Esse tanto de leite para tão pouca água

Dr. phil. Sônia T. Felipe

Esse tanto de leite para tão pouca águaEm um link podemos ver a notícia: em 24 horas extraíram de uma vaca 111,3 kg de leite, em Uberlândia, MG.

Logo a seguir vê-se outra notícia, sobre o esvaziamento dos reservatórios de água que abastecem a cidade de São Paulo, que estão com apenas 25% de suas águas e terão que enfrentar o mês de seca com a perspectiva de abastecer 100% os consumidores humanos.

O que uma coisa tem a ver com a outra? Tudo a ver. Vou escrever ponto por ponto. Em 2008-2009 o Brasil extraiu 29 milhões de toneladas de leite de vaca. Em 2014, a expectativa é de extração de 35 milhões de toneladas. Tanto leite! Tão pouca água!

Para cada kg de leite extraído de uma vaca precisa dar ao animal, em média, 8,5 litros de água. Um manancial de água é gasto todo dia no Brasil para abastecer ou hidratar os corpos das vacas usadas para extração de leite. Quanto maior a produção de leite em uma região, mais desvio de água potável é feito dos mananciais regionais para o rebanho feminino bovino. Mas quando a gente consome laticínios esses dados jamais vêm escritos na etiqueta.

Se tiraram de uma vaca 111,3 kg de leite em um dia, foi preciso dar a ela 946 litros de água para beber. Dos mais de 100 kg de leite extraídos, apenas uns 16 kg são de matéria semissólida, usada para fazer ricota, manteiga, iogurte e queijos. Uns 90 kg desse montante extraído é a parte líquida do leite, formada pela água ingerida. De qualquer modo, são necessários mais de 900 litros de água potável para se extrair mais de 100 kg de leite de uma vaca. E isso em um dia. No dia seguinte uma quantidade similar a essas será ingerida pela vaca e extraída dela.

Leite não é algo inocente, quando se pensa na escassez de água. Estudiosos do assunto estimam que para processar um litro de leite em suas diferentes formas laticínicas são necessários 868 litros de água (Ver: Galactolatria: mau deleite). Essa é a água usada no processamento até o ponto final. Portanto, seguindo a estimativa dos 868 litros de água para processar cada um dos 111,3 kg desse leite, temos o total de 96.608 litros de água gastos. E quem comer os laticínios feitos com esses mais de 100 kg de leite extraídos de uma vaca, acabará por dar fim a esses quase 100 mil litros de água do planeta, sem ter a menor ideia da insanidade de sua dieta.

Alimentar-se com laticínios não é algo inocente. A começar pelo sofrimento causado a essas vacas e aos seus bezerros, fora as mazelas e doenças que se instalam no corpo humano por conta da ingestão de um alimento muito apropriado para bovinos recém-nascidos, mas algo exagerado para o organismo de nossa espécie. Cálcio em excesso, proteína em excesso, açúcar não digerível por mais de 70% da população, proteínas alergênicas (redundância falar isso, porque praticamente a totalidade das alergias se deve a proteínas que nosso corpo não reconhece como amigas), pesticidas, hormônios recombinados (transgênicos), pus (que chamam de células somáticas) e metais pesados (nitratos, nitritos) etc.

Para extrair dessa única vaca os 111,3 kg de leite, a vaca precisou comer pelo menos 65 kg de grãos e cereais e 226 kg de forragens. Em um só dia. Quase 300 kg de alimentos ricos em proteínas vegetais foram dados à vaca, para que em seu leite fossem devolvidas apenas 22% das proteínas ingeridas, um desperdício de 78% de proteínas. Chamam a isso de agregação de valor ao produto. Eu chamo simplesmente de desperdício cínico de comida. Se fôssemos alimentar humanos, o que essa vaca sozinha teve que comer em um dia teria dado para alimentar pelo menos 150 pessoas, considerando-se 2 kg de alimentos por pessoa nesse dia. Comer laticínios é comer toda essa comida e toda aquela água.

Alguém pode estar dizendo: o que dão de comer às vacas não seria possível digerir no estômago humano. Alguma coisa disso tudo é verdade. Mas, obviamente, não estou pensando em dar capim para os humanos, porque não digerimos celulose. Quem pensa que veganos comem capim é quem nada entende de proteínas, mas pensa que tudo sabe delas.

Como ouso, então, fazer comparações dessa ordem? Simples. Imagino o tanto de terra que precisou ser cultivada para produzir esses 300 kg de alimentos dados à vaca em um só dia, para extrair dela 111,3 kg de leite, mais os 96 mil litros de água necessários para processar esses mais de 100 kg de leite em forma de laticínios. Junto essa água e essa comida e penso no tanto de terra que isso custou. A terra que poderia ter sido cultivada com alimentos apropriados para a digestão humana, alimentos que não desperdiçam os aminoácidos que contêm, pelo contrário, deixam oito aminoácidos essenciais serem usados para sintetizar os outros doze que faltam para completar a cadeia proteica que refaz toda nossa matéria corpórea.

O leite não é um alimento inocente. Os países que mais o extraem chegam a cultivar 70% de suas terras para abastecer o gado usado para corte e para extração de leite e ovos. Se toda essa terra fosse cultivada com alimentos variados para alimentar humanos, precisaríamos ter duas vezes a população humana do mundo para dar conta de comer tudo isso, contando-se apenas o que é dado de comer às vacas usadas para extração do leite, não ao resto dos 56 bilhões de animais abatidos para consumo humano de carnes. Então, como ninguém pensa em duplicar a população humana, o planeta respiraria, aliviado, com o tanto de terra que voltaria a ser deixada por conta da vegetação natural, reconstituindo-se as florestas nativas ora destruídas pela carne e o leite.

A FAO recomenda a ingestão de 215 litros de leite por pessoa, por ano. Mais ou menos o leite que aquela vaca de Uberlândia produziria em dois dias. Então, dobremos os números, por alto, para se ter uma ideia do que a FAO quer que ocorra com a água do Brasil. Só de água dada a uma vaca com essa performance galactífera, cada brasileira e brasileiro responderiam pelo sumiço de 3.655 litros, por ano. Mas, para processar 215 litros de leite em formatos vários (laticínicos), seriam necessários mais 186.620 litros de água. Esse consumo é de um indivíduo ingerindo o que a FAO acha que deve ser ingerido de leite ou laticínios por ano per capita.

Vamos agora à seca dos reservatórios de água em São Paulo. Juntemos o leite que a FAO manda todo mundo consumir (215 litros por ano, em média, per capita) e a população de uma cidade como a de São Paulo, algo hoje acima dos 11 milhões de habitantes. Vou ficar nos números redondos, pois este artigo é apenas para chamar a atenção sobre nossa dieta insana.

Se temos 11 milhões de pessoas consumindo 215 litros de leite por ano, temos 2,365 bilhões de litros de leite consumidos pela população paulistana em 365 dias, um consumo de 6,479 milhões de litros por dia. Multipliquemos esse leite por 8,5 litros de água que as vacas tiveram que beber para não ficarem desidratadas com a extração de tanto leite: 55 milhões de litros de água por dia.

Aqueles 55 milhões de litros diários diz respeito apenas ao que as vacas beberam por dia. Mas temos que computar a água gasta no processamento dos 6,479 milhões de litros de leite em formatos laticínicos diversos. Para não atrapalhar, vou considerar que um kg de leite praticamente equivale (o que não é verdade, pois há uma diferença que pode chegar a 0,26 g) a um litro de leite. Multipliquemos, arredondando, os seis milhões de kg de leite em processamento, gastando 868 litros de água por kg, o que alcança mais 5 bilhões de litros de água por dia. Isso dá um consumo de 454 litros de água por dia, escondidos nos laticínios que as pessoas consomem. Nenhuma pessoa, num ritmo regular de consumo, consegue dar cabo de uma caixa de quase 500 litros de água por dia. Mas ao consumir laticínios ela dá cabo de toda essa água sem perceber. Depois não tem água para tomar banho, lavar a roupa, dar descarga ou fazer café. Dieta insana dá nisso. O troco vem como efeito bumerangue e bate bem no meio da testa.

Poucos gostam de ler artigos longos. Então vou economizar aqui a montanha de excrementos diários deixados sobre o planeta, poluindo o resto de água que ainda existe para humanos, por conta do consumo de leite e laticínios. É ou não é uma dieta insana, essa baseada nos laticínios?

E vejo com pavor as fotos da Cantareira seca. E moro em Santa Catarina. Temo pelos paulistas, por sua agonia diária, seu temor de faltar a água. Por isso escrevo. Não apenas para os Paulistas. Escrevo para todos nós. E leio com horror o tanto de leite extraído de uma vaca. As pessoas precisam de leite de vaca para sobreviver, ou de água? É preciso escolher.

A ONU já alertou em seu relatório de março de 2010 para o fato de que não haverá mais florestas para serem derrubadas, nem áreas para serem cultivadas, nem mananciais de água para serem secados com a produção de carnes, leites e ovos no planeta, em 30 anos. Quer dizer, os bebês que agora nascem deveriam ser acostumados na dieta vegana. E nós, que já passamos da metade do prazo de validade de nossas vidas, deveríamos, para dar o exemplo, seguir desde já essa dieta, abolicionista. Dieta vegana. Paz para as florestas. Paz para os animais. Paz para o corpo humano. E comida farta, colorida, direta, em formatos e nutrientes que só a natureza sabe compor para nutrir nosso corpo. Demos um Viva! à Cantareira, cujo manancial está a ser sugado pelo leite. Água para beber. Dieta ética.

Veggi e Tal - Receitas veganas, Veganismo e Direitos Animais
© 2012 - 2016