Misantropia (ou há também misoginia) e discriminação especista

Dr. phil. Sônia T. Felipe

misantropia-especismoSabe por que os misantropos odeiam veganos abolicionistas que elaboram concepções interseccionais e falam de um assunto cercando o objeto por todos os lados, para que os argumentos “tradicionais”, tanto os relacionados a nutrientes, quanto outros, construídos para legitimar as tidas como “necessidades”, que têm justificado a proliferação e a chacina de 70 bilhões de animais todos os anos, sejam desmoronados?

Porque odeiam a ideia de que são animais como os outros.Querem ser mais que os outros, distanciar-se, fazer de conta que não têm nada de animal em si pelo que devam se preocupar. Querem se parecer como seres superiores dos quais os outros dependem para se libertar, sem se incluírem eles mesmos no desdobramento final daquela libertação, como se escravos e senhores não estivessem imbricados nos mesmos elos de uma corrente. Então, fingem que só têm um interesse: o bem e a salvação dos animais. E querem porque querem que só se escreva algo em ética abolicionista se não se citar nunca a condição animal dos humanos, seja a dos que escrevem, seja a dos que leem.

Esquecem de anotar em sua agenda que nenhuma mudança moral profunda se fará enquanto quem a quiser fazer esquecer-se que é também um animal. Toda ética é antropogênica, mesmo a que quiser abolir o antropocentrismo.

Na condição de animal a defender outros animais, há milênios criados e mortos para atender às pretensas necessidades humanas, temos uma intersecção mais complexa, porque implica em tratar a um só tempo pelo menos três questões: a dos animais outros que não os humanos em sua condição de reféns e escravos, a dos ecossistemas dos quais todos os animais dependem para viver, sem os quais não adianta defender a vida dos animais, se eles não poderão viver no planeta ora destruído pela devastação hídrica e alimentar orientada para a produção de carnes, leites e ovos, e a do próprio corpo humano, que não pode ser desrespeitado e violentado por qualquer dieta em nome da defesa dos direitos dos outros animais.

Esses são três nós difíceis de desfazer ou de desalinhavar, para que se possa refazer e realinhavar a trama moral na qual os outros animais sejam finalmente respeitados, ao mesmo tempo em que o animal que se é não seja violentado, seja por ideias especistas, seja por dietas especistas, seja por divertimentos especistas.

É preciso desmontar todo o esquema dos condicionamentos conceituais, incluindo os alimentares, para que as pessoas possam se libertar deles. Sem desemaranhar esse arame farpado conceitual especista, algo que algumas pessoas que se tornaram veganas pelos animais gostam de empurrar para debaixo do tapete e aproveitar para pisotear bem quem já passou por essa questão e está construindo um caminho que não discrimine ecossistemas, animais outros que não os humanos e animais humanos, não haverá libertação dos animais.

E para fazer isso é preciso dar nome a muitas práticas discriminadoras especistas, tais quais: especismo elitista, especismo eletivo, xenoespecismo, carnivorismo, galactolatria, além de se criar termos para designar o assassinato de animais que nunca são especificados nas notícias: equicídio, bovicídio, ovicídio, capricídio, avicídio, gaticídio, canicídio etc.

Quem não suporta essa forma de construção teórica tem competência para buscar outras e construir a sua. No somatório geral, só o trabalho sério trará alguma luz ao final desse escuro túnel pelo qual todas nós igualmente estamos passando.

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