Preocupação moral, impulso moral e argumento lógico na defesa dos direitos animais – Gary Francione

Preocupação moral, impulso moral e argumento lógico na defesa dos direitos animais - Gary FrancioneQualquer pessoa que trabalhou com defesa animal teve a experiência de explicar racionalmente as razões pelas quais a exploração animal não pode ser moralmente justificada já ouviu algo como, “Sim, isso é interessante, mas eu não acho que é errado consumir produtos de origem animal “, ou, “Eu acho que você está sendo perfeitamente lógico, mas eu adoro sorvete, queijo e vou continuar a comê-los. ”

Como isso pode acontecer? Como as pessoas podem rejeitar os argumentos lógicos e racionais?

A resposta é simples: a lógica e a racionalidade são cruciais para a análise moral, mas elas não podem nos contar a história toda sobre o raciocínio moral. É mais complicado que silogismos lógicos. Raciocínio moral — sobre animais ou qualquer outra coisa — requer “algo mais” do que lógica. Esse “algo mais” envolve duas noções estreitamente relacionadas, mas conceitualmente distintas: preocupação moral e impulso moral, que precedem a nossa participação num nível racional ou lógico.

Para colocar isso no contexto da ética animal: para aceitar um argumento que leva à conclusão de que todos os seres sencientes são membros plenos da comunidade moral, e que devemos abolir, e não regulamentar, a exploração animal, você deve se importar moralmente com os animais. Você não tem que necessariamente “gostar” ou “amar” os animais. Você não tem que ter uma casa cheia de animais resgatados ou mesmo ter um animal resgatado. No entanto, você tem que aceitar que, pelo menos, alguns animais são membros da comunidade moral, que eles são pessoas morais não humanas para com as quais temos obrigações morais diretas.

E você tem que querer agir moralmente no que diz respeito aos animais, você tem que ter um impulso moral relacionado aos animais. Você tem que sentir as suas convicções morais no sentido de que você quer fazer a coisa certa pelos animais. Se fizer isso, a lógica e a racionalidade podem ser usadas para criar argumentos convincentes de que todos os seres sencientes têm esse status moral e nenhuma exploração animal pode ser moralmente justificada.

No entanto, se você não se importa moralmente com os animais e você não quer fazer o que é certo em relação a eles, então todos os argumentos do mundo não farão muita diferença. Se você não acha que devemos algo aos animais, você não estará muito interessado em argumentos que se preocupem com quais animais temos obrigações morais diretas, ou o que essas obrigações nos obrigam a fazer.

Lógica e Racionalidade: necessárias mas não suficientes

Em meu livro, Introduction to Animal Rights: Your Child or the Dog?, eu expresso uma série de argumentos baseados na lógica e na racionalidade. Aqui estão apenas alguns:

1. A imposição de sofrimento em qualquer ser senciente precisa de uma justificativa moral adequada, e prazer, diversão ou conveniência, não podem ser suficientes para justificar o sofrimento imposto a qualquer ser senciente

2. A pecuária mais “humanintária” envolve considerável sofrimento imposto aos seres sencientes

3. De um modo geral, a melhor (e única) justificativa para consumirmos produtos de origem animal é diversão, prazer, ou conveniência

4. Portanto: Não podemos justificar moralmente o consumo de produtos de origem animal

Isso tudo é muito lógico. Mas o argumento não fará sentido se você não aceitar a primeira premissa e querer agir em relação a ela. Se você não aceitar que você tem a obrigação de justificar de uma forma significativa o dano que você impõe aos animais, não podemos nem mesmo começar a falar de ética animal. A lógica e a racionalidade pode nos ajudar a determinar o que devemos aos não-humanos pessoas morais, mas a lógica e a racionalidade são inúteis em relação a alguém que simplesmente não se importa moralmente com os animais e que rejeita a noção de que qualquer justificativa para a imposição de danos seja necessária.

A ciência também é inútil, quando a primeira premissa está em consideração. Não há maneira de provar “cientificamente” que temos a obrigação de justificar a imposição de danos a um ser senciente. Como qualquer estudante de filosofia do primeiro ano sabe, você não pode obter um “deveria” de um “é”.

Então por que deveríamos aceitar a primeira premissa?

Afirmo que o primeiro princípio é uma verdade autoevidente. Todos os seres sencientes são importantes moralmente e antes que eu afete negativamente os interesses de qualquer ser senciente, sou obrigado a justificar a minha ação. Quando eu uso “verdadeiro” aqui, isto tem o mesmo significado que dizer que a xícara sobre a mesa é vermelha. A afirmação: “A xícara é vermelha” expressa uma proposição verdadeira. A xícara sobre a mesa é vermelha. Da mesma forma, a afirmação: “Nós precisamos ter uma justificativa moral adequada para impor sofrimento em qualquer ser senciente” expressa uma proposição verdadeira, que reflete a nossa intuição moral que o sofrimento é ruim.

A proposição expressa na afirmação: “E uma justificativa adequada deve excluir diversão, prazer, ou conveniência”, que também poderia ser uma premissa separada, é também uma verdade autoevidente, porque se uma justificativa adequada pudesse abarcar tais razões, então nada seria excluído pelo princípio. Pense nisso: ao dizermos, “Precisamos de uma justificativa adequada para prejudicar uma criança, mas é aceitável prejudicar uma criança sem nenhuma outra razão, além de que queremos fazer isso” tornaria o princípio que precisa da justificativa de dano completamente sem sentido.

Se alguém me pedir para provar a primeira premissa com um experimento científico ou de alguma outra forma para satisfazer um empirista estrito, eu não poderia fazer isso. Mas e daí? Isso não significa que as proposições expressas na primeira premissa não são verdadeiras. Alguém poderia negar a verdade da primeira premissa? Claro que poderia. Mas alguém também poderia negar a verdade da proposição a respeito da minha xícara vermelha. Podemos ser céticos quando se trata de princípios morais, mas podemos ser céticos sobre qualquer coisa. Quem sabe se a xícara é vermelha? Eu posso estar alucinando. Eu talvez não existiria na forma que eu acho que eu existo. Eu posso ser nada mais do que um cérebro em um jarro sendo estimulado por eletrodos para ter a experiência de ver uma xícara vermelha, que não existe de forma alguma.

Eu não acho que haja algo de controverso em dizer que a primeira premissa é uma verdade autoevidente. Eu afirmaria que a maioria das pessoas, quando induzidas a pensar sobre isso, concordam com a condição da verdade autoevidente da primeira premissa. Na verdade, o tema do livro “Introduction to Animal Rights” é que nós realmente afirmamos concordar com a primeira premissa, mas falhamos em pensar racionalmente sobre o que significa esta regra moral. Ou seja, o problema não é que não podemos provar racionalmente a primeira premissa, o problema é que, embora nós afirmamos aceitar a verdade moral do princípio, nós não temos o impulso moral para querer seguir em frente com o que dizemos que acreditamos (e, como eu explico abaixo, eu acho que isso é uma outra maneira de dizer que realmente não temos a preocupação moral) ou não pensamos racionalmente sobre o que esse princípio nos obriga a fazer em termos de ação prática.

Simon, o Sádico e Michael Vick

Em Introduction to Animal Rights ,eu apresentei o personagem Simon, o Sádico, que obtinha prazer ao torturar cães com a chama de um maçarico. Nós todos consideraríamos tal conduta monstruosa. A relevância de Simon como um personagem era demonstrar que a conduta de Simon viola o princípio que todos nós aceitamos: que para causar sofrimento em um ser senciente necessitamos de uma justificativa moral adequada, e o prazer de Simon não constitui uma justificativa moral adequada. O resto do livro argumenta que a aceitação deste princípio moral requer que nós consideremos todos os seres sencientes, e não apenas cães, como membros da comunidade moral, e que devemos abolir toda a exploração animal.

Recentemente, eu levantei as mesmas questões no contexto de casos reais de animais prejudicados, como a questão envolvendo o Michael Vick. A reação às rinhas de cães de Vick foi pervasiva, todo mundo o condenou. E a reação à Vick não era só crítica; as pessoas estavam moralmente ultrajadas por sua conduta. Por quê? A resposta é simples: ele violou um princípio moral que a esmagadora maioria de nós aceita, que vemos como a representação de uma verdade moral. E dada a aceitação do referido princípio, a lógica e a racionalidade requerem também que vejamos que não podemos distinguir o que Vick fez do que qualquer um faz , que impõe sofrimento a um animal por nenhuma outra razão do que prazer, diversão ou conveniência. Esse entendimento requer que sejamos veganos e que procuremos abolir todo o uso de animais.

Se você entende que a primeira premissa é verdadeira, como se trata de cães e se você quer agir moralmente em relação aos animais, nenhuma das quais são questões de lógica ou racionalidade, então, raciocínio analógico pode ser usado para demonstrar que não há diferença moralmente relevante entre os cães que consideramos como membros da comunidade moral, e todos os outros não humanos sencientes. É uma questão de lógica só depois que há uma aceitação de que os animais, ou pelo menos alguns animais, importam moralmente. Podemos usar a lógica e racionalidade para mostrar que a reforma do bem-estar e, de fato, nada menos do que a abolição falhará em cumprir nossas obrigações para com os não humanos, dada a sua importância moral.

Mas se nós não aceitamos que os animais têm um significado moral, então, argumentos sobre se devemos usar os animais, ou como deveríamos tratá-los, seja com base na teoria de direitos, no utilitarismo, na ética da virtude, ou qualquer outra coisa, não farão sentido.

Como eu discuto em Introduction to Animal Rights, a noção de valor inerente igual não é de modo algum misteriosa ou metafísica. É uma noção lógica que diz respeito aos requisitos mínimos para a participação na comunidade moral, e isso exige que concedamos aos animais o direito moral de não ser tratados como coisas. Esta é outra maneira de dizer que essa noção requer a abolição da exploração animal. Mas se nós não aceitamos que os animais pertencem à comunidade moral em primeiro lugar, ou se nós não nos importamos em agir moralmente, a noção de que animais têm valor inerente igual não será de muita utilidade.

Todos nós rejeitamos a escravidão humana, porque reconhecemos que ela coloca aqueles que estão escravizados inteiramente fora da comunidade moral, que os reduz à coisas. Levando em conta que aceitamos isso como uma questão de intuição moral, que todos os seres humanos deveriam ser incluídos na comunidade moral, que deveriam ser considerados como pessoas morais e não coisas, então o que quer que isto requeira, requer abolir a escravidão. Da mesma forma, se vemos os animais como tendo um valor moral, então, qualquer outra coisa que isso requer, isso requer abolir a sua condição de propriedade, de coisas, e tratá-los como pessoas morais. E isto requer que deixemos de consumi-los. Ponto final.

Mas se nós não vemos nenhum animal como tendo valor moral — e que é uma questão que não pode ser “provada” de alguma forma “objetiva” ou “científica” — então, argumentos lógicos, sobre quais animais deveriam ser considerados como pessoas morais e qual personalidade moral isso requer, serão inúteis.

Qual é a origem da preocupação moral?

E se alguém não aceitar a primeira premissa? E se alguém simplesmente não vê os animais como membros da comunidade moral? Podemos provar que eles estão errados? Claro que não.

Para mudar o comportamento moral é necessário algum componente afetivo. A fim de estar aberto à análise lógica da questão animal, você tem que ver os animais como membros da comunidade moral e tem que querer agir com base nessa percepção. Isso não é uma questão de lógica e racionalidade. Você tem que sentir que o que o Simon, o Sádico, está fazendo com os cães é ruim, que o que Michael Vick fez com seus cães era ruim.

Uma forma semelhante de pensar sobre a preocupação moral é oferecida pelo professor Gary Steiner, que discute o conceito de parentesco com os não humanos em seu livro, Animals and the Moral Community: Mental Life, Moral Status, and Kinship.. Steiner afirma que precisamos de algum conceito de parentesco, ou ligação afetiva, entre o humano e os não humanos, como um prelúdio para uma reflexão séria sobre a ética animal.

Concordo com Steiner, porque eu acho que a maioria de nós têm uma predisposição à percepção de parentesco com os animais.Ela precisa apenas ser despertada, precisamos tomar consciência disso. Essa consciência permite-nos ver a verdade da primeira premissa. Esta consciência pode ser desencadeada por muitos fatores, isoladamente ou em combinação com outros:

Ela pode vir de nosso relacionamento com um animal de companhia.

Ela pode vir de uma percepção sobre a interligação da vida, ou de alguma norma, tal como a “regra de ouro.” Isso pode ter uma dimensão espiritual ou não espiritual.

Ela pode vir de abraçar o princípio da não violência como uma verdade moral fundamental. Novamente, isso pode ter uma dimensão espiritual ou não espiritual.

Ela pode vir de uma perspectiva religiosa, como a que Francisco de Assis tinha.

Ela pode vir de uma visita a um matadouro.

Ela pode vir da leitura de literatura ou poesia.

Ela pode vir de alguma experiência estética.

Em suma, há muitas ocasiões para nos tornarmos conscientes de nossa preocupação moral. Mas se nós a chamamos de preocupação moral ou percepção de parentesco, é necessário entender que isso deve incluir um impulso moral, para querer seguir em frente e para agir de forma a reconhecer e respeitar o valor moral dos animais, ou o que representa o nosso parentesco com eles.

Quando temos a preocupação moral ou a percepção de parentesco, que inclui o impulso moral e querer fazer a coisa certa pelos animais, então faz sentido falar sobre usar a lógica e a racionalidade para discutir conclusões específicas sobre o escopo da classe de pessoas não-humanas (na minha opinião, todos os seres sencientes) e o que a condição deles como seres morais requer de nós (na minha opinião, a abolição de todo uso de animais). Até que tenhamos essa preocupação moral e o impulso de querer agir de uma forma que reconheça a condição moral dos animais, a lógica e a racionalidade serão ignoradas.

Advocacia abolicionista

Se uma pessoa aceita a primeira premissa (e lembre-se que, neste ensaio, eu só estou falando sobre um dos muitos argumentos que eu faço no meu trabalho), então podemos argumentar de forma lógica e racional que ela deveria parar de comer, vestir, ou de outra forma, consumir todos os produtos de origem animal e se tornar vegana. Ela deveria apoiar a abolição, e não a regulamentação, da exploração animal.

Mas quando nos envolvemos nesse tipo de atividade educacional, não estamos geralmente usando o argumento lógico e racional para tentar convencer alguém sobre a verdade da primeira premissa; estamos usando a lógica e a argumentação racional para levar a pessoa a ver que a preocupação moral dela com os animais, propriamente entendida, requer que ela chegue a certas conclusões (o veganismo e a abolição) em vez de outras conclusões (consumo “compassivo”, produtos de origem animal “felizes”, a regulamentação do bem-estar, fazer distinções entre carne e laticínios ou entre os peixes e vacas, etc).

É possível que alguém diga: “Eu me preocupo com os animais e concordo com a sua análise lógica, mas eu gosto tanto de produtos de origem animal que eu não vou parar de comê-los.” Claro que é possível. Mas esse tipo de situação geralmente não é aquela que envolve uma falha de lógica ou análise racional. Pelo contrário, a pessoa que faz tal afirmação provavelmente não considera, de fato, os animais como tendo significado moral, independentemente do que ela diz. Há uma falta de preocupação moral.

Por exemplo, há pessoas que têm fetiche por cães ou gatos. Elas realmente não pensam nestes animais como membros da comunidade moral. Em vez disso, elas têm alguma reação estética, ou outra reação possivelmente obsessiva em relação a eles que não é realmente diferente do tipo de reações que as pessoas possam ter em relação aos carros ou roupas ou outras coisas. Nós vemos pessoas excêntricas que são obcecadas por cães e têm uma casa cheia deles, mas que comem qualquer outro tipo de animal e que não irão nem mesmo se envolver na questão da ética animal. Se importar com os animais de uma forma moral não é uma questão de “gostar” deles ou pensar que eles são “bonitos.” É uma questão de visão moral; de ver os animais como seres com significância moral e se interessar por esse discernimento.

Alternativamente, podemos dizer que essas pessoas têm preocupação moral, mas não têm impulso moral. Na minha opinião, ter preocupação moral genuína é ter um impulso moral. O melhor guia para o que uma pessoa acredita moralmente é o que ela faz. Assim, embora eu ache que a preocupação moral e impulso moral possam ser separados para fins de explicação, eu considero que a preocupação moral na ausência de impulso moral, seja, na verdade, uma ausência de preocupação moral.

É claro que há situações nas quais alguém acredita que alguns animais têm valor moral, mas não aceita o argumento analógico que todos os seres sencientes são membros plenos da comunidade moral.

Por exemplo, alguns defensores de animais, tal como Peter Singer, consideram todos os seres sencientes como membros da comunidade moral, mas consideram que apenas aqueles com cognição similar à dos humanos, em particular, um sentido de autoconsciência, como membros plenos da comunidade moral. Singer rejeita meu argumento de que todos os seres sencientes estão em situação semelhante, no sentido de que todos os seres sencientes valorizam a sua própria existência continuada, mesmo que nem todos pensem sobre a existência da mesma maneira como os seres humanos “normais”.

Há também situações em que alguém acredita que os animais têm um valor moral, mas rejeita o argumento de que a abolição é a única resposta racional ao reconhecimento de que os animais são importantes moralmente.

Praticamente todo o “movimento” animal, como representado pelas grandes organizações neo-bem-estaristas, discorda de mim sobre os problemas estruturais da reforma do bem-estar animal e a necessidade de uma base vegana abolicionista. Elas afirmam que a reforma do bem-estar tornará as coisas melhores para os animais agora e levará a consequências boas para os animais no futuro. Eu discordo.

Há situações nas quais as pessoas afirmam considerar os animais como membros da comunidade moral, mas também afirmam que podemos aplicar uma estrutura para analisar as nossas obrigações morais para com os animais que é diferente da que usamos no que diz respeito aos seres humanos.

Por exemplo, alguns argumentam que não devemos falar de direitos morais ou regras geralmente aplicáveis e que, ao invés disso, deveríamos ser guiados por uma “ética do cuidado”, que leva em conta todos os elementos de uma situação. Mas essas pessoas nunca aplicariam uma ética do cuidado em questões fundamentais que envolvem seres humanos. Por exemplo, nenhum defensor da ética do cuidado diria que a moralidade de estupro depende em saber se esse comportamento foi realizado com “cuidado” em uma situação particular. O estupro é sempre errado, porque viola o direito da integridade corporal. Da mesma forma, onde os interesses fundamentais dos animais estão envolvidos, devemos utilizar uma análise semelhante e não se pode dizer que “cuidado” é suficiente, ou ignoramos um aspecto essencial da análise moral: a necessidade de que tratemos casos semelhantes de forma semelhante.

Nos três casos, temos de nos concentrar sobre o que a lógica e a racionalidade nos dizem, já que todos nós concordamos que os animais são importantes moralmente e queremos fazer o que é certo; queremos saber quais são nossas obrigações morais. A lógica e a racionalidade são partes importantes na identificação de obrigações morais, precisamente porque consideramos os animais como membros da comunidade moral, e temos o impulso moral de fazer o que é certo no que diz respeito aos animais não humanos.

Mas o ponto importante para os propósitos atuais é que em todos os casos, a fonte dessa preocupação moral ou impulso moral é irrelevante.

Se alguém se preocupa com os animais como seres morais, não importa se seu impulso moral foi desencadeado como resultado de seu relacionamento com um animal de companhia, lendo sobre São Francisco, lendo um romance como Black Beauty ou um poema, como Inscription on the Monument of a Newfoundland Dog, de Byron, por acreditar no princípio da não violência, ou na regra de ouro, ou na interligação da vida, ou como resultado de sua repulsa estética ao bullying.

O que importa é que ela tem a preocupação moral e o desejo de querer agir de acordo com essa preocupação. O que importa é que ela vê a verdade moral da primeira premissa, pelo menos, com relação a alguns animais. O que importa é que ela aceita como uma verdade moral que, pelo menos, alguns animais são membros da comunidade moral; que eles importam moralmente. O que importa é que ela perceba a necessidade de agir de acordo com sua preocupação. É então e só então — quando ela quer fazer a coisa certa em relação aos animais que ela pensa que são importantes moralmente — que podemos usar a lógica e racionalidade para demonstrar que a sua preocupação moral deve se estender a todos os animais e que requer a abolição, e não a regulamentação, do uso de animais. Essa preocupação requer que a pessoa pare de participar da exploração animal. Ela pode não aceitar, ou aceitar de imediato, os argumentos da igualdade, abolição, e veganismo , mas ela, na realidade, não irá entendê-los mesmo na ausência de uma preocupação moral sobre os animais.

A noção de que a preocupação moral, ou uma percepção de parentesco ou como você quiser chamá-la, não pode acontecer como resultado de suas visões religiosas ou espirituais é tão absurda quanto dizer que a preocupação moral não pode ser despertada como resultado de uma relação com um animal de companhia sem qualquer envolvimento com uma religião ou com uma tradição espiritual. Tradições religiosas e espirituais são um problema a este respeito só quando limitam a preocupação moral e rebaixam a categoria daqueles sobre os quais nós nos importamos moralmente, só quando eles restringem a percepção da parentesco, somente quando incentivam a violência ao invés de não violência. E não vamos fingir que as estruturas seculares também não podem limitar a preocupação moral. Elas podem, e elas são igualmente questionáveis.

Francamente, eu não me importo se uma pessoa considera os não humanos membros da comunidade moral por causa de suas opiniões religiosas ou espirituais ou por causa de suas visões ateístas ou agnósticas ou qualquer outro sistema.

Eu não me importo se a fonte de preocupação moral de alguém em relação aos animais foi ao ler o Sermão da Montanha e ao ser inspirado pela reflexão de que Jesus estava se referindo a todos os seres, ou se a preocupação e a inspiração vem de ler a poesia de Byron, que era um ateu, ou, como no meu caso, uma visita a um matadouro e vir a entender em um nível fundamental que o princípio da não violência não tem sentido se não incluirmos todos os seres sencientes. Foi então, que eu entendi as implicações da intuição moral que o sofrimento é ruim, que o sofrimento e a morte sempre precisam ser justificados com uma motivo convincente.

Eu não estou dizendo que devemos usar a fonte da nossa preocupação moral para defender os direitos animais. Isso não faria sentido. Se a fonte de preocupação moral de alguém em relação aos animais é que ela leu Black Beauty quando era criança, não estou dizendo que devemos promover a leitura de Black Beauty como um meio de defender os direitos animais. Na verdade, existem muitas pessoas que leram Black Beauty quando criança e que não se tornaram veganas. Mas esse livro (ou qualquer dos inúmeros livros, experiências, etc) pode ter provocado o impulso moral numa pessoa e isso faz com que ela esteja receptiva aos argumentos racionais que podemos fazer como abolicionistas, para levá-la a ver todos os seres sencientes como membros da moral comunidade, e o veganismo como a única resposta coerente proveniente da sua preocupação moral. Mas se ela não tem nenhuma preocupação moral em primeiro lugar, ela não vai estar receptiva a esses argumentos.

Quando há preocupação moral e impulso moral para querer fazer a coisa certa pelos animais, podemos usar a racionalidade para demonstrar por que essa preocupação moral deve se estender a todos os animais e por que a abolição e o veganismo são as respostas logicamente apropriadas ao reconhecimento com base num sentimento, qualquer que seja sua origem, que os animais são membros da comunidade moral.

Mas, na ausência de querer fazer a coisa certa, não fará sentido discutir qual lógica identifica a coisa certa a fazer.

O Mundo é Vegano! Se você quiser.

Gary Francione é professor, filósofo e advogado; tem lecionado o tema Direitos Animais e o Direito por mais de 20 anos, e foi o primeiro acadêmico a ensinar a teoria dos direitos animais em uma faculdade de Direito americana. Francione é um pioneiro da teoria de direitos animais abolicionista, autor de diversos livros sobre o tema.

Versão original em inglês no site de Gary Francione: Clique aqui

Tradução: Vera Regina Cristofani é jornalista e coordenadora do Grupo de Estudos da Teoria Abolicionista dos Direitos Animais de Gary Francione (GEFRAN)

Fonte: Veganos Pela Abolição

Veggi e Tal - Receitas veganas, Veganismo e Direitos Animais
© 2012 - 2016