A Política do Otimismo

Análise

Este artigo é uma leitura essencial para qualquer pessoa que ouve que seu otimismo e ação baseada em princípios são ingênuos, ou tem base em uma visão irrealista de como as coisas realmente funcionam.

O Escritor Alex Steffen pede a seus leitores que considerem uma possibilidade preocupante – pode ser que interesses arraigados promovam ativamente uma visão desesperada das possibilidades humanas como meio de manter o status quo. Ao fazer as pessoas acreditarem que o nível de mudanças necessárias para realmente resolver os problemas globais são impossíveis de alcançar, eles convencem um grande número delas de que  “expressões de preocupação, meias medidas e pequenos passos extremamente modestos, quase simbólicos, são o curso de ação apropriado. ”

Enquanto o Sr. Steffen escreve a partir da perspectiva de um ambientalista holístico e futurista, seus comentários parecem representar um poderoso desafio para os defensores dos animais que, tendo sido convencidos de que o status dos animais não vai mudar significativamente num futuro próximo, encontram-se encorajando outras pessoas a consumir novos e melhorados produtos “humanitários” de origem animal, produtos que eles mesmos, por razões éticas, provavelmente não consomem .

Sr. Steffen afirma que “o otimismo é um ato político”, e decididamente não o resultado de uma visão de mundo irreal ou um plano impraticável de ação. É hora de rejeitar a política da impossibilidade e desencadear todo o poder de ação baseado em princípios?


 

Por Alex Steffen, em março de 2008 – Clique aqui para link direto da fonte (em inglês)

 

“O cinismo é frequentemente visto como uma atitude rebelde na cultura popular ocidental, mas o cinismo das pessoas comuns é exatamente a atitude com maior probabilidade de estar em conformidade com os desejos dos poderosos – cinismo é obediência.”

 

O Escritor Alex Steffen.

Trechos:

Escrevi antes sobre a minha crença de que, em tempos como estes, o otimismo é um poderoso ato político. Como eu disse no livro Worldchanging,

O otimismo é um ato político.

Interesses arraigados usam desespero, confusão e apatia para evitar a mudança. Eles encorajam os modos de pensar que nos levam a acreditar que os problemas são insolúveis, que nada do que fazemos importa, que a questão é muito complexa para apresentar sequer uma oportunidade de mudança. É uma arte política de longa data para semear as sementes da desconfiança entre aqueles que você deve governar: ​​como dizia Maquiavel, tiranos não se importam se são odiados, enquanto aqueles sob eles não amarem uns ao outros. O cinismo é frequentemente visto como uma atitude rebelde na cultura popular ocidental, mas o cinismo das pessoas comuns é exatamente a atitude com maior probabilidade de estar em conformidade com os desejos dos poderosos – cinismo é obediência.

Otimismo, pelo contrário, especialmente o otimismo que não é nem tolo, nem silencioso, pode ser revolucionário. Onde ninguém acredita em um futuro melhor, o desespero é uma escolha lógica, e as pessoas em desespero quase nunca mudam nada. Onde ninguém acredita que uma melhor solução é possível, aqueles que se beneficiam da continuação de um problema estão seguros. Onde ninguém acredita na possibilidade de ação, a apatia torna-se um obstáculo insuperável para a reforma. Mas introduza razões inteligentes para considerar que a ação é possível, que as melhores soluções estão disponíveis, e que um futuro melhor pode ser construído, e você libera o poder do povo para agir de acordo com seus mais altos princípios. Crença compartilhada em um futuro melhor é a cola mais forte que existe: ela cria a oportunidade para que nós amemos uns aos outros, e o amor é uma força explosiva na política.

Grandes movimentos de mudança social sempre começam com declarações de grande otimismo.

Mas eu tenho me levado cada vez mais a pensar que a dinâmica particular que vemos na mídia de hoje e nos debates políticos, tanto na América do Norte quanto na Europa, nascem também da política. O fato de sua natureza política passar em grande medida despercebida, mesmo por alguns dos mais ferozes partidários da política, pode ser apenas uma questão de suposições não examinadas.

Aqui está como eu vejo que a política está:

1) Uma declaração explícita de que não somos capazes de realmente resolver os problemas mais urgentes do planeta, e que considerar fazê-lo é “irrealista”.

2) Uma suposição na maior parte inferida de que é irrealista a razão abraçar soluções ousadas, porque essas soluções envolvem custos insuportáveis.

3) Uma crença raramente expressada de que “realismo” deve melhor ser definido como “os interesses daqueles que estão bem hoje”, e que “custos insuportáveis” deveriam ser melhor definidos como “qualquer mudança significativa, em qualquer circunstância.”

4) A postura amplamente praticada de que, portanto, expressões de preocupação, meias medidas e pequenos passos extremamente modestos, quase simbólicos, são o curso de ação apropriado.

Embora muitas vezes combinada com a política do medo, essa postura política pode ser melhor pensada como “a política da impossibilidade.” (É como se o Bisonho estivesse conduzindo o debate público.)

Considere-se, em vez disso, a política do otimismo:

1) Que realismo deveria ser melhor definido como “dentro de nossa capacidade” e “necessário”.

2) Que nós temos a capacidade de criar e implantar soluções para os maiores problemas do mundo, e que a magnitude das conseqüências do fracasso (para nós e para as gerações vindouras) demanda que nós hajamos imediatamente.

3) Que é possível agir de maneira que as perspectivas da maioria das pessoas no planeta sejam melhoradas. Enquanto alguns custos ficarão incorridos, os retornos desses investimentos serão muito atraentes, não só em estabilidade ecológica, segurança internacional e bem-estar humano, mas em termos da velha prosperidade econômica. Essas soluções irão tornar o futuro melhor que o presente para quase todos e trazer progressos significativos para grande parte dos nossos filhos e netos.

4) Por conseguinte, definir nossos cenários vitoriosos, imaginando o tipo de futuro que queremos criar, descrevendo as soluções que construirão este possível futuro, e publicamente comprometendo-nos para o sucesso, são o curso de ação apropriado.

Nada sobre a política do otimismo precisa ser ingênuo. Podemos compreender que as pessoas são falíveis, em sua maioria auto-motivadas e às vezes até mesmo estão erradas sobre o que é melhor para seus interesses. Podemos salientar a importância da tomada de decisão informada, que demanda rigor e observa incerteza. Podemos reconhecer os massivos diferenciais em poder e riqueza em nossa sociedade e permanecer lúcidos sobre a dificuldade de se opor àqueles cujo poder e riqueza estão ligados à destruição planetária. Podemos antecipar contratempos e falhas, decepções e traições. Podemos esperar corrupção e exigir transparência. Podemos admitir livremente a profunda dificuldade do trabalho ainda a ser feito, até mesmo a possibilidade do total fracasso.

Podemos reconhecer livremente a tremenda luta à frente de nós, e ainda optar por permanecer decididamente otimistas, e trabalhar a partir de uma crença fundamental nas possibilidades do futuro. Quando fazemos isso, nós nos libertamos de parte da carga de desespero e impotência com a qual temos sido confrontados desde o início do século 21.

Mas quando fazemos isto publicamente – quando nos levantamos e nos recusamos a aceitar a idéia de que o fracasso é predestinado e que a ação é irrealista – nós acertamos em cheio o centro do conflito político que realmente enfrentamos: o conflito entre nosso partido no futuro e o partido no passado deles.

Estou cada vez mais convencido de que incrementalismo na ausência de visão comprometida quase sempre serve à política da impossibilidade.

É por isso que a nossa melhor esperança reside em um otimismo combatente, um otimismo que está disposto a enfrentar o lobby da impossibilidade e seus mensageiros e deixa muito claro que uma resposta fraca e hesitante não é a resposta racional ou responsável, mas uma resposta corrupta e falida moralmente.

Em última análise, porém, precisamos de algo mais do que melhores respostas. Precisamos de milhões de pessoas que estão dispostas a educar, confrontar o desmotivado e enfrentar os canalhas. Precisamos tomar a nossa política pública e assumir toda a cultura do derrotismo cínico. Em pouco tempo, penso, precisamos de um levante do otimismo.

 

Fonte: Humane Myth – com livre tradução do Veggi & Tal

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