Roberto Juliano, autor do Livro O Dilema do Vegano – entrevista e vídeo

Roberto Juliano, autor do Livro O Dilema do Vegano [entrevista e vídeo]Roberto Juliano é um professor muito querido pelos alunos do Cursinho da Poli (São Paulo), onde dá aulas de Literatura e Gramática; vegano assumido, não tem papas na língua na hora de defender a causa, principalmente em defesa à vida dos animais, seja pessoalmente ou pelo Facebook.

É licenciado em Letras, Português e Latim; pós-graduado em Linguística e Literatura Brasileira, e doutorado em História Social. Publicou três livros: Honra e paixão – a verdadeira história de um primo chamado Basílio (Editora Alpharrabio); Nossa antologia (Editora Alpharrabio); e o último O dilema do vegano (Editora Tapioca) lançado no final do ano passado, sobre o qual nos fala na entrevista.

Qual idade tinha quando iniciou sua carreira de escritor?

A idade não me lembro. Mas acho que foi bem avançada, após os 40 anos. Já estava com minha formação conclusa, foi quando encontrei tempo para começar a escrever.

Mas você já tinha vontade de escrever?

Não; a única vontade que tive para escrever foi poética. Tenho muitos poemas escritos, estão no meu computador em uma pasta chamada “Tabu”, mas nunca foram publicados. Ano passado era para ter publicado. Escrever é comunicar, certo? É inscrever-se, praticamente. E ter-me inscrito nestes textos e deixá-los guardados me parece algo estúpido. Na última hora (da publicação), não deu certo. Talvez esse ano ou no próximo irei publicá-los.

Falando agora sobre o “Dilema”, quanto tempo levou para escrevê-lo?

Foi um livro maturado nos últimos 10 anos; ele foi ganhando uma maturação que quando fui colocar no papel escrevi, praticamente, um capítulo por dia, e no máximo em dois ou três dias. Foi rápido! Em questão de seis meses o escrevi.

Ele estava pronto na minha cabeça, já sabia o que queria contar. Precisava “lavar” algumas coisas; pensei que fosse “lavar”, mas não “lavou”, no caso meu passado onívoro (aquele que come de tudo) e carnivorista (para vegetarianos e veganos, significa aquele que gosta de se alimentar de carne). Colocar no papel e contar que já fiz isso alivia um pouco o peso da minha total insensibilidade.

Tem alguns capítulos que são dolorosos até para quem lê; inclusive recebi um apelo para reduzir um pouco a carga, e o reduzi, porque quem me alertou foi a Nina Rosa (fundadora do Instituto Nina Rosa, que atua em defesa animal, consumo sem crueldade e vegetarianismo), que me disse para suavizar a leitura: “Depois disso não dá para ler mais nada, Roberto”.

Isso ocorreu antes de tê-lo terminado?

Sim, foi antes. Quando entreguei a ela para que escrevesse o prefácio foi quando ela me alertou. Resolvi amenizar, porque eram momentos bem crus, de lavada (na alma) mesmo. Fui escrevendo e de repente senti vontade de contar o momento em que eu não salvei um cão porque eu estava indo trabalhar, e ficou carregado do que eu senti na hora, acabou ficando forte nas palavras que escolhi. O que a Nina tentou me transmitir é que, de subconsciente para subconsciente, aquilo vinha de uma forma muito negativa.

Então, mudei esse capítulo para que as pessoas gostassem de ler (o livro), e que o lessem até o fim. Não poderia ser nem muito acadêmico, nem muito fluído, venal, guerrilheiro, nem muito nada. Tinha de ser manso.

Foi por isso que decidiu escrever da maneira como você fala?

Sim, foi por isso. E essa foi a minha preocupação: me soltar. Dá para ver que cometi algumas barbaridades propositais, gramaticalmente me posicionei com soltura para fugir ao professor de gramática, fiz algumas citações literárias diretas e outras indiretas, brinquei bastante com a intertextualidade sabendo que muitos dos leitores seriam meus alunos e me entenderiam, e ao mesmo tempo procurei dar um tom natural (de fala).

Quem não me conhece diz que a leitura flui, e quem me conhece diz que me escuta (risos). Então, foi atingido o objetivo. Meus livros anteriores foram de tom mais crítico, acadêmicos e voltados à teoria da literatura, mais exatos, até linguísticos e científicos. Não poderia me dar aos luxos românticos e nem literários.  Mas dessa vez pensei: “Péra um pouco, se tô falando de mim, vou me posicionar como eu sou”. Não vi nenhum problema em colocar baixo calão (palavrões), por exemplo.

Qual o motivo da escolha do nome?

Foi por conta de um livro que caiu na minha mão, e achei muito interessante, que foi “O dilema do onívoro” (de Michael Pollan), pelo fato do onívoro ter mesmo um dilema, o de escolher (para comer) o que não vai matá-lo porque ele come tudo. E o dilema do vegano (aquele que não come e não utiliza nada que contenha substâncias ou matérias de origem animal) é não consumir nada que contenha “bicho”. Por exemplo, ontem só tomei café, estou numa dieta de cortar carboidratos para emagrecer; o único tipo que estou consumindo são frutas. Mas ontem só tomei o café antes de sair de casa e não comi. Na hora do almoço fui a um restaurante vegano e não tinha mais comida; fui até o centro da cidade para ir à podóloga. No caminho, passei por diversos locais que daria para comer, mas todos só tinham carboidratos. Minha saída foi entrar numa loja de produtos naturais e comprar um saquinho de castanhas do Pará, mas sabendo que não poderia comer muito por causa da dieta.

Esse é o meu dilema; enquanto o onívoro precisa escolher para não morrer, o vegano precisa descobrir o que comer. Tem que ir pesquisando, pois não dá pra achar em qualquer lugar. Antes de começar essa dieta, encontrava opções com mais facilidade por existir em São Paulo, em média, 300 restaurantes vegetarianos e veganos, embora não tenha nenhum nos shoppings.

Sobre o capítulo “Bullying”, que está apenas pontilhado, qual o motivo?

O bullying esteve escrito inteiro, mas era quase uma metralhadora. Eu retirei antes de qualquer pessoa ver porque às vezes uma provocação pode ser até perversa; ao retirar, identifiquei uma chance de imitar Machado de Assis quando ele não escreve o capítulo por ser mais conveniente (Memórias Póstumas de Brás Cubas, capítulo 55 – O velho diálogo de Adão e Eva), então mantive assim. O editor até disse: “você não podia fazer mais feijão com arroz não?”, e respondi que queria assim, o livro é meu e escrevo do jeito que quiser (risos).

Mas resolvi retirar porque estava muito ao meu estilo quando estou no auge da agressividade e achei que para o que o livro pretendia era demais. Catarse é catarse, mas vamos com calma. Mas deixei para mostrar que têm mais, senão também não se mexe com o aspecto literário, criando a expectativa para o próximo capítulo e imitando descaradamente o Machado (de Assis), e até me divertindo com isso.

Em relação aos outros livros que publicou, foram quantos?

Foram dois; o primeiro foi “Nossa antologia”, que traz uma seleção de textos que geralmente caem em provas (vestibulares e concursos) escolhidos por mim; coloquei aqueles que considero como melhores. E o outro é sobre o primo Basílio (Honra e paixão), ambos pela Editora Alpharrabios.

E já tem outros projetos em mente?

Como próximos livros tenho uma gramática da língua portuguesa, que é bem normativo; o “Tabu”, que acabou pegando o nome do arquivo (nome da pasta no computador); terá poemas, crônicas e contos, e é mais “solto” também. Só preciso me dispor a publicar, conversar antes com o editor. Também sou autor de textos críticos e acadêmicos, minha pós em literatura brasileira me conduziu a escrever textos sobre arte. É outra coletânea pronta que aguarda para ser publicada.

Como aderiu ao veganismo?

Primeiro me tornei ovolactovegetariano (não consome carne, mas utiliza derivados – ovos, leite, mel, seda etc.), e só depois me tornei vegano.

Existia em mim difusa a ideia de que ser vegetariano é bom. Quando minha primeira filha nasceu, tentei não dar carne para ela comer, ideia que a minha mulher driblou. Assim que ela se viu com um pedaço de galinha na mão se pôs a comer e eu desisti.

Agora, quando ela se tornou vegetariana na idade adulta (com 22 anos), aí despertei para o fato de que tentei impedir que ela comesse, mas eu também comia.

Me dei conta de que aquilo que estava no meu prato era um bicho, um pedaço de defunto. Comecei a olhar com estranheza. Antes sempre achei que a carne fosse a melhor coisa do meu prato; comecei a experimentar deixar de lado e não comê-la, colocava no prato, mas não comia. Depois passei a não colocar no prato. Fiz isso e não falei nada pra ninguém, e parei (com a carne) durante quatro meses.

Tive uma recaída; fui a uma churrascaria e mandei “baixar” o que tinha de carne. Passei muito mal naquele dia, mas nunca imaginei que pudesse ter uma relação. Depois passei mais quatro meses sem nenhum tipo de carne, e tive outra recaída. Só então, pude relacionar (o não comer carne com o fato de passar mal quando comeu). Fiquei mal, com muita dor de barriga, dor de estômago. Então, percebi que a carne fazia mal.

Nessa época, um aluno me convidou para assistir ao filme “A carne é fraca”, da Nina Rosa (a mesma do instituto), na casa dele. Estava contando para todo o mundo na sala de aula que estava acontecendo um negócio estranho comigo, que eu olhava para a carne e não conseguia comer, que via um bicho ali; como sempre, sou boca-solta.

Isso ocorreu há quanto tempo?

Por volta de oito, ou nove anos. Quando vi a cena de um boi recuando diante da morte, de ré, resolvi ir embora dali na hora. Arranjei uma desculpa, pedi uma cópia, e fui embora. Fiquei uns três meses com aquilo trancado dentro da gaveta. Enquanto tudo isso acontecia, houve a cena que me fez entender tudo. Pisei na pata do Frederico (poodle do Roberto), e a reação dele de me lamber foi tão dolorosa! porque eu o machuquei e ele veio me agradar; então o peguei no colo, senti aquele coraçãozinho batendo, o hálito quente e percebi que existem mais semelhanças do que diferenças entre os animais. Nós não somos nem mais, nem menos do que os cães, somos apenas diferentes. Aí foi o fim, soube que nunca mais na minha vida colocaria carne na minha boca.

E como as pessoas do seu convívio reagiram?

Com susto, incredulidade, descrença, certa agressividade: “é santinho agora? Vai virar vegetariano? Esqueceu que você fazia churrasco?”; meu filho me acusou de acabar com os natais da família por tirar a carne da mesa (risos). Em casa, carne não entra; embora não sejam vegetarianos, eles respeitam e têm a mesma alimentação que eu, e somos todos saudáveis. No início ainda tinha carne, mas eu fazia cara feia e de nojo; minha filha reclamava que eu não devia fazer isso com eles, já que ninguém fazia aquilo comigo (risos), mas eu continuei. Eles não deixam de comer carne em outros locais, mas não reclamam em casa porque sabem que estou certo (em relação à saúde).

Em relação ao uso de mantimentos domésticos, como você faz?

Remédio, por exemplo, aqueles que vem em cápsula, é gelatina de origem animal, então eu a abro e tomo só o pozinho que vem dentro; até tem um gosto horrível, mas dane-se, guerra é guerra, vale tudo (risos). Sabonete e detergente eu mesmo faço os meus, porque no mercado a maior parte tem substâncias animais. Tenho que ser coerente, né. Entra na história do dilema do vegano, com o mistério das siglas dos componentes, a gente tem que ir atrás para descobrir. O leite Mais Vita (leite de soja), por exemplo, uma vegana me ligou avisando que o cálcio desse leite tem vitamina D que provém da lã do carneiro. Quando isso ocorre, eu espalho no Facebook. Há produtos animais em toda parte, tudo contém exploração. O ser humano é uma praga no planeta disposta a consumir tudo. Ser vegano hoje é estar fundamentalmente ligado ao “não consumir” (produto animal), a fugir dessa prática destrutiva, esse é o segredo, a preservação planetária.

No livro você conta que tinha uma horta no interior, você tem aqui também?

Onde eu moro não dá para ter isso porque é local de preservação ambiental, é um pedaço da Floresta Amazônica, tem diversos animais silvestres. Meu quintal é muito grande, tem muitas árvores, mas não pega muito sol no solo, tem muita sombra, e isso não seria bom para plantar verduras. Mas procuro consumir verduras orgânicas; depois que a gente se torna vegetariano fica muito exigente (risos).

No Facebook é constante sua indignação e apelo em favor do veganismo. Você considera o que faz um tipo de ativismo ou apenas se vê como um movimentador da causa?

Acho que um movimentador; que tempo poderia dedicar à causa senão de dentro do meu posto seguro por trás do computador?! É claro que existem ocasiões de ativismo puro, como quando resgato animais e perco aulas fazendo isso, depois faço apelo aos alunos para que adotem.

Sempre amei os animais, mas eu os comia. Depois de me tornar vegano a coisa se tornou mais “intestina”, pessoal mesmo. Cada vez mais forte e dolorosa, muitas vezes insuportável ver cães abandonados e gatos com rabos cortados.

Fonte: Vá ler um livro

Clique aqui para ler um trecho do Dilema do Vegano, disponibilizado pelo autor em sua página no Facebook.

 

Assista abaixo a dois blocos do programa Provocações, da TV Cultura, com Roberto Juliano:

 

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