A paralisia amorosa

Dedicado às vítimas da somatofobia

Dr. phil. Sônia T. Felipe

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Of Mice and Men

Na postagem de ontem abordo a “Paralisia emocional e a violência contra os animais”. Nesta, trato um pouco mais da questão, através da literatura. Não conheço melhor personagem para configurar a paralisia amorosa somatofóbica do que Lennie, em Ratos e homens, escrito em 1937 por John Steinbeck (Nobel de literatura em 1962).

Sem qualquer inteligência emocional, manipulado pelos impulsos ordenados por seu sistema límbico profundo e, portanto, submetido ao comando de sua amígdala, Lennie, uma máquina de moagem, atende somente às ordens de seu companheiro George, que lhe serve de guia, tutor e superego.

A vida miserável de ambos, durante o período da depressão, leva-os de uma fazenda à outra, em busca do trabalho duro da colheita, em troca de míseros dólares, comida e alojamento inqualificáveis. O carinho e a estima de George e Lennie um pelo outro os salvam do mal. Mas não bastam para proteger Lennie dos desdobramentos acarretados por sua atrofia neuromental e imbecilidade moral (cacotimia).

Ao final, a deficiência emocional e moral de Lennie o leva a perder a vida, no “tiro de misericórdia”, disparado pela mão da única pessoa que o amou, George. Não havia, no entender deste, modo mais digno de pôr fim à sequência de atos somatofóbicos nos quais Lennie se enredava sem conseguir deter-se.

Lennie, a máquina de força e tamanho incomuns, em sua pureza imbecil, tem devotamento por George. Sem memória nem capacidade de discernimento para gravar o que interessa ou fazer ilações sobre valores morais, Lennie atende ao que George lhe pede ou ordene que faça ou não faça. Mas, por não haver em seu cérebro qualquer função no córtex pré-frontal, responsável pela elaboração da linguagem que nos ampara e escuda em momentos de extrema tensão emocional, Lennie não memoriza coisa alguma que exija reflexão sobre o significado e o sentido dos seus atos e as consequências deles, tanto para ele quanto para os que os sofrem. Então, quando George não está por perto, tudo se arruína e ele fica refém de suas próprias emoções. Neste estado, atende apenas aos impulsos incontroláveis que lhe dita o prazer tátil mais singelo, o de tocar algo macio.

Lennie dedica seu amor a George, de quem depende para estar ainda vivo. Ao mesmo tempo, cultiva verdadeira paixão por animais que pode acariciar e a quem precisa, compulsivamente, “agradar”: ratinhos, cãezinhos, coelhos e tudo o que tem maciez, que produz prazer sensorial tátil indizível. Este é o único prazer puro que Lennie sente, depois da comida (bolo, molho de tomate), pela qual também é aficionado, com seu tamanho gigantesco.

Justamente quando vive o prazer do toque, Lennie fica preso na armadilha emocional. O prazer é tanto que ele não consegue afastar sua mão do animal ou do tecido macio que estiver acariciando. Nada é voluntário no que ocorre na sequência. Seu desejo tátil de “agrado” de algo macio o sequestra por completo, a ele, que vive pegando no pesado, colhendo feno, cevada, lidando com a terra, a pedra e o ferro, na dureza inerente ao trabalho das colheitas manuais nas plantações do início do século passado.

Ao inebriar-se no prazer de tocar o pelo macio de um ratinho ou de um cachorrinho, que leva para a cama, escondendo-os no bolso, ou de sonhar com o dia em que ele e George terão comprado sua terra e criarão coelhos para Lennie poder cuidar e “agradar”, Lennie é tomado por uma paralisia nervosa. Sem o desejar, “agrada” tanto o animal que lhe dá prazer, que sua mão paralisa, acabando por esgoelar a criatura. Não consegue não fazer isso. Não consegue tirar a mão do pescocinho do animal, da cabeça do animal. Este é seu modo de surtar somatofobicamente: se acariciar o que deseja, cai na armadilha, vira refém, paralisa-se no desejo de “agradar”.

Do mesmo modo, se tocar no tecido macio do vestido de uma mulher, não consegue tirar a mão dali. Quando as mulheres, temendo seu porte e força, e prevendo um assalto sexual, lhe ordenam que o faça, Lennie é tomado por essa paralisia nervosa, que o medo do castigo por estar fazendo algo errado sempre produz nele. E, justamente, é a paralisia emocional que o leva a estrangular a criatura. Quando tomado por ela, não faz distinção especista entre as criaturas, se roedora, canina ou humana.

Incapaz de reter distinções conceituais, incapaz de formular qualquer raciocínio, incapaz de se colocar na cadeia de eventos que sucedem os seus movimentos amorosos paralisantes, Lennie também não discrimina as criaturas, nem tem por elas qualquer empatia. Para discriminar e empatizar é preciso distinguir-se a si, do outro.

Na mente de Lennie não funcionam os mecanismos de formulação de conceitos, nem empíricos, nem morais, nem intelectuais. Só o prazer tátil de “agradar” algo macio desperta nele a ternura. Uma ternura tão veemente que o leva a matar o objeto do desejo. Seu gesto não se deve à natureza dos animais a quem dá cabo com a pressão da mão. Deve-se à sua atrofia moral, emocional. Assim, ele estrangula, igualmente, ratinhos, cãezinhos e mulheres, caso tenha chance de lhes fazer um agrado em sua maciez.

Lennie não atende ao pedido de uma mulher para que pare de tocar seu vestido. Ele só obedece ao comando de George. Mas este nem sempre está presente. Também não tem a menor consciência de que os bichinhos escondidos no bolso agonizam sob a pressão férrea de seus dedos paralisados, contraídos pelo prazer do macio. Ele estrangula a todos, indiscriminadamente, por “amor”.

Ao ler o livro Inteligência emocional (Daniel Goleman, 1995) depois de ter lido sobre as mentes psicopatas (The mask of sanity, de Herwey Cleckley, 1937; e, Without conscience: the disturbing world of the psychopaths among us, de Robert D. Hare,1993), na minha pesquisa atual sobre a natureza das mentes que praticam a violência contra os animais humanos e não humanos, não pude deixar de lembrar de Lennie, a máscara literária de mentes que paralisam, caso toquem o que amam e ao paralisarem no aperto amoroso mortalizam o objeto amado. Essa é a característica de mente somatofóbica. Nela, o prazer do toque se autossabota (desejo e pavor de tocar) no ato de sua realização violenta.

A fobia se expressa, no caso de Lennie, na incapacidade de perceber o quanto sua mão acariciadora pode tornar-se uma máquina de esmagamento. Ele estrangula a criatura a quem mais quer “agradar”. Ao tocar o objeto, sua mão adere violentamente a ele, não conseguindo modular o toque, nem afastar-se daquele.

A mão de Lennie é a arma(dilha) que aprisiona os animais, por sua desejável maciez. Ela os prende, revelando o sequestro emocional, expondo no gesto a prisão mental à qual Lennie está condenado desde que nasceu. Uma vez posta sobre o objeto macio, é ali que ela permanece, cativa e presa, tão cativa e presa ao objeto quanto este nela, mesmo depois de o animal ter parado de respirar. Ele continua o “agrado”, termo que usa para designar a carícia, sem distinguir o cadáver que acaba de produzir.

Somatofobia é desejo de paralisar o outro, o movimento do outro, a liberdade do outro, para que este se torne um objeto manipulável, submetido à vontade impregnante do ego manipulador atrofiado, encarcerado. Um corpo que se move pode simplesmente fugir do agrado. Preso e mortalizado, ele não foge nunca mais. O gesto brutal desvela a mente refém emocional.

Se há tanto medo no desejo de “agradar”, se há um medo paralisante, certamente é por haver a dolorosa consciência de que é possível não ser agradável. A consciência da alteridade que torna os objetos do nosso amor distinto de nós, livres para ir e vir, se e quando lhes aprouver. Essa mistura do pavor de não ter encantos suficientes para prender o objeto amado (não agradar) e o desejo de o paralisar para que tudo esteja para sempre assegurado mata.

Via Galactolatria, Mau Deleite

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