Permacultura e veganismo – entrevista com Graham Burnett

Graham Burnett é vegano e um permacultor. Ele escreve livretos e ministra cursos sobre permacultura. Ele dirige a “Land & Liberty”, através da qual ele vende livretos de permacultura, camisetas e posters. Entrevista por John Curtis.

permacultura e veganismo - grahan burnett

O que é permacultura?

Permacultura é um estilo de vida. Ela nos mostra como aproveitar ao máximo nossos recursos através da minimização dos resíduos e maximização de potencial. Entretanto, viver de maneira ecológica e sustentável não significa abrir mão de tudo, significa reaprender o valor da natureza, entender novas formas de ser saudável. Métodos de permacultura podem ser aplicados agora, seja na jardinagem, nas compras, cuidando das crianças, indo trabalhar ou construindo sua própria casa. Permacultura não é se afastar de tudo isso – e sim, ter controle de nossas vidas, nossas necessidades individuais e nosso futuro comum.

Permacultura é uma idéia relativamente nova, o termo foi cunhado há aproximadamente 30 anos atrás. Pessoas na Inglaterra começaram a entendê-lo por volta de 1982.
O cuidado que as pessoas tem umas com as outras é muito grande no movimento da permacultura na Inglaterra. Talves seja porque na Australia, aonde a permacultura se originou, tem muita terra e não muita gente. Aqui é o oposto – nós temos a tendência de viver uns em cima dos outros, então o senso de comunidade é muito maior.
A permacultura empresta os 3 R’s dos ambientalistas: Reduzir, Reutilizar, Reciclar e adiciona um quarto: Re-pensar – desenhar sistemas que a principio já utilizem menos energia.

Como que a permacultura é diferente da agricultura orgânica?

A permacultura é um sistema completo. Ela inclui muitos elementos, por exemplo a arquitetura, agrofloestamento, economia verde, paisagismo, planejamento urbano, e planejamento rural inteligente. Ela integra todos esses aspectos, unindo-os de maneira holistica ao invés de separá-los.

A agricultura orgânica tende a enxergar a agricultura de maneira isolada. É uma coisa boa – um progresso da agricultura industrializada, mas é só uma parte de criar sistemas para alimentação boa e vida boa. Muitos outros aspectos pertinentes ao modo que vivemos não são ecologicamente corretos, ex: transporte, edifícios, saúde. Muitos sistemas de agricultura orgânica não são assim tão diferentes dos sistemas convencionais – eles ainda estão dominando a natureza ao invés de trabalhar lado-a-lado, que é como a permacultura funciona.

Agricultura orgânica é um setor que está em crescimento mas que visa mais o lado econômico, o que a limita muito. Os padrões da “Soil Association” são muito preto e branco, ou você é orgânico ou não é, não existe meio termo. Entretanto o período de conversão entre convencional e orgânico é de dois anos. Nós precisamos de um intermediário. Grupos de permacultura estão discutindo os padrões da permacultura – produção ecológica de comida mas que não necessariamente precisa se conformar aos padrões da “Soil Association”.

A distinção é que permacultura é um hobby, enquanto a agricultura orgânica é uma profissão?

Não. Muitas pessoas se sustentam através das práticas da permacultura. Muitas pessoas estão aplicando a permacultura às suas terras e existem pequenos negócios que seguem a ética e os princípios da permacultura.

O que são as “Zonas” dentro do design da permacultura?

A permacultura introduz o conceito de ‘zonas’, a mais próxima do lar sendo aonde se concentra a atividade humana e a maior necessidade de atenção e cuidados, e a mais longe aonde não existe a necessidade de nenhuma intervenção humana, seja qual for. A Zona 0 é dentro do lar, aonde poderia ser implementada uma cozinha de alta eficiência energética e deisgn ergonômico, e armazenagem de alimentos. A Zona 1, é a parte do seu jardim mais próxima da casa designada à composteira e a plantação de alimentos frequentemente utilizados, como folhas para salada. A Zona 2 é um pouco mais afastada e requer menos atenção, aonde você poderia plantar arbustos frutíferos e àrvores. A Zona 3 é mais afastada ainda, aonde você poderia, talvez, plantar tubérculos que necessitam de menos manutenção. A Zona 4 é semi-selvagem, aonde poderia se plantar àrvores para madeira de lenha e de construção. Já a Zona 5 é a natureza seçvagem, aonde não existe intervenção humana fora a observação de ecossistemas e ciclos naturais.

Uma pessoa pode ser um permacultor sem se envolver com plantação?

Sim. Os princípios e éticas da permacultura sobre os cuidados com a terra, com as pessoas e divisão igualitária se aplicam a qualquer aspecto de ser humano.

Você explica a teoria. Pode me dar algum exemplo prático?

Em cidades urbanizadas ou cidades do interior ou até mesmo no meio rural, pode se usar sistemas locais de troca, que permite que as pessoas compartilhem suas habilidades e produtos em um nível local utilizando uma moeda local. Além disso, pode-se dar inicio à sistemas orgânicos e hortas comunitárias que são alguns exemplos de auto-ajuda.

A permacultura também propõe transformar problems em soluções, Há um tempo atrás eu tinha uma pilha de entulho e um solo exposto em lados opostos do meu jardim. Então, decidi unir os dois e criar uma linda espiral de ervas. Outras soluções práticas são plantar feijões em sua cozinha ou reciclar resíduos.

Quando e porque você virou vegan?

Eu virei vegetariano em 1977 porque eu não gostava do gosto nem da textura da carne. Mais tarde eu me conscientizei sobre a crueldade animal e as práticas utilizadas em fazendas de laticínios e  virei vegan em 1984. Eu também me envolvi com os direitos animais, incluido a sabotagem da caça, por volta dessa época.

Como que o veganismo se encaixa na permacultura?

A permacultura abomina as fazendas industriais, o modo como o leite e os ovos são produzidos em uma escala massiva, mas muitos permacultores mantém bodes e gado. Essa é uma discussão saudável na permacultura, e os veganos não são uma minoria. A alimentação em eventos de permacultura costumam ser de orientação vegana. Muitas eventos vegetarianos/veganos de permacultura são divulgados tanto em revistas de permacultura quanto em revistas veganas. Na permacultura, os não-veganos toleram muito os veganos e vice-versa. Ambos os campos respeitam uns aos outros. Existe uma diversidade de pontos de vista.

Veganismo aparenta ser mais difundido no movimento da permacultura na inglaterra do que em outros países. Parece que é uma direção que nós tomamos aqui.

De que forma você tenta incentivar o veganismo na permacultura?

Eu dou o ponto de vista vegano nos meus livros e artigos mas tento me manter imparcial. As pessoas podem se decidir sozinhas. Quando ministro cursos eu também procuro ser imparcial. Meu próximo livro é um livro de receitas permaculturais veganas. Eu também escrevi um artigo em uma revista de permacultura, uns tempos atrás, sobre como eu tento aplicar a permacultura a todos os aspectos da minha vida, o que pra mim inclui ser vegano, já que isso reduz minha pegada ecológica. Isso foi um pouco controverso para alguns leitores mas eu também recebi muito apoio pelo o que eu estava dizendo.

A permacultura enfatiza a auto-suficiência?

Mais a auto-confiança do que a auto-suficiência. Auto-suficiência para mim passa uma imagem de um individualismo rústico, alguém levemente de direita e oportunista. Você seria obrigado a construir sua prórpia casa e plantar sua própria comida, etc, sozinho. Mas e se estivesse doente? Auto-confiança é quando você confia em si mesmo mas também tem uma rede de pessoas que podem te ajudar – esse grupo tem como objetivo ser auto-suficiente. Na Inglaterra, permacultores parecem mais interessados em criar uma rede de apoio do que só cuidarem deles mesmo. Para mim, esse é o lado do cuidado humano da permacultura.

Me conta sobre “Land & Liberty”, a organização que você dirige.

Eu vinha fazendo fanzines punk desde o final da décade de 70. Eu comecei “Land & Liberty” no começo dos anos 90 com o primeiro livreto que eu escrevi: “Bem alimentado e não um animal morto”. Eu usei “Land & Liberty” como uma forma de distribuir os livretos. As coisas morreram um pouco por um tempo, mas então eu escrevi o guia “Permacultura para iniciantes”, o que ressucitou “Land & Liberty”. O nome vem de um livro de Ricardo Magon que eu li sobre a revolução mexicana que chama “Tierra y Libertad”, que, traduzido para inglês é “Land and Liberty”. Eu estou no processo de mudar o nome para “Spiral Seed” (semente espiral) já que já existe uma organização chamada “Land and Liberty” e isso causa confusão. A figura espiral é muito presente na permacultura – o padrão espiral ocorre em galaxias, conchas, e na formação de folhas de algumas plantas. A semente enfatiza o potencial do futuro.

Quando que você começou seus cursos de permacultura?

Os cursos são ministrados por Ron Bates e eu. O primeiro foi um curso de dois dias em 1998, através do sistema de trocas locais, o que combinou muito com a essência da permacultura. Mais tarde nós ministramos um curso Vegano Orgânico em Southend.

Eu recebi um diploma em permacultura em Setembro de 2002, e um ano depois nós ministramos dois cursos de permacultura na Dial House em Essex – um em maio e um em agosto. O de agosto teve menos sucesso, e fomos aconselhados a não ministrar mais cursos em agosto já que muitas pessoas ainda estão de férias.

Eu ouvi dizer que você tem alguns lotes.

Eu tenho uma horta e três lotes. Dois lotes são para vegetais. Eu sou o secretário dos comitê dos meus lotes, o que é irônico já que por alguns anos eu levei muitas broncas do comitê por ter muitas ervas daninhas! Mas as coisas estão mudando. A imagem ultrapassada dos loteamentos veio do período de guerra e pós guerra. Agora tem uma energia jovem no ar. Meu terceiro lote é em Leigh, a três milhas de distância, com o intuito de criar uma floresta com arbustos frutíferos, macieiras, e etc.

Você cava?

Eu não cavo muito. Cavar tem alguns benefícios já que eu tenho um solo argiloso e pesado e uma infestação de ervas daninhas. Cavar é só uma de muitas opções.

Com tudo isso na sua vida: três lotes, uma horta, “Land & Liberty”, permacultura, cursos, um emprego e filhos; como você lida?

Minhas crianças e parceira são um pouco, não muito, interessados em jardinagem. Nós somos uma família vegana e vivemos da maneira mais ecologica e prática possível. Eu tento equilibrar tudo. Minha parceira cuida de crianças. Durante o dia eu trabalho em um centro para adultos com dificuldade de aprendizagem.

Algum plano para o futuro?

Eu estou escrevendo um livro de receitas de permacultura, com receitas veganas e artigos sobra a permacultura. Todos os meus livretos anteriores eu mesmo que publiquei, mas espero que esse seja publicado pela Permanent Publications, os que publicam a revista de permacultura. Eles apoam os ideais vegan – sempre compram muitas cópias do meu livreto “Bem alimentado não um animal morto”.

Fonte: Permacultura Vegana
Tradução por Sofia Amarante

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