Paralisia emocional e violência contra os animais

Dr. phil. Sônia T. Felipe

fogoIncapaz de perceber e distinguir em seus gestos o que pode causar mal a outro, o que fere, mutila e mata; incapaz de se colocar no lugar do outro, não no sentido físico, mas emocional (empatia), de imaginar o que o outro está sentindo quando é alvo de algo que o maltrata, atormenta, derrota, mutila e mata; esse é o perfil humano somatofóbico, o de sujeitos que acabam por cometer brutalidades contra os outros animais, não importa de que espécies.

Na verdade, tal perfil pode ser entendido como o de um sequestrado emocional (Daniel Goleman, Inteligência emocional).

No grego, há uma palavra para designar a deficiência moral: kakothymía (cacotimia). Os estudos da violência têm levado em conta a incapacitação moral causada por emoções fortes e paralisantes, em função das quais a reação vem como um impulso, ordenado diretamente pela amígdala, sem que o neocórtex seja convidado a intervir, algo que se assemelha à reação dos animais que não o possuem. Estes precisam reagir velozmente às ameaças de destruição de seus corpos ou moradas. Quem dá o comando do tipo, bom, ruim, gosto, detesto, sem esperar nenhuma avaliação, é a amígdala. Quem avalia a ameaça é o neocórtex (linguagem emocional e moral elaboradas com vistas à obtenção de resultados positivos).

Não se tem uma receita mágica para a cura das emoções violentas. Sabe-se, entretanto, que ter vivido e continuar a viver exposto a elas desde o nascimento, passando anos sob seu jugo, anos em que ainda não se tem a linguagem para denominar as ações violentas dos pais e adultos, interpretar e conjecturar sobre o tamanho real delas como ameaça à própria integridade física e emocional, são fatores que levam a criança, o adolescente e o adulto, mais tarde, a reagir feito os animais destituídos do neocórtex, peixes, aves e répteis, por exemplo. Nestes animais o reconhecimento dos objetos e de outros seres vivos no ambiente precisa ser instantâneo, sob pena de eles se exporem um segundo além da conta ao que os pode destruir.

Não podendo haver racionalização ou análise demoradas de algo, resta espaço apenas aos impulsos que não dependem da vontade para se manifestar. Quando humanos se portam dessa maneira, eles estão a confirmar sua condição de “sequestrados emocionais”, um alerta a todos nós sobre a paralisia emocional e moral no desenvolvimento de seus egos.

Passado o surto, o sujeito declara: “Não me lembro de nada.” “Não queria matar”. “Estou arrependido do que fiz.” Nenhuma dessas frases recupera o dano ou traz de volta à vida o sujeito eliminado. Mas elas podem ser a porta de saída da condição inconsciente e paralisante. O sujeito violento ou somatofóbico pode começar a dar atenção a si mesmo, a aprender a conter-se nos momentos em que sente que o fogo o queimará.

É preciso aprender que a forma impulsiva de não se queimar com o próprio fogo, atirando-o sobre o outro, devora a ambos. Justamente tal impulso é o que queima o outro, deixando as marcas indeléveis em quem o sentiu e deixou vazar também. A forma mais razoável de não se queimar na presença de tanto fogo é afastando-se dele, não espalhando-o sobre outros.

Há uma proposta pedagógica que visa educar as crianças para se tornarem conscientes de sua realidade emocional subjetiva. Nessa educação, elas aprendem a reconhecer nos outros os sinais das emoções benéficas e das maléficas, tanto quanto aprendem a reconhecer em si mesmas todos eles.

Saber o que nos causa a ira, a emoção que mais leva à morte no curto, médio e longo prazo, e suas nada sutis formas de expressão, listadas por Daniel Goleman em seu livro Inteligência Emocional: “a fúria, a revolta, o ressentimento, a raiva, a exasperação, a indignação, o vexame, a acrimônia, a animosidade, o aborrecimento, a irritabilidade, a hostilidade, e seu paroxismo, o ódio e a violência patológica”, é responsabilidade de cada sujeito.

Quanto mais cedo ele a assumir, tanto mais maleabilidade ou resiliência terá em sua estrutura emocional futura.

Precisamos ensinar às crianças e aos adultos que as educam a reconhecer, em si mesmos e nas pessoas com as quais interagem, os sinais do que Paul Ekman chama de ira. Ela é uma emoção que não evoluiu naturalmente no animal humano, quer dizer, não acompanhou a sofisticação tecnológica em meio à qual o humano vive.

A natureza mental ou emocional belicosa ficou paralisada nos moldes primórdios, do tipo: se não me agrada, maltrato, mutilo ou mato. Dela padece gravemente a moralidade do animal humano, afetando, negativamente e sem distinção de espécie, animais outros que não os humanos, especialmente os eleitos para estima, e os próprios humanos.

Desconhece-se casos de brutos contra animais não humanos que não sejam violentos de alguma forma contra os humanos.

Movidos pela ira em suas diversas formas de expressão os humanos são impulsionados a atos de destruição do outro como forma de resolução de qualquer impasse na disputa de interesses. E o que está visivelmente à mão para ser atacado no momento de conflito e do confronto é o corpo do outro.

Antigamente, lembra Goleman, o ataque era feito a socos e pontapés, pois poucos dispunham de armas brancas ou de fogo. Hoje, a destruição é maior, pois o ataque é feito por via das armas de todo tipo. Até a linguagem tornou-se uma arma, pois com ela podemos ferir de morte um ser humano, destruindo seus impulsos de amor e ternura, tornando-o frio, seco e indiferente, sem vitalidade afetiva para vincular-se a qualquer outro.

Espancamento, assalto sexual, assédio emocional, ameaças, mutilação e morte são atos que expressam a fobia contra o corpo (daí o termo somatofobia), descarregada contra o corpo do animal presente a essas mentes que se iram na presença de alguém que pede proximidade, afeto e atenção, que se defendem com unhas e dentes contra qualquer demanda externa e estranha ao seu padrão afetivo.

Devidamente esgotados por sucessivos rompantes de fúria, verbal ou corporal, esses humanos têm apenas um impulso a seguir: destruir o que lhes causa tanto desconforto.

Quando estudamos a violência contra os animais precisamos entender sua natureza. Se não o fizermos, jamais proporemos políticas públicas para contê-la.

Via Galactolatria, Mau Deleite

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