Ex-treinador da SeaWorld fala sobre o show de horror que acontece nos parques

treinador-seawolrdApós quase duas décadas na SeaWorld, o treinador de orcas John Hargrove  continuava acreditando na missão do parque marinho.

“Esta é uma experiência cultual, a qual você foi programado para defender toda a sua vida”, Hargrove, agora com 41 anos e há três anos fora de seu emprego no Shamu Stadium do SeaWorld em San Antonio, disse ao Dodo.

Em breve, porém, lhe ocorreu um estalo.

“Você ama as baleias, mas o amor não é o suficiente. Isso não significa que seja certo, ou torna a situação OK”, disse ele. “É quando fica meio doentio.”

Hargrove contou ao Dodo sobre sua escolha em deixar a SeaWorld, uma empresa que ele tinha defendido com unhas e dentes, em 2012.

Aos 27 anos, Hargrove foi puxado para baixo d’água por uma baleia orca de mais de 3 toneladas, chamada Freya. Os dentes  da orca pressionavam contra seus ossos do quadril – ele era “um galho na boca de um cão,” à mercê da baleia, disse. Quando ela finalmente o deixou flutuar até a superfície, ele calmamente fez sinal para os outros treinadores em terra para que chamassem os paramédicos, enquanto se preparava para ser puxado para dentro da água clorada mais uma vez.

Depois que orca (que foi capturada na Islândia em Outubro de 1982) o soltou, ele finalmente foi capaz de escapar, graças à uma manobra inteligente dos treinadores. Ele descreve o incidente angustiante em seu novo livro,  “Beneath the Surface: Killer Whales, SeaWorld, and the Truth Beyond Blackfish.”.  Ele descreve este dia como aquele que “poderia ter sido o fim da minha vida.”

Este não foi o único incidente de Hargrove envolvendo lesões, durante seu longo período trabalhando com baleias orca. Ele sofreu com várias costelas quebradas, fraturas nos dedos, nos pés e fraturas faciais. Mas ele é rápido em apontar que estes incidentes, apesar de angustiantes, não poderiam responsabilizar as baleias. Em vez disso, ele diz que são as condições do cativeiro, o tédio e os estragos que estar em um tanque durante anos a fio causa em seus estados mentais.

Durante sua extensa carreira, ele viu muitos colegas treinadores se machucarem no trato com as baleias em diversas ocasiões. Duas destas acabaram em tragédia.

Em seu livro, ele também detalha as práticas perturbadoras pelas quais a SeaWorld se tornou conhecida: deixar as baleias sem comida por vários dias e até semanas para puni-las por mau comportamento, perfurar manualmente os dentes das baleias para prevenir infecções, promover endogamia entre os indivíduos e separar mães de seus filhotes, atitude que uma vez foi relatada por provocar uma mãe a vocalizar em um tanque vazio por dias, chamando por sua filha.

Hargrove faz questão de destacar que sua ligação com as baleias em cativeiro com as quais ele passou anos interagindo era real e poderosa, inclusive “algumas das relações mais profundas e mais magníficas que eu tive na minha vida.”

O treinador abandonou a SeaWorld em 17 de agosto de 2012. Sete dias depois de ter apresentado a sua demissão, ele deu uma entrevista para “BlackFish”, um filme que iria abalar a existência da SeaWorld. Sua traição a seu antigo empregador foi provocada pelo mau tratamento que recebeu – mas, mais importante, segundo ele, foi pelas baleias que ele amava.

“Eu estava enojado com a ganância corporativa e a exploração das baleias e também dos treinadores”, ele escreve em seu livro. Desde a sua partida, Hargrove defende o fim do cativeiro para as orcas, inclusive testemunhando em tribunal em apoio a um projeto de lei pela proibição de orcas em cativeiro na Califórnia e que exige que as baleias existentes na SeaWorld sejam transferidas para santuários à beira-mar. Apesar de sua defesa, Hargrove hesita em dizer que as coisas vão melhorar tão cedo para as baleias que ele ainda sente falta – mas ele tem certeza que, eventualmente, a SeaWorld vai afundar.

“Essas pessoas deixam claro mais uma vez que não estão ouvindo a mudança de percepção pública” disse ele, citando os recentes anúncios sobre os planos da SeaWorld para expandir para o Oriente Médio e a Ásia, já que perderam a popularidade nos EUA.

“O jogo acabou”, disse ele. “Se eles querem lutar por todo o caminho até o seu fim, eles não vão ganhar. Eles estão lutando direto para a sepultura.”

A SeaWorld não respondeu ao pedido do Dodo para comentar o assunto.

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