Ver-se como uma pessoa boa pode te tornar uma pessoa terrível

O artigo abaixo, de Charles Horn, autor de Lógica da Carne: Por que comemos animais ?,  publicado em junho de 2015 faz parte de uma série em andamento chamada Justificativas Mais Comuns para Comer Animais do site Free From Harm, na qual procuram fornecer respostas e recursos para enfrentar melhor as defesas comuns de consumo de produtos animais .

“Então você está dizendo que se eu comer um pedaço de frango sou uma pessoa ruim?”

Muitos de nós provavelmente já ouviram esta questão ou uma variação dela antes em discussões sobre a moralidade de comer e explorar os animais. É fascinante como uma discussão sobre uma injustiça social pode tornar-se tão rapidamente reorientada para o sentimento de ser julgado como uma pessoa em sua totalidade. Os seres humanos parecem ter uma necessidade desesperada de manter uma visão de si mesmos como boas pessoas.

Ironicamente, a necessidade de nos vermos como pessoas boas pode nos fazer agir de maneiras terríveis.

Um artigo na Hazlitt e um artigo relacionado no The Guardian alguns meses atrás discutem a idéia de que acreditar que a vida é justa pode nos tornar pessoas terríveis. Pesquisas iniciadas nos anos 60 mostraram que, se nos sentimos impotentes para aliviar uma injustiça, temos uma tendência a nos convencer de que as vítimas merecem seu destino. Fazemos isso, aparentemente, para manter a crença de que o mundo é um lugar bom e justo. As pessoas com uma forte crença em um mundo justo, por exemplo, são mais propensas a culpar as vítimas de agressão sexual, sentir desprezo pelos menos privilegiados e se opor à ação afirmativa. Os memoriais do Holocausto podem até levar a um aumento no anti-semitismo, uma vez que as pessoas se tornam um pouco mais propensas a acreditar que a única explicação possível para tal atrocidade é que as vítimas devem tê-la provocado sobre si mesmas.

No reino não-humano, podemos ver esse efeito na forma como as pessoas muitas vezes minimizam a inteligência e as emoções dos animais que comem, como se de alguma forma isso tornasse esses animais merecedores do que fazemos a eles.

De uma forma relacionada, creio que também podemos perceber como a necessidade de nos vermos como pessoas boas pode, ironicamente, fazer-nos agir muito pior como resultado.

Comer animais é um vício muito forte para muitas pessoas, e muitos ainda não podem se ver capazes de viver uma vida sem consumir animais e suas secreções. Além disso, nossa sociedade completamente normaliza e até mesmo fortemente promove e subsidia este vício, tornando-o muito mais difícil de quebrar (ou mesmo de ver a necessidade de quebrá-lo). Mas ao invés de nos vermos como indivíduos parcialmente falhos que vivem dentro de uma sociedade parcialmente falha, precisamos nos ver como pessoas boas. Para muitos, isso, infelizmente, exige que lutem contra a libertação animal.

Ironicamente, a visão de “boa pessoa” nos torna pessoas muito piores, ao passo que se adotamos a visão de “pessoa falha em uma sociedade falha”, ela conduziria a uma mudança positiva na sociedade no longo prazo. Por exemplo, pessoas falhas diriam a si mesmas que elas podem estar viciadas, mas não tem que significar que elas devem repassar esses vícios para seus filhos. A pessoa também estaria aberta, e até ansiosa, para tentar cada novo alimento vegan lá fora, na esperança de que isso diminuiria seu vício. A pessoa iria apoiar prontamente as mudanças na sociedade para parar de normalizar e promover o seu vício. A pessoa também nunca sentiria a necessidade de defender a escravidão animal, a exploração, a opressão e a matança, ou chegar a infinitas justificações ilógicas para ela. Ainda que moralmente injustificado como o vício é, a sociedade iria eventualmente chegar à libertação animal sob este ponto de vista.

Mas, em vez disso, nossa necessidade desesperada de nos ver como “pessoas boas” nos torna muito piores em conseqüência. Exigindo escravidão animal, exploração, opressão e abate sem fim e argumentando irracionalmente que isso se justifica. Ensinando isto aos nossos filhos. Torcendo nossos narizes para todos os alimentos vegans incríveis que existem hoje em dia. Escondendo de nós mesmos os efeitos devastadores da agricultura animal em outros animais humanos. Nós somos espertos o suficiente para ir para a lua, mas aparentemente pensamos que nunca seremos inteligentes o suficiente para sobreviver sem a escravidão animal,  exploração, opressão e matança, então pra que nos incomodar trabalhando nesta direção ou fazendo qualquer esforço.

Então, e a nossa pergunta inicial? Comer um pedaço de frango faz de você uma pessoa má? É uma pergunta desonesta na medida em que tenta enterrar uma única ação dentro da totalidade de uma pessoa. Não importa quão boa seja a pessoa, a brutal injustiça cometida contra a galinha continua sendo um erro moral, e a escravidão animal continua sendo um erro monumental da sociedade que a justiça exige seja abolida. Mas, além disso, a necessidade de se ver como uma pessoa boa enquanto come pedaços de galinhas é mais provável que faça você agir de maneiras muito piores do que faria no caso contrário.