Um Ex-Toureiro vira defensor dos direitos animais

Um Ex-Toureiro que se tornou defensor dos direitos animaisUm touro chamado Terciopelo chifrou o toureiro colombiano Álvaro Múnera, conhecido como “El Pilarico”, em 1984, confinando-o a uma cadeira de rodas por toda a vida. Múnera tinha 18 anos na época. Seu melhor amigo, “El Yiyo”, foi chifrado à morte meses depois, e o empresário de ambos os toureiros se suicidou três anos depois.

Múnera tornou-se um incondicional defensor dos direitos dos animais e ferrenho opositor da tauromarquia. A seguir, trecho de entrevista de 2009 realizada com Munera, que na época trabalhava no Conselho da Cidade de Medellín, usando sua posição para defender os direitos das pessoas com deficiência e para promover campanhas anti-tourada.

Como você decidiu ser um toureiro?

Álvaro Múnera: Eu nasci em Medellín, onde meu pai me levava para ver touradas desde que eu tinha quatro anos de idade. O ambiente em casa era totalmente pró-taurino [taurino é o adjetivo espanhol para tudo relacionado à cultura das touradas]. Nós não falamos sobre futebol ou qualquer outra coisa, eram apenas touros. Tourada era o centro do mundo para o meu pai. Como eu cresci imerso neste ambiente taurino, era lógico que, com 12 anos, eu decidi ser um toureiro. Eu comecei a minha carreira e cinco anos mais tarde me tornei bem-sucedido na Feira de Medellín. Foi quando Tomás Redondo, que era o empresário de El Yiyo, concordou em ser meu empresário também. Ele me levou para a Espanha. Eu lutei 22 vezes na Espanha até que em 22 de setembro de 1984, fui pego por um touro. Ele me chifrou na perna esquerda e me jogou no ar. Isto resultou em uma lesão da medula espinhal e trauma craniano. O diagnóstico foi conclusivo: Eu nunca voltaria a andar. Quatro meses mais tarde, eu voei para os EUA para começar a reabilitação física, e aproveitei a oportunidade para ir para a faculdade. Os EUA é um país totalmente anti-taurino, e devido à minha antiga profissão eu me senti como um criminoso. Eu me tornei um defensor dos direitos dos animais. Desde então, nunca parei de lutar pelo direito de cada ser vivo a não ser torturado. Espero continuar a fazê-lo até o último dia da minha vida.

Você já pensou em desistir das touradas antes do touro confiná-lo a uma cadeira de rodas?

Sim, houve vários momentos críticos. Uma vez eu matei uma novilha prenhe e vi como o feto foi extraído de seu ventre. A cena era tão terrível que eu vomitei e comecei a chorar. Eu queria parar ali, mas meu empresário me deu um tapinha nas minhas costas e disse que eu não deveria me preocupar, que eu ia ser uma importante figura nas touradas e cenas como esta eram comuns nesta profissão. Lamento dizer que eu perdi a primeira oportunidade para parar. Eu tinha 14 anos e não tinha bom senso suficiente. Algum tempo depois, em uma luta, tive de enfiar minha espada cinco ou seis vezes para matar um touro. O pobre animal, derramando suas entranhas para fora, ainda se recusava a morrer. Ele lutou com todas as forças até o último suspiro. Isso causou uma impressão muito forte em mim, e mais uma vez eu decidi que não era vida para mim. Mas a minha viagem para a Espanha já estava arranjada, então eu cruzei o Atlântico. Depois veio a terceira chance, a definitiva. Era como se Deus pensasse: “Se esse cara não quer ouvir a razão, ele vai ter que aprender da maneira mais difícil.” E é claro que eu aprendi.

Existe muito arrependimento por você ter deixado chegar ao ponto em que ficou paralisado?

Acho que foi uma bela experiência, porque isso me fez um ser humano melhor. Após a convalescença e reabilitação, comecei a trabalhar com o objetivo de alterar os meus crimes.

Muitos defensores dos direitos dos animais aplaudiram sua decisão, mas muitos outros dizem que não podem perdoá-lo. Eles ainda te chamam de “assassino em massa” nos dias de hoje.

Há pessoas que pensam que eu sou apenas um ressentido pelo acidente. Isso é um absurdo. Eu reconstruí minha vida e dediquei-me a ajudar centenas de pessoas com deficiência à seguir em frente, além de lutar pelos direitos dos animais. Além disso, eu não sei de nenhuma pessoa ressentida que defenda seu algoz. Um touro me confinou a uma cadeira de rodas e outro matou o meu melhor amigo! Eu deveria razoavelmente ser a última pessoa no mundo a se preocupar com os touros.

Mas, e as pessoas que não podem me perdoar pelo que eu fiz com tantos touros? Eu tenho que dizer que eu os entendo e concordo, até certo ponto. Minha única esperança é ter uma vida longa para que eu possa alterar meus muitos crimes. Gostaria de ter o perdão de Deus. Se Ele não me perdoar, Ele tem boas razões para não fazê-lo.

Chiquilín, outro toureiro arrependido, afirma ter visto touros chorarem. Ele diz que não pode matar até mesmo uma mosca hoje em dia.

Eu tiro meu chapéu para esse homem. Ele é um herói de verdade que aprendeu a lição através da razão e do pensamento.

Você está em contato com todos os outros toureiros arrependidos?

Verdade seja dita, eu não sei se há mais toureiros arrependidos. O que é sabido é que de fato existem cada vez mais ex-aficionados por touradas a cada dia. Estas são as pessoas que perceberam quão macabro o show que eles estavam apoiando realmente é, e por isso deixaram de ir às praças de touros. Às vezes, eles me contam suas experiências pessoais e agradecem-me pelos os artigos que eu escrevo.

Qual foi o fator decisivo que fez-lhe um defensor dos direitos dos animais?

Quando fui para os EUA, onde tive que enfrentar uma sociedade antitaurina e que não pode conceber como uma outra sociedade pode permitir a tortura e o assassinato de animais. Foram meus colegas, os médicos, enfermeiros, as outras pessoas com deficiência física, meus amigos, minha namorada norte-americana, e a tia de um dos meus amigos, que disseram que eu merecia o que aconteceu comigo. Seus argumentos eram tão sólidos que eu tinha que aceitar que era eu que estava errado e que os 99 por cento da raça humana que estão firmemente contra esta forma triste e cruel de entretenimento estão totalmente certos. Muitas vezes o todo da sociedade não tem culpa pelas decisões dos seus governos. Prova disso é que a maioria das pessoas na Espanha e Colômbia são verdadeiramente anti-touradas. Infelizmente há uma minoria de torturadores em cada governo apoiando essas práticas selvagens.

Entrevista completa, em inglês: vice.com

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