Sobre o zoomorfismo e o antropozoomorfismo

por Sérgio Greif

Sempre causam polêmicas os provocantes cartoons do Charlie Hebdo, se assim não o fosse não teria porque publicá-las. Começo este texto tratando do assunto devido à polêmica gerada pela publicação onde dois homens com feições animalizadas perseguem mulheres apavoradas, enquanto ao canto jaz o corpo de uma criança afogada com os dizeres “O que será que se tornaria o pequeno Aylan se tivesse crescido?” (“Que serait devenu le petit Aylan s’il avait grandi?” no original).

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Mal gosto em fazer uma brincadeira sobre a tragédia de uma criança à parte, e pela própria graça da piada em si (nenhuma), retratar outros grupos étnicos ou religiosos com feições de animais (notadamente macacos e porcos, como bem se nota na imagem), na tentativa de desumaniza-los não é “privilégio” do Charlie Hebdo.

No mundo árabe é comum se associar grupos específicos de pessoas a animais. Um amigo cristão sírio estava me contando que os muçulmanos na Síria muitas vezes  se referiam aos cristãos como macacos e aos judeus como porcos. Sim, eu sabia, mas ao contrário do que ele pensava, essa associação não deriva de fatos ocorridos no século XX, ela remonta ao alcorão e talvez seja até anterior a ele.

Na Surata Al-Maidati, lemos: “57. Ó fiéis, não tomeis por confidentes aqueles que receberam o Livro antes de vós (ou seja os judeus e cristãos), nem os incrédulos, que fizeram de vossa religião objeto de escárnio e passatempo. Temei, pois, a Deus, se sois verdadeiramente fiéis. 58. E quando fazeis a convocação para a oração, tomam-na como objeto de escárnio e passatempo. Isso, por serem insensatos. 59. Dize-lhes: Ó adeptos do Livro (ou seja, judeus e cristãos), pretendeis vingar-vos de nós, somente porque cremos em Deus, em tudo quanto nos é revelado e em tudo quanto foi revelado antes? A maioria de vós é depravada. 60. Dize ainda: Poderia anunciar-vos um caso pior do que este, ante os olhos de Deus? São aqueles a quem Deus amaldiçoou, abominou e converteu em MACACOS, PORCOS e adoradores do sedutor; estes, encontram-se em pior situação, e mais desencaminhados da verdadeira senda.”

Há ainda duas referências no Alcorão que afirmam que os israelitas foram transformados em macacos. Na surata Al-Bacarati lemos “65. Já sabeis o que ocorreu àqueles, dentre vós (judeus), que profanaram o sábado; a esses dissemos: ‘Sede MACACOS desprezíveis!’” Na Surata Al- A’arafi há uma referência que diz que os Israelitas foram transformados em macacos “166. E quando, ensoberbecidos, profanaram o que lhes havia sido vedado, dissemos-lhes: ‘Sede MACACOS desprezíveis!’”

Poderia-se pensar que a crença na transmutação de seres humanos em porcos ou macacos seria apenas uma alegoria, uma afirmação a ser tomada no sentido figurado, mas os eruditos muçulmanos a tomam literalmente, e as escolas islâmicas travam extensas discussões teológicas em relação a qual teria sido o destino desses porcos e macacos, algumas afirmando que aqueles judeus transformados por Allah em porcos haviam permanecido como porcos até a morte, sem produzir descendência, e outras afirmando que estes haviam produzido descendentes, que seriam os porcos atuais (alguns muçulmanos afirmam que os judeus atuais descendem daqueles porcos, mas não encontrei evidências que sustentem tal afirmação nas diversas escolas islâmicas, sendo isso apenas uma afirmação recorrente em vídeos e sermões inflamados que tentam desumanizar os judeus).

De toda forma, associar judeus a porcos e macacos ou outros animais é recorrente no mundo árabe, como se pode perceber nessa coletânea com referências ( http://www.jewishvirtuallibrary.org/jsource/History/memrireport.html). O Youtube possui centenas de vídeos veiculados por televisões árabes e persas que mostram autoridades islâmicas e políticos do mundo muçulmano se referindo em seus sermões, discursos e nos programas de televisão aos judeus como porcos e macacos, ou filhos dos macacos e porcos, ou irmãos de macacos e porcos. Neste vídeo (http://palwatch.org/main.aspx?fi=763&fld_id=763&doc_id=14953) que foi capturado da TV oficial da Autoridade Palestina, uma menininha canta: “Ó, Filhos do Sião, Ó mais terríveis das criaturas. Ó Macacos bárbaros”.

Pessoalmente, inserido na cultura ocidental que estou e especialmente apaixonado por animais não vejo problemas em me comparar a nenhuma espécie. Não me ofende ser associado a um símio, até porque acredito e defendo o conceito de evolução das espécies, cuja teoria mais amplamente aceita afirma que nossa espécie realmente descende de ancestrais comuns com outros símios, derivados cerca de 5 milhões de anos atrás.

Associar-me a um porco também não é exatamente ofensivo, visto a visão simpática que tenho também destes animais. Tal associação poderia ter até mesmo uma fundamentação científica, se o geneticista Eugene McCarthy estiver correto em sua teoria evolutiva que afirma que não apenas descendemos de animais semelhantes a chimpanzés, mas também descendemos de porcos, em um complexo sistema de hibridização recorrente ao longo de milhares de anos (não é a primeira teoria maluca sobre nossa origem, nem será a última, mas enfim . . .).

O ponto a que quero chegar é que se o Charlie Hebdo quisesse me ofender não adiantaria me retratar como um porco, um macaco, um rato, uma anta, uma toupeira, uma lesma ou outro animal, eles teriam de me associar a alguma outra coisa que eu considerasse ofensiva (teriam de me retratar comendo churrasco, ou vestindo uma boina de Che Guevara abraçado ao Karl Marx, sei lá . . .) .

Se a ofensa máxima a um muçulmano é retratá-lo como um porco, ou um macaco, se é isso que pode atingi-lo, é isso que eles usarão. Mas o importante é dizer que se o especísmo, se o preconceito contra macacos e porcos já não existisse por parte dos muçulmanos, se eles já não chamassem outros povos assim na tentativa de desumanizá-los, não teria porque usar isso para ofendê-los.

Não me surpreenderia se em um próximo cartoon o Charlie Hebdo retratasse um muçulmano levando chineladas, ou beijando as solas dos sapatos de alguém. Não é algo que nos ofenderia em especial, mas essa seria uma ofensa séria a um muçulmano. Mas não é sobre peculiaridades culturais que pretendo escrever, tampouco sobre o especismo, mas sobre o  zoomorfismo e o antropozoomorfismo.

Zoomorfismo

No caso dos versículos corânicos acima citados, seres humanos foram literalmente metamorfoseados em animais, como Gregor Samsa foi transformado em uma barata gigante no romance de Kafka. Em ambos os casos a forma assumida pelo ser humano tem a intenção de conferir ao mesmo atributos do animal. A esta transmutação chamamos teriantropia (gr. Terion = animal e Antropos =  humano).

A Biblia descreve, no livro de Daniel, um episódio zoomórfico (ou teriantrópico) ocorrido com Nabucodonosr, rei da Babilônia, quando o tirano é punido por sua arrogância a viver por sete anos como um animal irracional, sendo forçado a abandonar o palácio e ir viver com os animais do campo, alimentando-se de ervas como os bois, tendo seu corpo molhado do orvalho pelo céu. Os pelos cresceram “como as penas da águia, e as suas unhas como as das aves”. (Daniel 4:32-34).

Porém, não necessariamente o ser humano deve assumir a forma de um animal não humano para que seus atributos lhe sejam transmitidos, ou para que sofra um processo de “animalização”, e nesse sentido, a literatura naturalista do século XIX recorria bastante a essa figura de linguagem.

Também as expressões populares fazem uso cotidiano de analogias com animais, nem sempre justas, para descrever comportamentos humanos. É assim que se diz “bêbado como um gambá”, “chorar lágrimas de crocodilo”, “essa menina é uma galinha”, “essa mulher é uma vaca”, “gordo como um elefante”, “comer como um porco”, “falar como um papagaio”, “astuto como uma raposa”, “seu burro”, “sua anta”, “seu viado” (sic) . . .

Vale ressaltar aqui, porém, que nem sempre esse processo de animalização, ou de zoomorfização, possui uma conotação negativa. É assim que se faz uso também de expressões tais como “forte como um touro”, “olhos de águia”, “abraço de urso”, “fiel como um cachorro”, etc.

As conotações negativa ou positiva não serão inerentes ao animal em questão, mas sim à cultura na qual o indivíduo que profere e recebe a atribuição estão inseridos. Dependendo da entonação, a época e o local onde se viva, chamar a alguém de “cachorro” pode soar ofensivo, mas Kaleb e Connor (bem como as variantes destes nomes) são populares e significam exatamente isto.  Chamar a uma mulher de “gata” ou de “galinha” pode ser um elogio ou uma ofensa, dependendo a quem se dirija. Veado pode ser uma ofensa no Brasil (“viado”), mas muitos pais em outros países orgulhosamente nomeiam seus filhos com nomes como Tzvi, Buck, Ayala, Oisin, Hershel, Hart, Fawn, Dyani,  que significam exatamente isso.

Macacos, como os utilizados hoje para ofender imigrantes muçulmanos na Europa, são associados à inteligência no taoísmo e no budismo. No Japão é famosa a figura dos três macacos sentados juntos, tampando os olhos, os ouvidos e a boca, para evitar se ver, ouvir e proferir o mal. Na índia, macacos são cultuados nos templos dedicados ao deus Hanuman. No antigo Egito o deus Toth, da sabedoria, era representado por um babuíno. Macacos são cultuados na antiga religião do Togo, embora isso não impeça que sejam caçados e suas cabeças sejam utilizadas em rituais.

Porcos também são objeto de culto em alguns lugares na Índia, sendo associados ao deus Varaha, terceiro avatar de Vishnu, ora representado como um javali, ora representado como um ser humano com quatro braços e com a cabeça de um javali. No passado, o porco era relacionado aos cultos de Demeter (divindade grega), Diana (deidade romana), Ísis e Seth (Egito) e Moccus (Celtas), para citar alguns casos. Mas isso não significava a proibição de seu abate e consumo de sua carne, o que podia ser até mesmo estimulado, mas sim uma conotação positiva associada ao animal. Chamar crianças celtas de “porquinhos” era comum, mas como uma forma carinhosa de se referir aos estudantes.

Ratos, comumente associados à sujeira e às doenças em todo o mundo são objeto de culto em alguns lugares na Índia, especialmente nos templos dedicados à deusa Karni Mata.

Antropozoomorfismo

Antropozoomorfismo é a atribuição de características a seres metade animais não humanos, metade humanos. Pode-se dizer que grande parte das deidades egípcias e hindus são entidades antropozoomórficas, assim como outros seres mitológicos bastante conhecidos (os faunos, os sátiros, as sereias, o minotauro, as esfinges . . .)

À exemplo do que ocorre no zoomorfismo, seres desprezados por determinadas culturas podem ser cultuados em outras culturas. Assim, no antigo Egito havia o culto às deusas Nekhbet e Mut, que possuíam cabeça de abutre, a Anúbis, cuja cabeça era de chacal, comumente vistos por outros povos como animais imundos.

Fato importante em relação ao antropozoomorfismo é que, como forma de culto, ele se mostra como um desenvolvimento, uma derivação do zoomorfismo, onde o elemento do antropocentrismo e do especísmo já se incorporam, e o animal objeto de culto por si só deixa de se bastar em si mesmo, necessitando adquirir contornos humanos.

De toda forma, prestar culto a determinado animal não significa necessariamente respeitar seus direitos, podendo significar justamente o oposto, sendo a carne do animal utilizada em sacrifícios e oferendas.

Quanto ao lamentável caso do Charlie Hebdo, o que se pode dizer é que o desprezo apresentado por eles frente a outras culturas apenas faz uso do desprezo que essas mesmas culturas fazem de outras tantas. Infelizmente a vida de uma criança e de outros tantos milhares de imigrantes inocentes serve de combustível para esse tipo de chacota e mais infelizmente ainda o humanismo universalista que permeia a sociedade ocidental e que levou a tantos protestos não encontra reciprocidade no Oriente Médio e Norte da África.

Por puro relativismo, e até esquizofrenia, moral, vemos como desprezíveis quando tais ataques partem do mundo ocidental para com outras culturas, mas no caso oposto acabamos vendo como sendo atitudes normais, aceitáveis,  inerente àquelas culturas ou pior, resultados de anos de opressão, imperialismo, etc, etc.

Apenas porque as agressões partidas do Charlie Hebdo foram publicadas em uma língua ocidental, inteligível para nós, não significa que devamos ignorar e aceitar os cartoons publicados diariamente pela mídia árabe, persa e urdu, que mostra ocidentais desumanizados e praticando atos obscenos ou devorando criancinhas. Isso deve parar, mas deve parar no mundo inteiro.

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