“Não responsabilize o veganismo por seu transtorno alimentar” – escritora vegana responde à Jordan Young

Pamela-TourignyVocê provavelmente já ouviu falar sobre a blogueira Jordan Young, “ex-vegana” que recentemente escreveu um livro onde relata ter sofrido de ortorexia e que por este motivo voltou a comer alimentos de origem animal, supostamente recuperando a saúde. A história tem repercutido bastante na mídia, inclusive no Brasil.

A escritora (vegana há mais de uma década) Pamela Tourigny, publicou um artigo em resposta às alegações de Jordan Young,no Huffington Post, mês passado. Leia abaixo, com tradução livre do Veggi & Tal:

“Eu escrevi no meu blog sobre restrições extremas de dieta em várias ocasiões, mas à luz de uma loira que não vamos citar, promovendo-se por falar contra o veganismo e agitando um frenesi midiático para ajudá-la a vender um livro que ela escreveu, parece que é necessário rever este fenômeno.

“O livro é chamado Breaking Vegan: One Woman’s Journey from Veganism and Extreme Dieting to a More Balanced Life (Quebrando com o Veganismo: A jornada de uma mulher do veganismo e dieta extrema para uma vida mais equilibrada) – uma clara tentativa de culpar o veganismo por seus problemas. Eu não vou linkar para ele, porque eu não quero dar-lhe acesso – para o bem ou para o mal.

O veganismo não é sobre privação ou sobre ser extremo. É sobre deixar os animais fora de nossos pratos.

Para ser clara, eu concordo absolutamente com muitos dos sentimentos que ela expressa em entrevistas à imprensa sobre ortorexia e como se esforçar para comer de maneira perfeita é uma estrada perigosa por muitas razões. Eu vejo muitas pessoas – vegans ou não – que se tornaram obcecadas em comer sua versão de uma dieta perfeitamente limpa.

Elas eliminam soja, glúten, milho, carboidratos e assim por diante, sem nenhuma razão aparente que não seja um vago sentimento de intolerância, restringindo severamente suas dietas – muitas vezes desnecessariamente – e socialmente isolando-se. Eu não estou dizendo que as pessoas não devem atuar em omitir o que quiserem de sua dieta, ou que todas as omissões são inválidas, mas que a decisão de excluir alimentos é muitas vezes baseada em raciocínio frágil e em medo.

Uma coisa é limitar ou mesmo eliminar coisas como gordura animal, açúcar e farinha branca. A ciência esmagadoramente nos diz que é a melhor abordagem para a nossa saúde. Eu particularmente limito, mas eu também ocasionalmente tolero. Nenhum de nós existe em uma bolha, e às vezes você só quer comer um cookie.

Mas é o seguinte, ortorexia – embora possa ser co-mórbida com o veganismo para algumas pessoas que têm tendências alimentares restritivas – não é veganismo. Veganismo omite alimentos, isso é certeza. Mas é por uma questão de ética e de justiça, não por uma preocupação com comer de maneira limpa.

A loira em questão foi assumidamente obcecada em comer uma dieta perfeitamente “limpa” … isso quando comia. Parte de ter uma dieta limpa para ela envolvida não comer ingredientes de origem animal. Mas ela não evitava comer essas coisas por causa de um compromisso com os direitos e o bem dos animais, ou questões ambientais. Ela tinha rotineiramente que consumir apenas 800 calorias por dia – de suco. Isso não é veganismo, meus amigos. Isso é inanição.

A loira reconhece sua ortorexia, mas optou por colocar na frente a placa vegan e centrar nisso seu marketing. Nós todos sabemos que o veganismo nunca foi mais popular e mais mainstream do que agora. Sua trajetória ascendente em 2015 foi animadora. Muitos estão impulsionados por questões de saúde, mas as pessoas também nunca estiveram tão preocupadas com os animais, ou conscientes da fragilidade do nosso ambiente natural.

É um movimento cínico e hipócrita colocar o veganismo no centro de sua narrativa, quando o resultado – passar fome – tinha praticamente nada a ver com ser vegan. É sensacionalismo e é transferência de culpa. Conheço centenas de vegans, e nem um sequer está morrendo de fome.

Eu não sou um especialista em transtornos alimentares, mas minha colega Susan Macfarlane RD, uma nutricionista de Ottawa, é. “Por vezes transtorno alimentar antecede a decisão de adotar uma dieta vegan”, explica ela. “Por haver um grau de restrição alimentar no veganismo, sob a forma de evitar ingredientes de origem animal, os indivíduos com transtornos alimentares são atraídos por esta maneira de comer, pois oferece o segredo de que necessitam para abastecer seu distúrbio alimentar.”

O “estilo de vida” vegan é de abundância e de gratidão. Quando você não tem 100 tipos de cookies para escolher, você saboreia muito mais os cinco tipos que você tem. Vivemos em uma sociedade que está completamente esgotada; as pessoas se sentem como se precisassem ter opções ilimitadas para que não sejam privadas. Elas não podem suportar a idéia de ter quaisquer limitações colocadas sobre suas escolhas.

Isto gera o tipo de disfunção que vemos em toda parte – por um lado, massas de pessoas que estão comendo a si mesmas em doença, e, por outro, pessoas como a loira que subsiste com suco de couve e cenoura e chama isso de veganismo.

Eu não tenho qualquer má disposição que a loira tenha uma recuperação completa de sua ortorexia. Ortorexia nervosa e outros distúrbios alimentares são terríveis flagelos e questões psicológicas difíceis de lidar.

De acordo com Macfarlane, as pessoas podem (e o fazem) criar uma valorização de seus distúrbios alimentares mantendo uma alimentação “vegan”. “Os transtornos alimentares têm mais a ver com intolerância emocional do que com tendências dietéticas e com comer limpo”, diz ela.

Então, eu adoro que a loira agora consome ingredientes de origem animal? Claro que não. Mas isso não é realmente o meu lugar em seu caminho para a recuperação, e, francamente, isso não é o maior problema com esta situação.

O que eu vejo problema é que ela tem atrelado sua narrativa de recuperação (ou melhor, negócio de venda de livro) nas costas dos animais. Ela moldou-o convenientemente – e erroneamente – como uma problema vegan (versus um problema de saúde mental, que é o que os distúrbios alimentares são), e, em seguida, usou isso para crescer sua própria fama e fortuna. Também resulta em perpetuar equívocos sobre o veganismo não ser uma opção saudável.

Primeiro eles te ignoram, depois riem de você, a seguir lutam com você, então você ganha. ~ Gandhi

Nós essencialmente concluímos a mudança, de ser ridicularizado para ser combatido. Com certeza, a educação vegan nunca foi maior, e muitas pessoas estão cada vez mais receptivas ao “estilo de vida” vegan e seus ideais. Mas eu também tenho notado sinais de hostilidade que vem não só dos inimigos óbvios (grande agricultura), mas também de pessoas que, por qualquer razão se sentem ameaçados ou pessoalmente julgados pelo crescente interesse neste “estilo de vida”. Estava tudo bem quando veganismo era peculiar e meio estranho, mas agora que é mainstream, algumas pessoas estão empurrando para longe.

Então, quando alguém como a loira aparece, pronto para minar uma ameaça crescente para o status quo (veganismo), a tentação é forte entre os não-veganos para abraçar e promover, ao invés de lançar um olhar crítico em sua narrativa.

Eu desejo para a loira nada além do melhor para sua saúde … mas gostaria que ela deixasse a destruição do veganismo fora disso.

Este post foi publicado originalmente no http://www.pamelatourigny.com

 

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