Os cientistas acordando da carnelatria

Dr. phil. Sônia T. Felipe

Para deter e reverter o aquecimento global e as mudanças climáticas, recomenda o Relatório EAT-Lancet, “Food in the Anthropocene: the EAT-Lancet Commission on healthy diets from sustainable food systems” (Alimento no Antropoceno: a Comissão EAT-Lancet das dietas saudáveis de sistemas alimentares sustentáveis, tradução livre), publicado no dia 16 de janeiro de 2019, é hora de adotar a dieta centrada em alimentos de origem vegetal. Os especialistas denominam sua proposta de Great Food Transformation (Grande Transformação Alimentar, tradução livre).

Se em alguma parte do mundo ainda não há como suprir todos os aminoácidos com alimentos vegetais, o que não é o caso do Brasil, a manutenção de alimentos animalizados deve restringir-se ao peixe, ao frango e ao leite, em quantidades mínimas, até que sejam cultivadas variedades de vegetais capazes de compor os nutrientes necessários à saúde humana. Assim, mesmo que sejamos 10 bilhões de humanos em 2050, haverá alimento suficiente para todos, pois os campos de cultivo serão remanejados para plantio de alimentos variados para humanos, não mais para o gado agendado para matança e comilança.

Quem escreveu o Relatório EAT-Lancet? Tomaram parte no Seminário que precedeu a publicação desse relatório 37 PhD’s de 16 cidades (da Alemanha, da Suécia, dos Estados Unidos, da Inglaterra, da Nova Zelândia, da Noruega, da Suíça), formados em medicina humana, nutrição, agronomia, ciência política e sustentabilidade ambiental, governança política. A coordenação dos trabalhos partiu da Suécia com apoio da Grã-Bretanha.

O Relatório “COMA” foi escrito reunindo os dados mais atualizados da devastação da saúde humana e do planeta causada pela dieta animalizada, arrebanhados de mais de 300 artigos científicos publicados ao redor do mundo.

A urgência da pesquisa deve-se ao fato de que seremos todos extintos caso não detenhamos o aumento da temperatura da Terra em 1,5 C, tendo por base a temperatura de antes da queima de combustíveis fósseis (carvão e petróleo) que deu início à Revolução Industrial há um século e meio. Acima deste aumento de 1,5 C, tudo cozinhará nas águas ou queimará fora delas.

O Acordo de Paris em 2015 propôs que não passe de 2,0 C, mas o Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas de 2018 fixou o limite em 1,5 C, do qual já estamos nos avizinhando. Na Conferência Climática de Katowice na Polônia, os grandes emissores de carbono, por sua dependência econômica ao carvão e ao petróleo, opuseram-se a esse limite: China, Índia, Rússia, Polônia, Estados Unidos, Kuwait, Arábia Saudita e seus seguidores.

O Relatório “COMA” (EAT) de 47 páginas vem ilustrado com gráficos e tabelas de nutrientes e dos impactos que a produção, extração e consumo dos alimentos animalizados causam ao planeta e à saúde humana. De acordo com esse relatório, a criação de bovinos para extração de carne deve ser abolida. Suas proteínas podem bem ser substituídas por leguminosas e oleaginosas, combinadas com verduras, frutas, sementes, grãos e cereais integrais variados, sem prejuízo algum para a saúde humana, pelo contrário, com vantagens até hoje ignoradas ou omitidas pelas campanhas dietéticas bélicas de incentivo ao consumo de carnes e seus derivados.

Os médicos do EAT-Lancet estimam que 11 milhões de pessoas deixarão de morrer todo ano se migrarem para a dieta saudável, estritamente vegetariana. É disso que trata a primeira parte do relatório.

O que eles denominam “alimentos saudáveis”? Aqui está a lista sugerida pelos médicos: oleaginosas, sementes, frutas, vegetais, leguminosas, grãos e cereais integrais. O que denominam dieta doentia? A atual, carregada de calorias, açúcar, farinhas refinadas, processados e alimentos animalizados.

Se, no momento, em muitas regiões do mundo não é possível ainda suprir toda população com esses alimentos saudáveis, escrevem os especialistas, é preciso mudar o cultivo de alimentos, respeitando as condições típicas de cada região, mas afastando-se do modelo imposto pelo sistema de produção de animais para abate, começando pelo bovino, de longe o maior emissor de gases de efeito estufa (metano e nitroso). Onde não for possível cultivar (o relatório não cita, mas lembro das áreas glaciais como a Groenlândia e outras regiões com temperaturas abaixo de zero, ou acima dos 40 graus Centígrados, pela maior parte do ano, o mercado de alimentos deve ser aberto, assegurando a todas as pessoas o acesso à comida saudável de origem vegetal, produzida onde o clima é ameno.

A razão de tal proposta? O aquecimento global e a destruição que ele causará à vida de todas as espécies com as catástrofes que se tornam cada dia mais violentas e numa frequência jamais registrada antes. Não há mais como negar esta origem das emissões de gases de efeito estufa (dióxido de carbono, metano e nitroso): o cultivo de alimentos destinados ao serviço de 70 bilhões de animais todos os anos, e a excreta desses animais e dos humanos, lançada pelo planeta afora.

Excesso de nitrogênio e fosfato (nos fertilizantes, nos alimentos e na excreta) é também causa da devastação ambiental e da perda da biodiversidade, especialmente das águas dos rios e dos mares, que recebem os dejetos dos animais e das cidades. Em algum momento, a excreta de 77 bilhões de animais domiciliados (humanos e não humanos), vaza para as águas. Avolumadas pelas chuvas, elas inundam os oceanos. Com volume incomum, essas águas são atiradas sobre as regiões costeiras e interioranas, fazendo cidades inteiras ficarem submersas, o que se tornará rotina já a partir deste ano.

O Relatório EAT-Lancet corrobora o que está no livro “Carnelatria: escolha omnis vorax mortal”, lançado em junho de 2018, um livro que trata exatamente da idolatria às carnes, da devastação da vida animal e do aquecimento global, entre outros temas centrais à proposta abolicionista vegana. Animastê!

Texto integral original em inglês:

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