Em entrevista, Peter Singer fala sobre direitos animais, mudança climática e ética aplicada

entrevista com peter singer Peter Albert David Singer é um dos personagens mais conhecidos e ao mesmo tempo polêmicos dentro do movimento de defesa dos animais. Filho de judeus sobreviventes do Holocausto, Singer está hoje entre os dez intelectuais mais influentes da Austrália, de acordo com votação realizada neste país. Formou-se em filosofia e história na Universidade de Melbourne (Austrália) e filosofia moral na Universidade de Oxford (Reino Unido). Atualmente é Professor de Bioética na cadeira Ira W. DeCamp na Universidade de Princeton (EUA), e professor laureado no Centro de Filosofia Aplicada e Ética Pública (CAPPE) da Universidade de Melbourne. É especializado em ética aplicada e procura resolver questões morais através da escola de pensamento utilitarista.

O livro de Peter Singer intitulado Libertação Animal, editado pela primeira vez em língua inglesa no ano de 1975, revisado e traduzido para o português em 2004, se encontra no centro das discussões das questões de ética prática e bioética.

Singer é defensor da expansão do princípio da igualdade na consideração da dor e do sofrimento para atender aos interesses e preferências tanto de humanos quanto de animais. Como uma crítica à tradição filosófica que supervaloriza o status moral do ser humano, a teoria ética de Singer busca expandir a esfera de consideração moral humana para que seja possível incluir os animais na comunidade moral, usando como critério o princípio da igual consideração de interesses semelhantes.

Por telefone, de Melbourne, na Austrália, Singer concedeu a seguinte entrevista ao site Zero Hora:

Zero Hora – O senhor poderia antecipar os temas de sua conferência?

Peter Singer – Vou falar sobre o que, penso, são as principais questões éticas do presente século, como justiça global, que tem relação com o problema da pobreza global, e as mudanças climáticas. Vou também levantar questões sobre as relações entre animais humanos e não humanos, e o tanto de sofrimento que é imposto a eles pela nossa atuação no mundo não humano.

ZH – O senhor escreve sobre valores éticos. Como pensa que devemos entender a ética: uma noção atemporal ou um conceito em constante mutação, sujeito à história e à geografia?

Singer – Penso que as ideias mais básicas são atemporais, ideias que podemos descobrir com o uso da razão. Mas a forma como as entendemos e os limites do pensamento racional em ética dependem do estágio particular de desenvolvimento de uma dada sociedade e de visões e influências, religiosas ou culturais, por exemplo, que mudam de tempos em tempos.

ZH – As nações em desenvolvimento vêm tentando tirar pessoas da linha de pobreza investindo na expansão de parques industriais. Como elas podem lidar com essa necessidade de crescimento e ao mesmo tempo responder às demandas pelo desenvolvimento sustentável?

Singer – É óbvio que as nações em desenvolvimento querem diminuir a pobreza. Mas devem fazer isso tendo em vista o quadro maior. Não há sentido em reduzir a pobreza nesta geração e deixar as próximas voltarem à pobreza ou até a uma situação pior devido às mudanças climáticas. É essencial que o desenvolvimento percorra um caminho sustentável. Não sei dizer exatamente como isso deve ser feito, mas obviamente com o uso de energias renováveis que não produzam tantas emissões de gases causadores do efeito estufa. Penso que é importante fazer algo no sentido de não aumentar ou até reduzir o consumo de carne, especialmente a de gado, um dos principais fatores das emissões de gases no Brasil, devido à grande população bovina. Acho que é preciso fazer mudanças nos atuais métodos de desenvolvimento em uma direção mais sustentável.

ZH – O senhor está chegando a um Estado em que o uso de extensas áreas para a pecuária não é apenas uma realidade histórica, mas é parte da identidade cultural, bem como o consumo em larga escala de carne bovina. O que o senhor teria a dizer a este público?

Singer –É claro que entendo essa questão, uma vez que estou falando da Austrália, onde também passei boa parte da minha vida, um país que construiu muito da sua economia com base na criação de rebanhos bovino e ovino, ambos ruins do ponto de vista da emissão de gases causadores do efeito estufa. Acho que é necessário que essas culturas mudem, e infelizmente isso é difícil, não acontecerá do dia para a noite. Mas é essencial que as pessoas percebam que o tamanho dos rebanhos é um dos fatores que mais contribuem para as mudanças climáticas, e Brasil e Austrália são muito dependentes do clima para a sobrevivência de sua população. Penso que o mundo está se tornando ciente dos danos provocados pelas alterações climáticas. Está para sair o relatório internacional do Intergovernmental Panel on Climate Change (Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas), ainda não foi publicado, deve sair em setembro, mas pude ler o relatório preliminar, que sugere que estamos nos encaminhando para um aumento de 5ºC na temperatura do planeta, o que excede o que os cientistas haviam previsto em anos anteriores. Temos que perceber que essa é uma questão muito urgente, e mesmo que ela signifique uma mudança cultural dramática, ainda há algo que possamos fazer.

ZH – A conscientização global a respeito dos direitos dos animais é maior hoje do que quando da publicação de seu livro Libertação Animal?

Singer – Sim, aumentou dramaticamente. Quando o livro foi lançado, em 1975, não havia conscientização sobre a agricultura em escala industrial. Mesmo na Inglaterra as pessoas ficaram chocadas em saber das galinhas confinadas em gaiolas minúsculas, dos porcos mantidos enjaulados durante a vida toda. Acho que esses fatos são mais conhecidos agora, e não apenas na Europa e nos Estados Unidos, mas no mundo. Por onde eu viajo, encontro organizações debatendo a questão e tentando promover mudanças. Infelizmente, ao mesmo tempo em que a consciência a respeito cresceu, aumentou também a demanda por carne, ovos e outros produtos de origem animal, por causa do crescimento da população em países como a China, Índia e também Brasil. Há, provavelmente, mais animais sofrendo na agricultura industrial do que em 1975, mas ao menos se pode dizer que a consciência a respeito da questão mudou. Espero que isto seja um primeiro passo para mudanças práticas.

ZH – Há pessoas que, mesmo preocupadas com a questão animal, não fazem nada para mudar seus próprios hábitos de consumo e alimentação. Por quê?

Singer – Bem, as pessoas não querem mudar seus hábitos, e se veem que outros mantêm as mesmas atitudes, elas se sentem justificadas em continuar fazendo o que lhes é habitual. É uma daquelas situações em que, se você conseguisse que uma massa crítica de pessoas mudasse, seria fácil fazer com que, senão todos, a maioria os seguisse. Mas é difícil dar esse primeiro passo. Só uma pequena minoria está preparada para agir em acordo com princípios éticos com os animais. E na presente situação, o que vejo é que a maioria das pessoas não está fazendo isso.

ZH – Isso tem alguma relação com o princípio de “altruísmo eficiente” sobre o qual o senhor já escreveu?

Singer – Acho que há sim uma conexão. Há um grupo de pessoas que quer viver suas vidas de modo a tornar o mundo um lugar melhor para o maior número de beneficiados. São, tipicamente, preocupadas em agir de modo ético, em usar parte do que possuem em favor dos que têm menos, mas ao mesmo tempo há um grande número de pessoas que ainda não pensa dessa forma e vive de forma mais egoísta ou autocomplacente. Não acho que o movimento do altruísmo eficiente seja grande o bastante para ter o tipo de impacto necessário.

ZH – O que o senhor propõe para mudar a situação na indústria de alimentos? Acha que o vegetarianismo em larga escala seria possível hoje?

Singer – Penso que, definitivamente, seria possível hoje. Há muitas pessoas vivendo uma vida saudável como vegetarianos, e as evidências mostram que essa é uma opção mais favorável ao meio ambiente, mais sustentável, e, obviamente, não envolve o sofrimento de animais. Logo, é claro que é possível. A pergunta é se as pessoas têm vontade de fazer com que seja possível. Estamos desenvolvendo mais e mais alternativas ao consumo de produtos de origem animal. Acho que, no fim, as pessoas acharão mais fácil evitar esses produtos porque terão ao seu alcance um número maior de alternativas daquilo que gostam de comer.

ZH – Na questão das mudanças climáticas, há muita discussão sobre a validade dos números divulgados pela comunidade científica. Há pesquisadores que contestam os dados mais pessimistas. Para o senhor, o quão grave é a questão?

Singer – Acho que os cientistas estão bastante de acordo com relação à gravidade das mudanças climáticas. São poucos os que discordam do consenso esmagador de que as mudanças climáticas são reais. Não sei como são as coisas no Brasil, mas tenho a sensação de que cada vez mais pessoas estão entendendo a questão, podem ver as mudanças climáticas que ocorreram ao longo de suas vidas. As previsões científicas de décadas atrás a respeito do aquecimento da Terra devido às emissões de gases causadores do efeito estufa se mostraram corretas. Acho que as evidências são avassaladoras de que as mudanças climáticas estão de fato acontecendo. Acho que é muito perigoso justificá-las como erros científicos. Não podemos jogar roleta com o futuro do planeta.

ZH – Um dos aspectos mais controversos do seu pensamento é a sua opinião sobre o aborto. Sua perspectiva é utilitarista, uma vez que o senhor já afirmou que a mulher é um ser vivo e um feto é um ser potencial?

Singer – Esse não é um tópico que eu pretenda discutir em minha conferência em Porto Alegre, mas fico feliz em debatê-lo. É um assunto sobre o qual já escrevi ao longo dos anos. Penso que a grande diferença, nesse caso, é que a mulher tem uma consciência e pode sofrer com aquilo que acontece com ela e com sua vida, ao passo que o feto, ao menos durante o período em que a maioria dos abortos é feita, não é um ser consciente, e portanto não tem interesse em continuar vivendo, ao menos da forma como outros seres conscientes são capazes de pensar e ter desejos sobre seu próprio futuro.

ZH –Seus críticos afirmam que é uma incoerência ser, ao mesmo tempo, favorável à vida animal e ao aborto. Como o senhor responde a isso?

Singer – Minha visão a respeito dos animais não se baseia em se é certo ou errado matá-los, mas no sofrimento que infligimos a eles durante seu tempo de vida para que possamos ter alimentos e produtos. Quando falo de aborto, no período em que a maioria deles costuma ser realizado, abaixo de 24 semanas de gestação, o feto não é capaz de sofrer. Portanto, é perfeitamente coerente afirmar que se pode interromper a vida de um ser não consciente ou incapaz de sofrer e não infligir dor a seres que têm essa capacidade.

FRONTEIRAS DO PENSAMENTO 2013

> O filósofo falará na próxima segunda (26), às 19h30min, no Salão de Atos da UFRGS (Avenida Paulo Gama, 110, Porto Alegre). Informações no canal www.fronteiras.com ou pelo fone (51) 3019-2326.

Fontes: Zero HoraDireitos Animais Unicamp

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