Creio que temos um problema

por Roberto Gonçalves Juliano

Creio que temos um problema por Roberto Gonçalves JulianoÉ sério.
Os vegetarianos, lato ou stricto sensu, adotam suas escolhas a partir de uma das duas vertentes principais: pela saúde pessoal ou pela compaixão. Não há uma exclusividade necessária.
Os que chegam ao vegetarianismo pela saúde correm sérios riscos de não conseguirem se opor ao convite simpático, mas tortuoso, da velha tia-avó, sorridente, que lhes ofereça um pedaço de bicho morto que “fiz especialmente para você, com muito amor” pois “um pedacinho só não vai lhe fazer mal”.
Sabemos que o leite dos outros animais é um veneno para os animais humanos e que a maior incidência de osteoporose dá-se nos países de maior consumo per capita dessa secreção. Isso não impede a indústria de produzir mais e mais leite e seus derivados, uma vez que há ali uma fábrica importante de lucros para o capital. Entretanto, o conhecimento desses efeitos impede que mais e mais pessoas consumam leite. Pela saúde.
Sabemos dos malefícios da carne vermelha, mas isso não impede que importantes revistas ditas noticiosas estampem capas e manchetes com a última descoberta científica sobre “a carne, alimento saudável”, regiamente pagas, a notícia e essa ciência porta-voz . Porém, esses malefícios impedem que multidões consumam carne vermelha, Pela saúde.
Sabemos que a carne de frango carrega hormônios de crescimento e cargas insuportáveis de antibióticos, comprometendo o organismo dos consumidores, mas isso não impede que uma “marca” desse produto anuncie ser a única livre de hormônios, nem que importantes figuras midiáticas comprometam o respeito que seus admiradores (ex) lhes devotavam porque, afinal, alguns milhões de reais permitem esse tipo de deslize (a memória do povo, se já é curta para os políticos o será também para os venais, com toda a certeza). E se “esse cara sou eu”, amanhã não serei mais, conserto minhas finanças e ficará em breve o dito pelo não dito, cada qual que se salve, se puder. Todavia, esse saber faz com que a cada dia a população se afaste progressivamente da “carne branca”, a tal, e do peixe litorâneo (vale o de águas profundas), e dos porcos, e…
É nesse ponto que a tia-avó entra em ação: um pedacinho só não fará mal, diz, carinho na voz.
E assim também, pela saúde, xô frituras, xô enlatados, xô conservantes, umectantes, corantes, xô soja transgênica, xô soja não transgênica, xô proteína de soja texturizada, com trans ou sem trans, xô alimentos processados, xô glúten (pois repentinamente viramos todos celíacos), xô verduras e legumes não orgânicos, xô, xô e xô. Pela saúde!
Sim, a saúde é de importância fundamental. Precisamos dela, temos o dever de cuidar dela, mantê-la: nossas vidas dependem disso. O problema é só a tia-avó, mas mesmo isso pode ser de menos valia, como o são os ovos, as roupas e os sapatos de pele e couro animal, revestimentos de couro, mel, seda, vinhos filtrados em clara de ovo, sabonetes, sabões, champus, cosméticos dermatologicamente testados e toda uma inumerável relação.
Na outra ponta da problemática, na vertente da compaixão, ficam aqueles que radicalizam suas posições.
Por piedade, recusam-se a qualquer coisa de origem animal. São veganos e causam espécie mesmo entre as pessoas mais bem informadas. Entre eles, a tia-avó aprenderá a cozinhar pratos mais saudáveis (vai ter que aprender!), pois sua cantilena não fará nenhum efeito em seus sobrinhos-netos: não há retorno.
Seu objetivo? Salvar animais. Querem-nos vivos, compartilhando os espaços em convivência harmônica, num novo planeta, regenerado de seus crimes, pacificado, digno do século XXI, da Era de Aquário.
Essa gente preocupa-se com sua própria saúde, fique claro, mas preocupa-se especialmente com a saúde dos animais não humanos. Defendem cães e gatos, jegues, cavalos, leões e tigres, pássaros e peixes, bois, vacas, porcos e cabritos, abelhas e esquilos.
Renunciantes aos produtos de origem animal, buscam no reino vegetal seu vestuário, seus alimentos e não têm a exigência grandíloqua pelas chias da vida. Têm outra coisa em mente.
Sendo assim, perguntam-me os gentilíssimos e pacientes leitores, sobreviventes até aqui da enfadonha leitura, onde está o problema anunciado no título?
O problema, caríssimos, está no momento em que as duas vertentes se cruzam.
Enquanto por agora deixo-os pensando no assunto, prometo, veementemente, abordar as consequências desse cruzamento na próxima vez em que nos encontrarmos. É a Era de Babel.

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