Aglomerações pandêmicas – a gripe aviária pelo mundo

Dr. phil. Sônia T. Felipe

Sônia T. FelipeMais de meio milhão de aves, criadas para ovulação industrial, para abate, para exibição em zoos, e também aves migratórias foram mortas pelo vírus da gripe Influenza tipo A, que as ataca, também contagioso e altamente letal (mata 60%) quando infecta humanos, nos dois últimos meses de 2020. Tudo isso em meio à pandemia que crassa por dezenas de países pelo mundo afora, mais letal nessa onda do que na primeira.

O zoológico de Kanpur, na Índia, foi fechado em 10/1/21 e assim seguirá pelas próximas duas semanas. Aves foram encontradas mortas. A necropsia revelou H5N8 nas aves silvestres ali aprisionadas [India Times, 10/1/21]. O protocolo de segurança para os humanos é o mesmo da COVID-19: máscaras, luvas, distância física, lavação de mãos e nenhum contato com superfícies, seja das aves, seja de objetos.

Em 11/1/21, a gripe aviária estava confirmada em nove Estados da Índia: Haryana, Himachal Pradesh, Rajasthan, Gujarat, Madhya Pradesh, Uttar Pradesh, Kerala, Maharashtra, Parbhani [India Times, 11/1/21]. Em 12/1/21 Nova Delhi confirmou a chegada do vírus às suas aves [India Times, 12/1/21]. Isso corresponde a 30% dos Estados, não é pouca coisa. O alarme está dado.

Só em Haryana morreram 400 mil aves nos últimos 30 dias. [India Times, 9/1/21]. O governo, que fingiu de morto até que o quadro se agravasse, agora declara que a gripe aviária já infestou os aviários em Barwala e em Raipur Rani nas últimas quatro semanas. Segundo artigo do jornalista Bobins Abraham, os produtores inventam que a mortandade dos frangos e das galinhas deve-se a questões climáticas ou à idade das aves

Quando o vírus Influenza A ataca aves, o contágio se dá pela aglomeração delas, pela proximidade dos humanos que as manejam, por seus ovos, por suas penas, por suas carnes. Essa é a razão pela qual os produtores mentem sobre a causa da morte em massa das aves aprisionadas nos aviários. Mas, incapaz de seguir acobertando o surto, o Ministro da Produção Animal e do Leite, Jai Parkash Dalal, reconheceu que de cada três amostras coletadas duas deram positivo para o vírus H5N8 da gripe aviária [India Times, 9/1/21].

Na Índia, estão confirmados casos de gripe aviária não apenas nos frangos e nas galinhas, usadas para expelição de ovos em ritmo industrial, mas também em aves migratórias, em urubus e nas silvestres mantidas em cativeiro nos zoológicos e para ornamento.

Só entre as aves migratórias, patos e gansos, já morreram 2.300 à beira do lago Pom Dam, em Kangra, no Estado de Himachal Pradesh, considerado santuário e reserva natural desses animais [India Times, 5/1/21].
Em Kerala, o Ministro da Criação de Animais e Preservação da Vida Silvestre, K. Raju, declarou que pelo menos 12 mil patos silvestres morreram por conta da H5N8 nas últimas semanas. Em Rajastan, mais de 500 urubus foram encontrados mortos pela gripe aviária.

Por que todos fazem corpo mole quando alguma ave aparece morta e se suspeita do H5N8? Por conta das perdas contábeis, pois na presença de uma epidemia ou pandemia, ficam proibidas as vendas, o transporte, o consumo, o abate não sanitário, a exportação de quaisquer produtos avinos: das penas e plumas, às carnes, ossos e ovos, inclusive para produção de ração para outros animais domiciliados (cães, gatos e outros) ou criados em rebanhos para matança e comilança humanas.
Todas as aves, não importa se aprisionadas em gaiolas para exibição, ou em aviários, ou soltas nos lagos e pastos naturais, no raio de pelo menos um quilômetro de qualquer ave com H5N8 devem ser eliminadas sanitariamente, pois o vírus Influenza tipo A propaga-se pelo ar. No raio de 10 quilômetros, todas as aves entram na vigilância sanitária, e nenhuma delas pode ser morta sem autorização da autoridade competente. Moral da história: os negócios paralisam.

O H5N8 já está na Europa desde metade de novembro. Só na Alemanha foram eliminadas sanitariamente 70 mil galinhas, depois de outros países terem eliminado em massa suas aves infectadas: Bélgica, Reino Unido, Dinamarca e França. Quando as aves de um aviário testam positivo para o H5N8 e aquela empresa tem outras filiais, devido ao fato de que há circulação de aves, de produtos e de funcionários entre as diferentes filiais, as aves de todas as filiais têm que ser eliminadas para conter a propagação do vírus. Também na Alemanha, noticia Bobins Abraham, mais de 16 mil perus foram eliminados sanitariamente em novembro. A Dinamarca eliminou 25 mil galinhas infectadas pelo H5N8, o que a impede de exportar para fora da Europa quaisquer produtos aviários até fevereiro de 2021 [India Times, 17/11/20].

O vírus H5N8 infectou por primeiro as aves na Rússia e no Casaquistão, no verão europeu que encerrou final de setembro de 2019. Revisando a rota da pandemia temos: Rússia, Casaquistão, Bélgica, França, Reino Unido, Dinamarca, Alemanha e Índia. Muitos outros países podem estar com o H5N8 e fazendo corpo mole.

Quando dois vírus igualmente fortes disputam um mesmo rebanho, nenhum dos dois vence o outro. O que acontece é uma espécie de simbiose dos genes de ambos, gerando um terceiro, um super vírus. Com o SARS-CoV-2 e o Influenza A circulando por tantos territórios, uma hora dessas pode ocorrer a mutação mais temida pelos epidemiólogos.

Olhando as fotos das aves aglomeradas, e sabendo que galinhas jamais se aglomeram naturalmente em número maior do que uma dúzia, vejo a estupidez humana mais claramente. As aves são infectadas por respirarem o ar cheio de vírus exalado das narinas de suas companheiras de infortúnio aprisionadas. Elas não têm responsabilidade alguma por adoecerem e morrerem. Quando vejo as fotos dos humanos aglomerados em festas e praias, shoppings e ruas, vejo que respiram o ar exalado diretamente dos pulmões alheios carregados de vírus que não deixam aparecer sintomas. Os humanos respondem por sua dor, sofrimento e mortes. As aves não.

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