Manejo não letal de capivaras

por Sérgio Greif

capivarasNo dia 25 de novembro de 2015 estarei participando, na Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo, da audiência pública “Febre Maculosa: Matar Capivaras Resolve?”, onde realizarei uma apresentação sobre o manejo não letal e ético de populações de capivara. No presente texto discorro sobre o tema.

Desde que o ser humano se entende como tal necessitou classificar os demais seres vivos de acordo com a forma como estes se relacionavam com ele. Dessa forma, havia os animais e plantas comestíveis e os não comestíveis, os perigosos e os não perigosos. Esta forma de classificação não tinha qualquer base científica ou filogenética, tal como o sistema taxonômico organizado por Carl von Lineé (século XVIII) em seu Systema Naturae, mas se apresentava como um sistema pragmático que viabilizava ou facilitava a adaptação humana ao seu meio.

Embora vivamos em uma época em que praticamente todos estejam familiarizados com termos como mamíferos, anfíbios ou invertebrados, a classificação dos seres vivos utilizando o antigo sistema baseado em sua relação conosco persiste. É dessa forma que dividimos, por exemplo, os animais em silvestres, nativos ou exóticos, domésticos, domiciliares ou de exploração, ferais ou bravios, selvagens domesticados, sinantrópicos, invasores, peçonhentos ou não-peçonhentos, venenosos, comestíveis, etc.

É utilizando esta mesma classificação, desta vez de uma maneira menos precisa e mais espacializada e temporal, que podemos classificar os animais como “pestes” ou “pragas”:

Um rato solto em nossas casas é uma “praga”, um “vetor” de doenças; um rato preso na gaiola ou no aquário em nossas casas pode ser um “animal doméstico”, ou quem sabe uma “presa” para nossa serpente “de estimação”; um rato em uma ilha é um “invasor”; um rato na gaiola de um laboratório é uma “cobaia” ou “animal de experimentação”; um rato no espetinho de uma feira na Tailândia é uma “refeição” . . . Nós o vemos de formas diferentes dependendo do contexto, mas trata-se da mesma espécie de animal.

É desta forma que um cão pode passar de “animal de estimação” a “animal errante”, que um cavalo passa de “animal de tração” a “animal feral”, que um javali passa de animal “exótico” a “invasor”. Depende como os nossos olhos os encaram, de nossas perspectivas.

Se coelhos e ratos pudessem acumular traços culturais, conhecimento histórico e desenvolvessem um raciocínio como o nosso, diriam que não são eles as pragas. Se hoje eles estão em todos os continentes foi porque para todos os continentes eles foram levados por uma espécie que de fato se dissemina em uma velocidade que supera a velocidade de disseminação de todas as demais espécies.

O ser humano disseminou animais e plantas do Velho Mundo no Novo e no Novíssimo Mundo enquanto os descobria, derrubou as matas nativas, caçou as espécies nativas à extinção, cresceu demograficamente, construiu cidades, industrias, transformou completamente o ambiente . . . Mas por ironia foram os animais com eles levados que foram considerados “pragas” . . .

Não apenas isso. Animais nativos dos locais colonizados, quando por algum motivo se adaptavam ás novas condições impostas e proliferavam em número, passavam a ser considerados “excedentes de populações”, ou “pestes silvestres”. É o caso dos cangurus na Austrália e das capivaras no Brasil.

Vários fatores afetam o tamanho de uma população. Fatores que contribuem para o aumento no número de indivíduos são: alta taxa de natalidade, imigração ou recrutamento de novos indivíduos, abundância na disponibilidade de alimentos, abrigos e outros recursos, baixa mortalidade e retirada de indivíduos e a escassez de predadores e doenças.

Discutindo o controle de populações

Poder-se-ia pensar que, sendo os fatores acima aqueles que contribuem para o aumento de uma população, bastaria se fazer o contrário para que uma população diminuísse. Se considerarmos apenas os aspectos teóricos que regem a dinâmica de uma população isso poderia ser verdadeiro, mas na prática não é assim que ocorre. Vejamos o exemplo das capivaras:

A população de capivaras prolifera em parques que possuem lagoas e áreas de banhados, muito próximo aos centros urbanos. Nestes locais não existem os predadores naturais destes animais, tais como onças, jacarés e sucuris, e este é um dos fatores que contribuem para seu crescimento descontrolado. Não faria sentido, porém, introduzir predadores naturais destes animais nos locais onde elas ocorrem, porque estes mesmos predadores poderiam atacar seres humanos, animais domésticos e outras espécies não alvo que frequentam estes mesmos lugares.

Um agente de controle mais direcionado, a exemplo de um vírus específico a esta espécie, também não faria sentido. Capivaras são atacadas pelos mesmos mosquitos, carrapatos, ácaros, vermes, protozoários, fungos, bactérias e vírus que atacam muitas outras espécies (Nogueira, M. F. & da Cruz, T. F. Doenças da Capivara Corumbá, MS: Embrapa Pantanal, 2007. 74 p.), não são conhecidos vírus espécie-específicos para capivaras.

A introdução de doenças em uma população, além de flagrante crueldade contra os próprios animais, pode resultar em descontrole da doença para outras populações, inclusive de outras espécies.

Mesmo que fossem vírus não letais, mas vírus recombinantes carreadores de proteínas semelhantes às presentes na superfície dos espermatozoides ou dos óvulos, de modo a atuar como vetores de uma imunoesterilização, não haveria como confiar em tal sistema. Em primeiro lugar porque, como já dito, não há um vírus espécie-específico para capivaras, de modo que o mesmo vírus poderia atuar em outras espécies, inclusive silvestres. Em segundo lugar porque, mesmo que tal vírus existisse e tivesse um grande sucesso em se disseminar nessa população, ele poderia levar toda a espécie à extinção, o que não creio que seja a intenção nem mesmo dos estimuladores do abate.

É certo, portanto, afirmar que a introdução de predadores e agentes etiológicos em um ambiente antrópico está fora de cogitação. São estas as duas principais causas de morte de capivaras, e o que mantém seus números dentro de patamares sustentáveis. Porém, no meio urbano esta mortandade se reduz drasticamente, limitando-se a alguns poucos episódios de atropelamentos outras causas, o que não chega a ser um fator expressivo na regulação do tamanho das populações destes animais.

Diminuir a oferta de alimentos e abrigo para animais em geral é uma proposta que funciona na regulação do tamanho de populações. Capivaras, como outros roedores, aumentam e diminuem o tamanho de sua prole de acordo com a disponibilidade de alimentos. Mas como impedir capivaras soltas em um parque de ter acesso ao seu alimento, quando seu alimento consiste basicamente de gramíneas (grama, capim, etc) e plantas aquáticas? Como impedir seu acesso a abrigos se para estes animais o abrigo é a própria lagoa do parque e a vegetação? Para diminuir a oferta de alimentos e abrigos para capivaras em um parque as áreas verdes necessitariam ser asfaltadas e as lagoas drenadas, descaracterizando a própria função do parque.

Tem-se proposto a liberação da caça de animais excedentes, o ser humano assim preenchendo o papel que caberia a um predador na natureza. Analisemos esta proposta:
A onça é um predador natural das capivaras, mas de um grupo com 30 capivaras, qual uma onça escolheria? Certamente o predador escolheria a capivara que lhe parecesse mais vulnerável, aquela que tivesse uma aparência fraca, debilitada, doente, que pesasse no máximo 25 ou 30 Kg.

Em um grupo de 30 capivaras, qual delas um caçador humano com um rifle com alcance de 800 m escolheria? Provavelmente um animal que lhe rendesse um bom troféu, ou cuja carne pudesse ser guardada na geladeira por muito tempo. Uma capivara de 70 kg.

Resulta que os predadores e vírus são elementos de manutenção da qualidade dos indivíduos de uma população. São agentes da seleção natural, que eliminam os indivíduos mais fracos e permitem a proliferação dos mais fortes. Caçadores com armas de fogo fazem exatamente o contrário, porque eliminam os indivíduos mais fortes, selecionando os mais fracos para que estes passem seus genes às próximas gerações.

De tempos em tempos ouvimos também a proposta de completa eliminação (ou extermínio) da população de capivaras de uma área ou um parque, visando o controle do carrapato-estrela (Amblyomma cajennense), vetor da bactéria riquétsia (Rickettsia rickettsii), que causa a febre maculosa. Analisemos esta proposta:

Suponhamos uma área verde onde exista um grupo de 15 capivaras. Este grupo provavelmente é composto de um macho alfa, várias fêmeas e alguns filhotes e juvenis. Eliminar o grupo significa deixar um nicho descoberto. Uma lagoa, abrigo, alimentos . . . e nenhuma capivara territorialista tomando conta. Não demorará muito e um outro grupo de capivaras surge de uma área contigua e se fixa no local.

Eliminar qualquer espécie de roedor de uma área, mas manter seus abrigos e alimentos, significa provavelmente em pouco tempo ter uma nova população de roedores da mesma espécie fixada na mesma área. É assim que funciona com ratos e camundongos, e assim também ocorre com as capivaras.

A ausência de capivaras cuidando de seu território permite a fixação de uma nova população da mesma espécie, e quiçá seja essa população a portadora do carrapato-estrela, ou quiçá seja essa população ainda não imune à riquétsia, e por isso mesmo com maior potencial de disseminação da doença, conforme veremos adiante.

Ademais, retirar toda uma população de capivaras de uma área não significa remover a população de carrapatos desta área.  O carrapato-estrela continuará ali na terra e na vegetação, podendo permanecer por 1 ou 2 anos sem se alimentar, até que encontre outro hospedeiro, podendo ser este basicamente qualquer outro animal, inclusive animais domésticos e o ser humano. Irônico que os frequentadores de um parque se sintam mais confortáveis por haverem eliminado o “depósito de carrapatos” e por isso mesmo se vejam parasitados pelos mesmos. Ou talvez os patos, gansos e cisnes para os quais eles levam pães.

Vemos, portanto, que o extermínio de capivaras além de não funcionar, poderá acarretar em maior risco de parasitismo de seres humanos e animais domésticos por carrapatos.

Não à toa a proposta de extermínio de capivaras gera tanta revolta na população. Além do flagrante desrespeito aos direitos animais, a proposta não é tecnicamente sustentável. Capivaras protegem a área de outros grupos de capivaras e chegam mesmo a evitar a contaminação de seres humanos e animais domésticos pela riquétsia, como veremos à seguir.

Capivaras protegem contra febre maculosa?

Parece um contrassenso que um animal acusado de transmitir uma doença possa servir, na realidade, como uma proteção contra esta mesma doença, mas como visto, o extermínio de capivaras em determinada localidade levaria os carrapatos, que se existissem certamente permaneceriam na área, a buscarem outros hospedeiros.

São hospedeiros destes carrapatos, além das capivaras, animais domésticos tais como cavalos, mulas, bovinos, búfalos, ovelhas, cabras, porcos, coelhos, cães, aves domésticas (galinhas, patos, marrecos e gansos), e animais silvestres como ratos, preás, cutias, pacas, tapitis, gambás, tatus, veados, catetos, lagartos e serpentes. Seres humanos funcionam como hospedeiros acidentais para estes carrapatos.

Qualquer destes animais pode ser hospedeiro de carrapatos, bem como pode ser reservatório da riquétsia, então não há motivos para se culpar, ou exterminar, apenas as capivaras. O correto, ética e tecnicamente, seria realizar um manejo dos carrapatos e das riquétsias e, sem duvida alguma, o correto é manter as capivaras nos locais onde elas já se encontram.

O que poucas pessoas sabem é que as capivaras infestadas por Rickettsia rickettsii dificilmente transmitem a febre maculosa. A transmissão por estes animais ocorre apenas durante a fase de bacteremia ou “ricketsemia”, quando a quantidade de bactérias no sangue da capivara aumenta consideravelmente. Após essa fase, que dura cerca de 14 dias, o animal já produziu anticorpos contra a infecção e deixa de infectar outros animais, ainda que seja parasitada por carrapatos.

Portanto, manter em um determinado parque um grupo de capivara cujos indivíduos sejam positivos para riquétsia é a garantia de que aquelas capivaras não poderão transmitir febre maculosa para outros animais e para o ser humano. Remover esta população significa deixar um nicho aberto para que outras capivaras, desconhecidas, venham a se fixar no mesmo local. Talvez algumas dessas capivaras não sejam ainda portadoras de anticorpos para a riquésia, e potencialmente serão estas que poderão transmitir a doença para seres humanos e animais, por pelo menos 14 dias após sua infecção.

Outra possibilidade é que os filhotes, mesmo de grupos completamente imunes à riquétsia, possam passar pela fase de ricketsemia, já que eles não nascem imunes à doença. Daí a importância, além de manter a população das capivaras na área, evitar os nascimentos de novos indivíduos.

Pode-se ver, portanto, que a presença de capivaras em uma área não é parte de um problema no que tange à febre maculosa. O problema real que existe, com relação a estes animais, é quando eles se reproduzem sem controle.

Controle de fertilidade em capivaras

Há muitas formas de se realizar o controle de natalidade em uma população animal, sendo algumas delas: A castração física de ambos os gêneros, a castração física de apenas um dos gêneros, a castração química ou biológica dos animais, a esterilização de ambos os gêneros, a esterilização apenas dos machos (vasectomia), a esterilização apenas das fêmeas (laqueadura tubária), a remoção dos machos ou das fêmeas da população, etc.

Todos esses métodos podem ser efetivos para determinados grupos de animais, porém completamente inefetivos para outros grupos. As capivaras são animais gregários, que vivem em grupos coesos, com hierarquia social rígida e estável, poliginicos, com grupos constituído de um macho alfa, várias fêmeas geralmente aparentadas e filhotes, além de machos subordinados ou satélites.

Todos os membros adultos do bando, mas especialmente os machos alfas, lutam para manter seu território livre de outras capivaras adultas, especialmente outros machos. O que ocorreria se estes machos fossem castrados ou retirados do bando?

Fosse qual dessas duas interferências, o macho alfa perderia sua virilidade e sua função no bando, vindo a ser substituído por outro macho daquele ou de outro bando. A vasectomia, porém, manteria suas funções reprodutivas e manteria a integridade do bando e a manutenção de seu território, daí ser esta a melhor opção para o controle de capivaras.

Note-se, porém, que machos satélites também tem acesso sexual às fêmeas, e filhotes atingem a maturidade sexual antes de completarem 2 anos de vida, assim sendo, caso a opção seja pela esterilização apenas dos machos, por vasectomia, todos os machos do bando deverão sofrer o procedimento, e não apenas o macho alfa. A vasectomia nos machos é um procedimento menos complexo do que a ligadura de trompas nas fêmeas, mas para uma garantia de controle da fertilidade o ideal é que ambos os gêneros possam ser esterilizados.

Captura do grupo

A captura dos animais deve, tanto quanto possível, ser realizada de uma única vez para todo o grupo, de modo a não se criar nos animais não capturados que tenham presenciado a captura de indivíduos de seu grupo comportamento de evitamento.

O procedimento mais usual para captura do grupo consiste na utilização de alimentos que os atraiam, tais como bagaço de cana, milho em grão, rolão de milho (palhada e sabugo), rações peletizadas para roedores ou espécies de capins que não sejam encontrados na área. Estes alimentos deverão ser fornecidos diariamente e sempre no mesmo local, por determinado tempo, de modo que o grupo se acostume a se alimentar nesta área (ceva).

Após este período, será construído neste local um brete, cujo interior será o local de ceva das capivaras. Este brete será à princípio semiaberto, acostumando os animais a se alimentarem em seu interior. Durante este período o grupo terá de ser estudado para verificar sua composição, de modo a se saber se todos os indivíduos continuam participando da ceva.

O brete será então fechado, permanecendo apenas a porta aberta e por mais alguns dias se manterá a ceva dos indivíduos, fechando-se a porta quando puder ser constatado que todos os indivíduos encontram-se em seu interior. Esse é o procedimento de captura passiva dos indivíduos.

Uma vez capturados no brete os animais poderão ser manipulados com mais facilidade. Convém que para que esta manipulação ocorra com mais facilidade os animais sejam anestesiados com uso de dardos anestésicos lançados por uma zarabatana ou um rifle. Uma vez isolados estes indivíduos deverão ser marcados, identificados, tratados com carrapaticida e sarnicidas, bem como vermífugos, ou o que mais se julgar necessário, bem como será coletado material biológico para teste de febre maculosa. Os animais também deverão ser esterilizados, inclusive os filhotes.

A febre maculosa é uma doença para a qual ainda não se criou vacinas, mas as capivaras poderão ser imunizadas mediante contato com a Rickettsia rickettsii (que pode matar 100% dos infectados humanos, mas mata 0% das capivaras adultas), cujo risco de disseminação enquanto os animais forem mantidos no brete estará controlado, criando-se uma barreira contra o carrapato-estrela. Após 2 semanas, passada a fase ricketsêmica da doença, as capivaras poderão ser liberadas novamente no mesmo local.

Além da captura passiva do grupo de capivaras, há que se considerar que alguns indivíduos poderão ser resistentes à ceva, à entrada no brete, etc. Estes indivíduos deverão ser capturados ativamente, de modo que os mesmos procedimentos realizados com o restante do grupo possam ser realizados com estes.

São formas de captura ativa de indivíduos a sedação com dardos atirados por zarabatana ou rifle (atenção para o fato de que os animais poderão buscar refúgio na água e se afogar), bem como a utilização de redes e puçás ou cercamentos de outras maneiras.

Por mais paradoxal que possa parecer, uma área verde que contenha uma população controlada de capivaras que apresentem anticorpos anti riquétsia e com controle regular de carrapatos é mais segura do que uma área de onde as capivaras tenham sido simplesmente removidas, e esta é a mensagem principal do presente artigo.

Audiência Pública
Febre Maculosa: Matar Capivaras Resolve?

Data: 25 de Novembro de 2015

Participação: Sérgio Greif

Horário: das 19:00 hs às 22:00 hs.
Local: Auditório Teotônio Vilela
Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo
Avenida Pedro Álvares Cabral, 201, 1º Andar
Iniciativa e Realização: Deputado Feliciano Filho

Informações: facebook.com/felicianofilho.cps

Tel: (11) 3886-6534

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