Tradição vergonhosa

Dr. phil. Sônia T. Felipe

cavalo-charreteE os cavalos continuam escravos, em sua agonia silenciosa, tracionando pelas ruas turistas que bem podem puxar eles mesmos seus corpos a passeio por Paquetá, ou por qualquer outra cidade do mundo.

Em Nova Yorque uma lei porá fim ao uso de cavalos para tração de charretes turísticas na cidade. Em Israel a tração equina já foi abolida. Não porque essas charretes sejam “feias” e ninguém goste de vê-las, de usá-las ou de tê-las. Não.

Todo mundo, há séculos, gosta de ver e de fotografar-se junto a charretes ou mesmo sentado nelas, gosta de ser levado a passeio pelas ruas sem fazer qualquer esforço, a não ser o de abrir a carteira ou o de digitar uma senha numa maquininha de cobrança. E há quem goste de ter essas charretes e de ser dono desses cavalos. Há gosto para tudo. Menos para ver o desgosto que causam aos cavalos com seu mau gosto. Um mau gosto igual ao de ir a circos que usam animais, ao de usar casacos de peles de animais, o de se divertir em rodeios, touradas e similares.

E todas as pessoas, turistas, jornalistas, fotógrafos, charreteiros, reis e rainhas, usam e escravizam os cavalos até que eles caiam mortos ou sem forças na rua, ainda atrelados às carroças. Então, e só então alguém percebe que ali há um ser senciente, um ser sofrente. Mas sua agonia não começa na hora em que ele cai diante dos olhos de toda gente. Sua agonia começou no dia em que foi atado à primeira charrete. Nesse dia, todas as lesões que o levam à exaustão e à morte começaram. E ninguém quis ver nada, a não ser sua foto junto à charrete colorida no álbum de viagens.

O cavalo ninguém vê. E para onde ele é levado ao fim de suas forças, ninguém quer saber.

E há como puxar turistas pelas cidades, sem agonizar cavalo algum? Há. Riquixá. Um carrinho puxado por força de tração humana no lugar do cavalo. Humana. Quer dizer, por um animal forte que tem consciência de que tudo vai bem em seu trabalho, pausa para descansar, comer, beber água e conversar com suas “cargas inertes”, se precisar dizer algo.

Riquixás são a tradição mais antiga do mundo, eles são usados há milênios, onde não há nem havia cavalos para serem escravizados, gastos e mortos. Riquixás, que, agora, na forma de triciclos, também estão a ser usados em Paquetá, mostrando assim que a abolição do uso de cavalos para tração e atração turística é uma tradição dispensável na pauta da ilha.

Os riquixás, usados agora por charreteiros, que teimam em manter ao mesmo tempo os cavalos escravizados para puxar turistas, mostram que há tradições que não alimentam nada de bom, tradições que não são modelo algum de evolução moral, tradições cujo lugar na história, no máximo, deveria ser o álbum de fotos, para serem lembradas como práticas vergonhosas que ninguém deve repetir. Como o são as imagens das escravas açoitadas no pelourinho, das escravas com freios atravessados à boca, das escravas presas por correntes, aos pés e às mãos. E dos escravos, idem.

Passados 126 anos do fim da tradição de escravização de negros em nosso país, olhamos para essas imagens e sentimos repugnância, constrangimento, vergonha alheia, porque ali há vestígios de muita dor, de muito tormento, de muita agonia e morte de milhões deles. E sabemos, nós, brancas e negras, que tudo foi feito porque uns queriam extrair dos corpos daquelas mulheres e daqueles homens a mais-valia que queriam poupar de extrair de seus próprios músculos.

E é isto que fazemos aos cavalos: nós os colocamos a puxar cargas por toda uma vida. E eles vivem pouco e mal, vivem pouco e dolorosamente, vivem pouco, mal, dolorosa e silenciosamente, sua agonia e seu temor, seu pânico e desamor.

Olharemos, sim, para as fotos que temos hoje, de cavalos atados a charretes, de cavalos com o pescoço retorcido para o lado, para tentar desviar o foco da dor na boca, na nuca, na lombar, nas pernas, ou nas patas, nunca sabemos, porque nunca damos atenção ao que eles desesperadamente nos dizem com suas expressões corporais de agonia.

Olharemos para nossos selfies em charretes coloridas e sentiremos vergonha de mostrar às nossas netas isso que fizemos aos cavalos de Paquetá, Petrópolis, de Londres e de Nova Yorque, como as alemãs idosas que hoje sentem vergonha de mostrar suas fotos de adolescentes uniformizadas com suásticas, nas manifestações nazistas, porque elas sabem, agora, muito bem, que foram usadas e manipuladas ideologicamente para crer que estavam fazendo algo inocente ao mandar para a morte seres indesejados em seu território ariano.

Texto originalmente publicado na Fanpage do livro Galactolatria, Mau Deleite

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