A “in-carnação” do SARS-CoV-2

SARS-CoV-2

Dr. phil. Sônia T. Felipe

A população mundial está estimada em 7,8 bilhões de humanos. Desses, até a noite de 3/7/20, 11 milhões foram confirmados positivo para COVID-19, com desfecho de 524 mil mortos. Os EUA levam da conta 25% do total de infectados confirmados (2.788.395 casos) e 24.7% dos mortos (129.306), segundo a Johns Hopkins University. Praticamente, um quarto do total mundial concentra-se no território estadunidense, cuja população é de apenas 4,26% da mundial.

O Brasil ocupa o segundo lugar mundial no ranking dos testados positivos para o vírus SARS-CoV-2, com 14% (1.539.081), e 12% das mortes (63.174), segundo CONASS, em 3/7/20, Boletim das 18 h. A população brasileira é de apenas 2,66% da mundial.

Somados, EUA e Brasil respondem por 39% do total dos casos do mundo, um número aterrador, quando calculamos o percentual que esses dois países representam na população humana mundial: apenas 7%.

“Alguma coisa está fora da ordem… fora da ordem mundial…”. Só que não. Se abrirmos as câmaras de sangria e seus respectivos frigoríficos, também são esses dois países que mais criam e matam rebanhos no mundo para comilança, ocupando o Brasil o primeiro lugar no pódio da matança. Com pouco mais de 2% da população humana do mundo, mata-se, no Brasil, todo ano, 10% da população animal criada em rebanhos.

Há meses, inquieta-me a preferência do SARS-CoV-2 pela proteína ACE2, que produz a angiotensina, uma enzima sem a qual o sangue não circularia pelos pequenos vasos que irrigam os órgãos vitais dos organismos dos mamíferos. Vários rebanhos, entre eles, o bovino, o suíno, o caprino, o ovino, os felinos e os pombos compartilham com o organismo humano a mesma biodisponibilidade dessa ACE2 para a ponta da lança do vírus penetrar e entranhar-se nas células que recobrem os pulmões, os rins, os intestinos, o fígado e o cérebro. Onde há essa gordura proteica, ali há um estacionamento convidativo onde as pontas de lança do vírus espetam, uma porta de entrada do vírus nas células humanas. Cavalos e cães também têm a ACE2, mas apenas 50% de biodisponibilidade para o vírus. Ratos a tem, mas absolutamente indisponível para o vírus.

À segunda inquietação, só os cientistas poderão me dar uma resposta. Trata-se de uma ideia que vem tomando corpo ao longo desses agora sete meses de estudos sobre esse vírus e essa pandemia que aí está. Reparem nos animais dos rebanhos que compartilham 100% a disponibilidade proteica para o vírus penetrar, são exatamente esses os animais mais comidos pelos humanos mundo afora, com exceção dos suínos, não comidos pelos povos judeus e islâmicos, que comem mais os bois, as aves e os cordeiros.

Seguindo a linha de raciocínio, voltemos aos números assombrosos dos EUA e do Brasil, no que diz respeito aos casos de infectados pelo coronavírus. Esses são dois países mais consumidores de carnes do mundo, além de mais matadores de animais do mundo. Basta calcular o tanto de animais que matam e o tanto de humanos que têm para alimentar. Matam tantos animais que dá até para exportar.Há várias postagens do ano de 2019 sobre esse tema, se rolarem o pergaminho virtual, elas estarão ali ainda disponíveis.

Por ser vegana há mais de 20 anos, quando sequer se sabia o que era ser vegana, dou muita atenção sempre à questão da dieta mortal seguida pelos humanos em níveis assombrosos nos últimos 20 anos. Nos últimos dez, tivemos sucessivos surtos virais de alta letalidade na Ásia e na África (Ebola, SARS e MERS), consumidoras de carnes de animais silvestres. A Europa e as Américas haviam sido poupadas até 2020, quando o corona mutou para se aproveitar também dos europeus e americanos. Os portais se abriram. E, pelo visto, não há qualquer passe de mágica para impedir o “passe dessa boiada” covídica, pois, “onde passa um boi, passa a boiada”.

Minha hipótese para compreender melhor o número de infectados no Brasil e nos EUA é esta: quanto mais proteína ACE2 de origem animal presente nos tecidos humanos (ACE2 oriunda da carne bovina, suína, ovina, caprina), mais fragilizado está o organismo humano para barrar a entrada da lança em suas células. Onde há fartura dessa gordura que o vírus precisa para colar a lança e penetrar, ali mesmo ele se locupleta. O resto sabemos no que vai dar.

Não tendo meios para pesquisar nem para fazer montagens em provetas, oferecendo ACE2 de bois, ovelhas e porcos às lanças virais e medindo a velocidade e a dificuldade do vírus se replicar nesse meio proteico experimental animal não humano, tenho que aguardar que alguém da ciência faça tais experimentos. Espero que os façam.

Em março, alertei que era preciso investigar o esgoto sanitário. Fizeram isso. Em 2/7/20, os cientistas da UFSC publicaram o resultado de seu trabalho de detetives da carga viral pela cloaca do centro de Florianópolis. Até o jornal chinês Global Times de 3/7/20 já publicou a notícia. Por sorte, a ciência arquiva os vidros com os restos fecais coletados dos esgotos nas estações de tratamento, justamente para poder conferir, quando novos vírus e bactérias se apresentam, se eles e elas já ali estavam há meses ou anos.

O SARS-CoV-2 passou em Florianópolis em novembro de 2019, ao mesmo tempo em que começaram os primeiros casos mundo afora. Algum turista? Algum empresário? Vindo de onde? Para onde seguiu? Adictos das teorias conspiratórias, muitos acusam a China de ter criado o vírus em laboratório; outros, de ela ter espalhado o vírus para ferrar a economia mundial. A China já sofreu muitos surtos virais devastadores, até a Rússia, sua adversária, admite que ela foi apenas a primeira vítima do surto da COVID-19, não sua autora, conforme declara o Ministro das Relações Exteriores russo (TASS, 2/7/20). Se adotamos a tese conspirativa, paramos de estudar e de investigar tudo, pois já temos contra quem apontar o dedo caluniador. Teorias da conspiração são simploriedades das quais devemos nos esquivar, para manter a saúde intelectual, moral e emocional, em tempos de difusão de ódios tão ampla quanto a da carga viral.

Com as leituras feitas até agora, prefiro a hipótese de uma mutação do vírus em diferentes humanos espalhados pelas Américas, pela Ásia, pela Europa, onde já havia casos de soldados das forças armadas (EUA) com uma estranha pneumonia, em meados de 2019, e muitas consultas sobre sintomas de doenças pulmonares nos sites de Wuhan, desde agosto de 2019. O vírus já estava nos humanos, fazendo seus estudos para melhor replicar-se.

É possível que um vírus estivesse em diferentes humanos espalhados ao redor do mundo. Um vírus sem problema de fazer as devidas mutações em cada novo grupo genômico no qual se incarnava. O SARS-CoV-2 já foi classificado em três tipos, A, B e C. O tipo B flagelou mais a Ásia. Os tipos A e C mais a Europa e as Américas. O tipo A foi o original que mutou para o B e deste para o C. Se o A é o basicão, então o flagelo asiático sucedeu por uma mutação dele quando penetrou nas células de pacientes com bagagem genética asiática.

Os vírus encontrados nas carnes do Direto do Campo Xinfadi, em Beijing, em 11/6/20, migraram da Europa para as Américas e daqui foram nas carnes resfriadas direto para a China. E quem nos garante que o primeiro surto na China, o de Wuhan, não por acaso, também originado em um mercado molhado de sangue, como o de Beijing, não tenha feito o mesmíssimo percurso carnista? Vamos aguardar o trabalho dos detetives científicos.

Aos poucos, o cerco se fecha em torno das carnes. As importações de carnes de diversos países pela China estão bem restringidas: carne de porcos (Alemanha), carnes da Dinamarca, carnes bovinas e de aves (Brasil), carne bovina do Canadá, e carnes de porcos da Holanda, estão suspensas (Global Times, 2/7/20). Por iniciativa própria, a Tulip (carne de porco), com sede no Reino Unido e a Agra (carne bovina), no Brasil, suspenderam as exportações à China, ao confirmarem casos de trabalhadores infectados em suas linhas de produção (Global Times, 2/7/20). Números brasileiros, que sequer foram divulgados aqui de modo organizado, a China os têm. Por exemplo, 2.399 trabalhadores das carnes de 24 abatedouros em 18 cidades do Sul do Brasil foram infectados pela COVID-19, reporta o Global Times de 2/7/20, enquanto seguiram trabalhando na matança e cortes de carnes frescas na linha de produção. Contaminados. Contaminando.

Se a China não se movesse e impusesse regras covídico-sanitárias rigorosas, estaria recebendo vírus e mais vírus nas carnes resfriadas enviadas do Brasil para ela, como ocorreu até 11 de junho último, quando iniciou o surto em Beijing.
O montante das carnes brasileiras exportado para a China é também assombroso.

Só no ano de 2019, foram seis milhões de toneladas. Para quem fica embaralhado com números, isso quer dizer seis bilhões de quilogramas, nada menos do que uns 16 milhões e meio de quilogramas por dia. Se essas carnes fossem rigorosamente distribuídas entre toda a população chinesa, representaria uns 12 gramas por dia per capita.

Os relatórios europeus recomendam hoje a ingestão, no máximo, de 23 g de carnes por dia, para quem não tem como completar devidamente as proteínas com alimentos de origem vegetal. Isso quer dizer: as carnes que seguem do Brasil para a China, sozinhas, representam 50% do tanto diário de consumo delas, para uma população de um bilhão e 400 milhões de humanos. Não é pouca carne. Não são poucos os animais assassinados para suprir os mercados. Aqui se derrama muito sangue animal (já exaustivamente descrito no Carnelatria: escolha omnis vorax mortal). E, agora sabemos: onde tem sangue derramado e gordura proteica, ali pode ter um sujeito COVIDado

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