O vegetarianismo e a literatura russa desde Tolstói

Dária Amínova, especial para Gazeta Russa

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Tolstói (centro) foi precursor na literatura sobre vegetarianismo na Rússia Foto:RIA Novosti

De acordo com dados de uma pesquisa realizada pelo portal SuperJob, atualmente cerca de 4% da população russa é vegetariana. Porém, poucas pessoas sabem que, desde o século 19, escritores russos são alguns dos principais defensores das ideias do vegetarianismo.

O vegetarianismo começa a se espalhar pela Rússia a partir de meados da década de 1860, quando em São Petersburgo surge a primeira sociedade vegetariana, jocosamente chamada de “nem carne, nem peixe”.

No final do século 19, o termo “vegetarianismo” aparece no “Dicionário da língua russa”, e em 1894 um restaurante vegetariano é inaugurado em Moscou. Com o título “Eu não como ninguém”, o primeiro livro de receitas sem carne é publicado em 1923, sugerindo um cardápio para o ano inteiro, com 365 opções destinadas aos adeptos de uma alimentação de origem vegetal.

Os pintores Nikolai Roerich, Nikolai Ge e Iliá Repin e o fisiologista Ivan Pavlov, ganhador do Prêmio Nobel, eram veganos famosos da Rússia Tsarista. Também entre os escritores, não eram poucos os partidários de uma alimentação isenta de produtos resultantes do abate de animais.

Lev Tolstói (1828-1910)

O grande escritor russo parou de comer alimentos de origem animal de o colega inglês William Frey, que já era vegetariano, visitá-lo em sua propriedade, Iásnaia Poliana, na região de Tula.

Após a visita, Tolstói escreveu o tratado “O primeiro degrau” (1891), que seus contemporâneos chamavam de “Bíblia do vegetarianismo”. Nessa obra, ele enfatiza o componente moral da escolha pelo vegetarianismo, considerado o passo correto para ascender pela escada das virtudes.

Após o surgimento desse tratado, o vegetarianismo começou a se disseminar rapidamente entre os intelectuais russos. Segundo as memórias da esposa de Tolstói, Sofia, as reflexões dele não coincidiam, porém, com seus verdadeiros hábitos alimentares.

2. Nikolai Leskov (1831-1895)

Tornou-se vegetariano por influência de Tolstói. Leskov publicou no jornal “Novoe Vremia” (Novo Tempo) um artigo intitulado “Sobre os vegetarianos ou pessoas piedosas que não se alimentam de carne” (1889) e, mais tarde redigiu, apelos para a criação de um livro sobre o vegetarianismo.

Criou o primeiro personagem vegetariano da literatura russa, que aparece no conto “Figura”. Depois dele, veio Nástia, uma heroína seguidora de Tolstói e vegetariana convicta, que surge no conto “Polunoschniki”.

Serguêi Essênin (1895-1925)

O jovem poeta inspirou-se em numerosos artigos de Tolstói. O fato de ter travado conhecimento com o renomado fisiologista vegetariano Ivan Pavlov também causou uma forte impressão em Essênin. Nessa época, ele se privou da carne, do peixe e do tabaco, apesar de isso não ter ocorrido por um período muito longo.

Em uma carta ao seu amigo Grigôri Panfilov ele escreveu:

“Pois bem, eu deixei de comer carne, também não como peixe, não utilizo açúcar e tenho vontade de me despojar de tudo o que é de couro, mas não quero ser chamado de ‘vegetariano’. Por que isso? Para quê? Sou uma pessoa que conheceu a Verdade, não quero mais usar as alcunhas de cristão e camponês, para que vou rebaixar minha dignidade?”.

Em seus versos, Essênin se referia com emoção e compaixão aos animais.

Maksim Górki (1868-1936)

Durante toda a sua vida Górki preferiu os pratos simples dos camponeses: legumes salgados e em conserva, mingaus e sopas. Manteve-se em excelente forma física até uma idade avançada. Ele até se tornou personagem de uma anedota intitulada “O vegetariano e uma dama impertinente”:

Górki era vegetariano. Quando estava em visita aos Estados Unidos, em um dos almoços festivos puseram-no sentado ao lado de uma senhora que ficou o tempo todo tentando persuadi-lo a comer um pedacinho de carne:

“Talvez um pedacinho de galeto?”, ofereceu a senhora.

“Não, obrigado”, respondeu educadamente o escritor.

“E uma fatia de presunto?”, perguntou ela.

“Não, agradeço”, disse o escritor.

“Mas talvez um pedacinho de vitela?”, não sossegava a mulher.

“Não, não como isso”, disse Górki e, perdendo a paciência, acrescentou: “Se algum dia eu começar a comer carne, provavelmente será carne humana e somente crua!”.

5. Víktor Pelevin (1962)

Pelévin é um dos mais enigmáticos escritores contemporâneos russos, com romances traduzidos para diversas línguas. Ele não gosta de dar entrevistas nem de revelar aos repórteres os seus pontos de vista.

Em reportagens na imprensa russa, o autor é descrito como, além de um pensador influente, um “vegetariano convicto e budista”.

 

Fonte: Gazeta Russa

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