nunca deu bom argumento, muito menos ajudou a elaborar uma ética. Só vale para derrotar a ideia de que a vida dos animais não tem menos valor do que a nossa.
Vamos separar as coisas. Facilita bastante. Uma coisa é o valor da vida para o animal que a vive, mesmo que ele não entenda nada de filosofia (como acontece, aliás, com a quase totalidade dos indivíduos da nossa espécie), e outra é o quanto consideramos valiosa a vida dos outros, humanos ou não-humanos.
Pela educação, um esforço imenso foi dispendido para nos fazer entender que nossa vida tem algum valor. Muita gente não entendeu ainda e se destrói ingerindo um monte de coisas venenosas, por puro vício. E para nos ajudar a entender o quanto nossa vida (a da espécie humana) tem valor, nos disseram que esse valor vem do fato de nossa mente não ser tão simples quanto o são as mentes dos animais de outras espécies. Isso é especismo elitista, porque simplicidade não é o que marca a vida mental das demais espécies. Cada uma é apenas singular. Não é mais pobre nem mais rica. Apenas do seu próprio modo.
Então, fomos formatados num conceito especista elitista que ainda nos convence de que apenas a nossa vida tem valor e a vida de todos os outros animais, especialmente a daqueles que também nos forçaram a comer desde antes de nascermos, para obtermos proteínas, cálcio etc., tem um valor menor ou até mesmo valor nenhum. Confundiram nossa mente. Agora é hora de desconfundi-la. Sartre diz que não importa o que fizeram com nossa mente até nos darmos conta disso, o que importa é o que fazemos depois de tomarmos consciência.
O valor da vida não depende do quanto amamos ou sentimos ternura pelo ser vivo. Somos sete bilhões de humanos. Entretanto, cuidamos, no máximo, de dois ou três deles. Há quem abandone seus bebês e de quebra seus progenitores idosos também. Se a vida de um animal valesse apenas no caso da ternura que alguém sente por ele, pobres de nós! Nossa vida estaria em risco. Na verdade, temos o amor genuíno de apenas duas ou três pessoas. Essas, por nos amarem, consideram nossa vida valiosa. Mas, se essas pessoas deixarem de nos amar, ou se morrerem antes de nós, nossa vida perde, então, seu valor?
Enfim, não é o sentimento de alguém por nós que torna nossa vida eticamente valiosa. Esse tipo de afeto torna nossa vida afetivamente valiosa. Mas estou tratando aqui do valor da vida para além do nosso limitadíssimo círculo afetivo. Analogamente, nosso sentimento por algum animal, ou a ausência de qualquer sentimento por ele, não torna sua vida valiosa, ou não valiosa. O valor de se estar vivo está além de qualquer sentimento nosso pela vida alheia, ou alheio, por nossa vida. Se fosse desse modo, somente os seres amados mereceriam estar vivos. E, quando ninguém nos amasse, qualquer um teria o direito de nos tirar da vida. O valor da vida não depende do amor ou de outros sentimentos que temos por ela. Pelo contrário: temos amor pelo outro justamente porque ele nos aquece e acalenta o viver.
O valor da vida deve ser entendido como o bem próprio daquela vida, levada adiante pelo indivíduo que a vive, que busca completar-se, manter-se vivo, que cuida de si e de outros também. Isso vale para humanos e não-humanos, igualmente. Na hora da desgraça, obviamente, salvaremos nosso bebê ou nossa progenitora, se estivermos ali. Se estivermos longe, salvaremos o bebê dos outros, a mãe dos outros, o cão ou o gato que residem na casa dos outros. Somos dotados de racionalidade para entender que a situação que aflige o outro aflige-nos igualmente.
Fora da desgraça, poupamos sem discriminação especista elitista ou eletiva todas as vidas. Não fazemos isso porque somos superiores ou por querer colher glórias ou troféus (quem faz isso são os jogadores de futebol ou atletas de outras modalidades). Na modalidade ética, fazemos isso por entender que nossa vida tem tanto valor para nós quanto a vida de um porco tem para ele, mesmo que a vaca não entenda o que possa haver de interessante na vida de um porco. Eu também não entendo o que pode haver de interessante em muitos tipos de vida que os humanos escolhem para si. Mas respeito a vida de todos os animais, igualmente.

Fonte: Olhar Animal

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