Nada bucólica a vida bruta de cavalos escravizados

Dr. phil. Sônia T. Felipe

cavaloNa quinta-feira, 19 de maio de 2016, os 31 cavalos escravizados há décadas para tração de cargas de luxo (turistas) na Ilha de Paquetá, foram tirados das ruas. O propósito e a promessa são de que nunca mais serão escravizados por humanos, seja lá para qual finalidade for, tração de cargas de luxo ou de lixo, performances esportivas, recreativas ou terapêuticas.

Ontem recebi de uma amiga ativista o artigo de um jornalista que lamentava a abolição do uso de cavalos tracionando charretes em Paquetá, porque este uso, segundo ele, teria uma função de nos reportar a cenas bucólicas que já não existem mais. Muito bem montada esta tese.

Agora procedo ao desmonte dela. Todas as cenas bucólicas da infância de nossos pais, avós e bisavós, nós abolimos sem dó nem piedade das nossas vidas nas últimas décadas, por uma única e simplicíssima razão: nossas mães e pais, nossas avós e avôs, em suas infâncias e vidas adultas, muito sofreram com a dureza da vida não mecanizada.

Os homens fazendo trabalhos braçais brutais, as mulheres fazendo trabalhos braçais exaustivos, tipo lavando toda a roupa da casa, acocoradas à beira de um rio, fizesse verão ou gelo nas manhãs, ventasse ou garoasse.

Inventamos máquinas para lavar roupas, máquinas para torrar e moer grãos de café e até mesmo para passar o café, máquinas para encher nossa casa de ar frio ou de ar quente, máquinas para secar nossos cabelos, e máquinas para acender o fogo. Na minha infância de trabalhos duros, eu tinha que acender o fogo sobrando sobre faíscas até que pegassem na acha de lenha, levando-me quase a desmaiar por hiperventilação cerebral. Rotina. Todas as manhãs, por vota das seis, era preciso acender o fogo para aquecer a água (levava uma hora para ferver) e fazer o café antes de sair para andar sobre a geada até o Colégio.

Os homens também fizeram máquinas para cortar florestas, máquinas para levar seu corpo de casa para o trabalho, máquinas para medir o tempo, máquinas para calcular suas vendas, máquinas para escrever e memória nelas para reter o escrito e, pasmem, máquinas para tracionar todo tipo de carga sem necessidade de machucar nem de exaurir nenhum animal.

Tudo o que nos parece “bucólico”, quando lembramos do tipo de vida de nossas mães, avós e bisavós, nós absolutamente não queremos voltar a ter como rotina em nossas vidas, porque isso nos custaria muita dor física e sofrimento psíquico, caso fosse uma vida “imposta” a nós pela necessidade ou pela força tirânica de algum senhor e proprietário de nossos corpos.

Volto ao ponto onde devemos apear dos cavalos. Tracionar cargas, de luxo ou lixo, usando animais sencientes, pode parecer “bucólico” apenas para quem não está ali amarrado àqueles artefatos torturantes. E há humanos que querem manter os cavalos escravizados, para terem como se lembrar do tempo da vovó ou da própria infância, sem a menor lucidez sobre o que essa vida representa para o cavalo, o jegue, a mula, o jumento, a égua, o boi, a ovelha, a rena, a lhama, o camelo, o elefante.

Quanto ao teor do texto, lamentando a retirada dos cavalos das ruas de Paquetá, esses humanos não têm ideia do inferno que é a vida de um cavalo. Vou citar apenas um ponto, para não alongar ainda mais este texto. O cavalo, por natureza, pasta 18 horas por dia. Ele é o animal mais seletivo de pastagem. Ele não pode comer ou digerir qualquer capim. Ele seleciona com a língua os fios de capim ou os brotos frescos que têm os nutrientes mais importantes para ele. Sua digestão precisa ser contínua.

Vamos ao cavalo amarrado a uma charrete. Lá, o cavalo não pode ingerir nada o dia todo. Dão a ele capim murcho, amarelo, seco, com mofo e pó, uma vez por dia, quando dão, sem sequer encharcar o capim em água! Dão a ele o capim seco desidratado, quando sua natureza digestória evoluiu para as gramíneas, como a dos bovinos. Comer coisa inútil, seca, sem nutrientes, é bucólico para quem mesmo? Só para quem tem “olhos de não ver” o cavalo, só quem vê apenas o próprio umbigo, o centro da romantização da dor produzida no corpo do outro para gozo no próprio corpo ou mente.

Na natureza, o cavalo pasta feliz a grama fresca e molhada pelo orvalho, pela garoa. Enfim, isso é apenas sobre a alimentação que o forçam a ter, sem qualquer propósito para o organismo dele. E há quem ache “romântico” manter a cena bucólica das charretes, chamando turistas. Quero ver se esse cara que acha romântico adora comer um prato de farofa seca uma vez por dia, trabalhando numa esteira rolante por oito a dez horas, todos os dias, sem chance de livrar-se dessa vida até o tiro letal.

No mesmo texto, o autor insiste que se trata apenas de “educar” os charreteiros para que saibam tratar bem de um animal (bem-estarismo é o flagelo dos animais, sabemos disso!). Esses jornalistas intelectualmente sedentários não sabem que não se trata de educação do charreteiro. Trata-se de impossibilidade de, mesmo o charreteiro mais amoroso, se é que escravização de um animal e amor podem ser pensadas juntas, conciliar o bem próprio do organismo e da psique equinos e de muares com o sistema de escravização de seu corpo para tração de luxo.

Qual dos charreteiros teria condições de encher uma carroça de capim fresco e verdinho todos os dias e levar essa comida consigo para o trabalho, oferecendo ao cavalo atividade ingestiva e digestiva apropriada à saúde do animal o dia todo? Definitivamente, não se trata de educar os homens para saber como cuidar bem de cavalos aprisionados e escravizados. Os homens, mesmo sabendo de tudo isso, não teriam como fazer isso tudo funcionar a contento para o cavalo.

Os ativistas defensores dos direitos animais precisam estar “educados” para manterem a clareza sobre o fato inequívoco de que “nenhuma solução educativa bem-estarista resolve a questão dos animais”, só resolve o peso da consciência dos homens que escravizam esses seres e das mulheres que também sobem nessas charretes pelo mundo afora, sentindo-se bucolicamente transportadas para suas infâncias, ou mesmo, no caso das mais jovens, para as infâncias de suas bisavós. Podem vestir-se e pentear-se como elas. Não precisam maltratar cavalos e jumentos para terem certas emoções. E se detestam fazer força física, como podem aceitar que um animal seja forçado a isso para satisfazer seu capricho no passeio que não dura duas horas, quando o animal é condenado ao trabalho numa sentença vitalícia que o levará à morte por exaustão ou a ser abatido por alguma disfunção?
Animastê!

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