Nossa indignação com o festival de carne de cachorro na China expõe uma hipocrisia repugnante

por Nathan Runlke

cao-galinhaDuas celebrações simultâneas aconteceram nas últimas semanas, durante a qual milhões de animais foram grelhados, cobertos com molho e servidos junto com bebida alcoólica. Os animais foram acondicionados em caminhões e transportados – muitas vezes ao longo de centenas de kilômetros – para matadouros. Chegaram fracos, desidratados e cobertos por urina e fezes. Muitos suportaram espancamentos brutais e outros abusos antes de suas mortes. Durante o processo de abate, alguns dos animais foram escaldados e desmembrados enquanto ainda estavam vivos e plenamente conscientes.

Uma celebração comemora o solstício de verão; a outra celebra o dia dos pais (nos EUA). Uma delas ocorreu na cidade chinesa de Yulin; a outra teve lugar em cada cidade dos EUA. No menu em Yulin foram servidos 10.000 cães e gatos, com lichias e licor. Na América: milhões de porcos, vacas e galinhas servidos com cerveja.

Apenas uma destas comemorações gerou clamor internacional, protestos locais e globais, e um recorde de 4 milhões de assinaturas em uma petição da Change.org, de pessoas pedindo para os animais serem poupados. Por Quê?

Nossa sociedade coloca esses dois conjuntos de animais em categorias radicalmente diferentes. Criaturas peludas vemos como companheiros, desfrutam de uma série de proteções legais e um lugar em nossa cultura reservado por aqueles que se importam mais profundamente. Os animais que vemos como alimento são legalmente sujeitos a abusos que nunca desejamos aos piores criminosos.

Destacando a hipocrisia, a polícia abordou um homem assando um animal sobre o fogo no Brooklyn, no início deste mês. Eles não o prenderam – porque descobriu-se que era apenas um porquinho da índia, que é uma iguaria em alguns países centro e sul-americanos.

Nos Estados Unidos (e no Brasil) alguém que tortura seu cão, o pendura de cabeça para baixo, electrocuta, corta sua garganta, lança-o em uma cuba de água fervente e, em seguida, o corta, o cozinha, e o come, seria acusado de um crime e preso.

Ele também seria condenado por um público horrorizado – muito mais inclinado a levar cães para a creche e inscrevê-los num colégio interno do que servi-los em saladas. Enquanto isso, nós sujeitamos 9 bilhões de frangos, cada qual um indivíduo tanto quanto os cães brutalizados, e que recebem o mesmo tratamento ano após ano.

As coisas são um pouco mais complicadas na China, onde os cães são considerados alimento e amigos. Matar cães por sua carne ainda é legal, mas um movimento crescente de chineses e defensores internacionais dos animais está criando um pedágio considerável sobre o comércio. As indústrias de carne de porco, frango, carne de vaca, laticínios e ovos por lá, por outro lado, estão crescendo exponencialmente.

Como podemos justificar a linha que desenhamos entre as espécies? Não podemos.

Claro, existem diferenças estéticas. Vacas e porcos adultos não são os mais fáceis companheiros de sofá (embora cavalos também não sejam, e poucas pessoas os comem). Pode ser um desafio levar um frango para passear, dada a sua capacidade de voar (e, novamente: nunca tente colocar coleira no seu gato?).

Em termos de intelecto, nenhum desses animais difere significativamente dos demais – embora os porcos sejam realmente mais espertos do que os cães. Quando se trata de personalidade, cada animal tem a sua própria – mas, em geral, todos eles são sociais e desfrutam da companhia dos seres humanos quando tratados com bondade. E todos eles adoram uma boa coçada atrás das orelhas.

Mas mesmo quando existem, as diferenças na aparência física, na capacidade intelectual e de personalidade não conseguem justificar o tratamento desigual dos animais, assim como não conseguem justificar o tratamento desigual de seres humanos. Que a nossa relação com vacas, porcos, galinhas tem sido historicamente de exploração em vez de companheirismo também não nos exonera; brancos têm explorado os negros e os homens têm explorado as mulheres por séculos.

O que realmente importa é a capacidade de sofrer e sentir dor. Nesses aspectos, os cientistas concordam, os animais que amamos e os animais que comemos são todos iguais.

Crueldade é crueldade e sofrimento é sofrimento. Todo o resto é arbitrário. Deveríamos estar chateados – enfurecidos, até – com o festival de carne de cachorro na China. Mas não devemos ficar menos horrorizados com o que está acontecendo em nosso próprio país, bem debaixo dos nossos narizes.

Fonte: Daily News,  traduzido e adaptado pelo Veggi & Tal

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