Segundo primatologista, “A moralidade humana vem dos Símios”

A moralidade humana tem passado evolutivo ligado ao comportamento social, não religioso ou filosófico. Assim propõe o primatologista e professor Frans de Waal em seu livro “O Bonobo e o Ateu“.

“Muitos dos padrões que consideramos “moral ” vêm da evolução das espécies”, disse De Waal à BBC, num artigo publicado em maio de 2013.

Baseado em 40 anos de observação de primatas, De Waal diz que o que os humanos chamam de “moral” é muito mais próximo do comportamento social dos primatas do que uma imposição divina ou uma decisão filosófica.

Para o cientista, a moral não passa por uma decisão que se toma ou se impõe vinda de cima – filosofia, religião ou mesmo autoridade – mas é inata ao comportamento social humano. Não só isso: não é exclusiva, mas vem como parte do “pacote social” que também pode ser encontrado em outros animais, como nossos parentes primatas.

Segundo o autor, os dois pilares da moral: reciprocidade e justiça por um lado, e empatia e compaixão pelo outro, estão presentes no comportamento social dos macacos, que é amplamente retratado no livro.

Ética primata

Isto está relacionado com os dois graus de moralidade que De Waal distingue no comportamento desses animais. O primeiro, chamado moral “um a um” tem a ver com a forma como um indivíduo espera ser tratado.

Os estudos de De Waal, assim como os de outros pesquisadores, descobriram que os chimpanzés e bonobos respeitam o conceito de propriedade e tratam a seus iguais de acordo com a escala de hierarquia.

No entanto, muitas outras espécies parecem ser regidas por um sistema semelhante. Assim, quando um comportamento social torna-se moral?

A chave é que esses primatas esperam que você respeite os seus “direitos” e que sejam tratados de acordo com seu nível hierárquico. Como animais sociais, eles mostram gratidão e podem até se vingar, dependendo do comportamento dos outros em relação a eles.

O segundo grau de moralidade é chamado de “preocupação social” e está relacionado a um conceito mais abstrato, que envolve a sensação de harmonia da comunidade ou grupo como um todo. Embora bastante rudimentar, macacos mostram certas formas de reconhecimento desse grau de moralidade através da partilha de seus alimentos, tranquilizar seus vizinhos ou até mesmo “intervir” em lutas de terceiros para evitar perturbações na comunidade.

Em uma palestra para a TED feita por De Waal antes do lançamento do livro, o autor explicou que uma das coisas que chamou a atenção dos primatas estudados era o seu desejo de conciliação depois de uma briga. “O princípio é que você tem relacionamentos valiosos que são danificados pelo conflito, então você tem que fazer algo a respeito”, disse ele na ocasião.

Tudo sempre em vista da aceitação – e cooperação – social

Nós seres humanos, como os nossos parentes primatas, evoluímos em pequenos grupos onde a cooperação se tornou fundamental. Tal como eles, também, ser sensível às necessidades, intenções e  ânimos de nossos semelhantes tornou-se uma necessidade vital. E que, de acordo com De Waal, não tem nada a ver com uma decisão ou um mandato superior, mas com sobrevivência básica.

“Nós seres humanos temos todos os tipos de interesses egoístas e conflitos individuais que precisamos resolver para alcançar uma sociedade cooperativa. É por isso que temos moral, e as abelhas e formigas não”, disse De Waal em uma entrevista.

“O conceito de que ‘o homem é o lobo do homem” é muito injusto. Tanto para os lobos, que são animais muitos cooperativos, quanto para a humanidade que é também muito mais cooperativa e empática do que se costuma dizer “, disse cientista em sua palestra.

Polêmicas religiosas

Nem Deus nem a filosofia, então, teriam influenciado o desenvolvimento do comportamento moral.

No entanto, as teorias de De Waal, com base em suas descobertas, não caem muito bem entre os filósofos, antropólogos e até mesmo economistas, segundo o próprio De Waal disse.

“Eles decidiram em suas mentes que a justiça é um conceito complexo e que os animais não pode tê-la. Houve um filósofo inclusive que nos escreveu queixando-se de que era impossível que os macacos tivessem um senso de justiça, pois a justiça era um conceito inventado durante a Revolução Francesa “, disse o cientista em sua palestra.

E está envolto em outra polêmica. Desta vez religiosa. Ou não-religiosa, para ser exato.

“A religião não é irrelevante, mas não é a base da moralidade”, De Waal disse à BBC.

Originário da Holanda, De Waal conta à BBC Mundo que o livro é também uma reação a uma sociedade como os EUA, onde a maioria das pessoas associam diretamente a moral com a religião.

Em seu livro, o cientista dedicou um capítulo inteiro ao ateísmo. “Sou a favor de um papel reduzido da religião, com menos foco em Deus Todo-Poderoso e mais foco no potencial humano”, escreve ele. Mas isso não parece ser suficiente para os ateus.

Representantes proeminentes do ateísmo como PZ Myers e AC Grayling criticaram o livro, incomodados não só por que De Waal é um cientista que “demoniza” a religião, mas que também critica o ateísmo, alertando sobre os perigos de transformá-lo em um dogma tão forte como a própria religião.

“Eu acho que eles devem se acalmar um pouco”,  De Waal disse à BBC, colocando panos quentes sobre a discussão.

“Se Deus existe é uma pergunta interessante, mas não é a questão do meu livro e tampouco é uma questão que um cientista vai ser capaz de responder”, ele conclui.