Dos terreiros aos restaurantes: o império da tradição religiosa

Dr. phil. Sônia T. Felipe

foie-gras-velasPor um lado, temos a ignominiosa hipocrisia em quem defende a matança de animais em seus próprios ritos religiosos, os da umbanda, por exemplo, e apresenta um projeto de lei para abolir a tortura e matança de animais para ritos, ainda que gastronômicos, alheios. Este é o caso da abolição da produção, oferta e comercialização do patê de foie gras em São Paulo, cujo projeto foi apresentado, segundo noticiado pelo Estadão online de 15 de julho último, pelo primeiro vereador umbandista daquela câmara, Laercio Benko, do PHS.

A abolição de todas as formas de forçar ao nascimento para dispor do corpo de 70 bilhões de animais mortos por ano para produção de carnes, leites, ovos e derivados é a meta ética de toda pessoa que se torna vegana. Mas sabemos o quanto um projeto apresentado por alguém que tem telhado de vidro pode se sustentar, quando visa atirar pedras no telhado de vidro dos outros. Vimos o que ocorreu com o projeto contra a matança de animais em ritos religiosos no RS, quando o mesmo PL omitia a matança ritual kosher e halal no mesmo Estado, para exportação.

Por que tais projetos de lei não têm longevidade, ou, quando aprovados, todo mundo assobia e olha para os lados e não os cumpre? Não se sustentam, pois o que precisa ser mudada é a Constituição Brasileira. E daí a coisa pega.

Tudo o que fazemos aos animais está amparado por direitos constitucionais: manipular o sexo das fêmeas e macho, engravidar em massa, manter os bebês presos, manipular a dieta deles e matá-los. A luta, portanto, requer uma mudança na Carta-Mãe de todos esses direitos, abolindo-os. Qualquer outra lei, bem-estarista, especista eletiva ou reducionista, será sempre derrubada, por discriminar um grupo e esconder o que outros fazem no mesmo sentido. E com razão. Se queremos a igualdade temos que aceitar a isonomia que a Constituição impõe ao tratamento de todos os interesses semelhantes.

Por outro lado, fazendo par com a hipocrisia religiosa de quem defende a degola de animais para oferecer sangue a entidades a quem reverencia, vemos uma ironia que beira o cinismo em alguém que emigra de seu país, onde a consciência está cada vez mais informada sobre o processo torturante que resulta na “iguaria” (de fato sem igual), chamada patê de foie gras (que deveria ser traduzido em nossa língua para “pasta de fígado anômalo, gordo e deformado de gansos e patos”), para o nosso país, onde reina a ignorância sobre a dor, o tormento, o sofrimento e a morte daqueles animais, cujos fígados deformados pela dieta anômala e violenta são extraídos para fazer o tal do patê.

Somos o que comemos, isto é certo. A epigenética começa a reconhecê-lo. Há quem coma “iguarias”, sem perguntar de onde vieram nem como foram produzidas. Torna-se, assim, a pessoa que é, pois ingere algo na mais perfeita ignorância.

Sem dúvida, se somos o que comemos, e se comemos iguarias animalizadas, isto é, iguarias que, para estarem ali, resultam do corpo dilacerado pela dor e sofrimento de qualquer animal, então estamos mesmo completamente insensíveis ao que causamos aos animais, e assim ficaremos até nos tornarmos abolicionistas veganos.

A comida animalizada é toda ela, sem exceção, da carne ao leite, do leite aos ovos e à pasta de fígado gordo e anômalo de gansos e patos, feita de modo brutal. Se somos o que comemos, como esperar que não haja hipocrisia de um lado e ironia ou mesmo cinismo brutal de outro, na mente e no coração dessa gente?

Há anos reconheço que os dogmas dietéticos são mais arraigados do que quaisquer dogmas religiosos nas mentes dos onívoros. Fiquei gratificada ao ler as palavras do chef francês, Erick Jacquin, segundo noticiadas na grande mídia, proprietário do Tartar&Co, um francês migrado para o Brasil para melhor vender aqui a pasta de fígado anômalo, deformado e gordo de gansos e patos, já um tanto ameaçada de extinção em sua comunidade, a europeia.

O que o chef francês nos diz é primoroso e confirma a hipótese de que dogmas alimentares são mais arraigados no corpo e na mente humana do que os dogmas religiosos o são: “O foie gras faz parte da minha cultura, eu não inventei nada. Faz dois mil anos que existe. Eu fui criado com isto, está dentro de mim – é uma religião, quase. Tem gente, por exemplo, que faz sacrifício de animais dentro da religião”.

Há quem viva espancando a família, e essa também é uma tradição milenar machista que nenhum homem inventou hoje. Há quem viva escravizando e torturando animais, outra tradição milenar que nenhum homem inventou hoje. Há quem estupre crianças, deficientes, idosas, outra prática machista milenar que nenhum homem inventou hoje. Há quem faça tudo o que maltrata e mata outros para obter benefícios pessoais, outra tradição milenar que nenhum homem ou mulher inventou hoje.

Seguindo a lógica da “tradição milenar não inventada por mim” – defendida tanto por quem apresenta projeto de lei contra o foie gras (enquanto protege das vistas a matança de animais nos ritos de seu próprio credo), quanto por quem condena tal matança ritual, baseada em crenças, mas defende a matança baseada em gostos e preferências gastronômicas – nada deveria ser abolido.

Estaríamos dando voltas ao círculo, se crêssemos que “tradição” é palavra que designa “sacralidade”. Não é. Só recuperaremos a sacralidade da vida quando abolirmos as tradições de todos os tipos de matança dos animais, sejam eles não humanos ou humanos.

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