O vírus, o terremoto e os gafanhotos

Dr. phil. Sônia T. Felipe

Sônia T FelipeNão bastasse o aumento no número de infectados e de mortos pela COVID-19, nas Américas, também temos aqui um terremoto de 7.4 na escala Richter, ocorrido no México, na região de Oaxaca na manhã de 23/6/20 (com alerta de tsunami feito pelo serviço geológico estadunidense USGS), e sentido fortemente até na Cidade do México. Dos hospitais foram tirados os pacientes e o corpo médico, todos indo para o meio da rua, o lugar mais seguro no caso de terremotos. Imaginem isso no meio de uma quarentena e isolamento dos covidados. Distância física nessa hora? Não brinca! Parece praga, não?

Parece, e é. Assim é denominada a invasão de insetos que devoram tudo o que houver pela frente. Gafanhotos do deserto (Schistocerca cancellata) são um exemplo, não vou chamar de um “bom exemplo”, porque a catástrofe é tamanha que não se pode brincar com a palavra. Eles “cancellam” mesmo todas as colheitas. Esses gafanhotos da espécie Schistocerca cancellata são considerados os mais destrutivos das quatro espécies conhecidas na Índia, também flagelada por eles nesses dias, na região de Nova Delhi (Indian Times, 27/6/20).

Os gafanhotos invadiram os campos e pastagens do Paraguai, onde devoraram plantações, e da Argentina (já o fizeram em janeiro, e voltaram). O pavor dos produtores brasileiros é que os gafanhotos, mesmo sem terem passaporte diplomático (sua natureza é de regiões quentes e secas), cruzem a fronteira brasileira e ataquem direto plantações e pastagens no Rio Grande do Sul e Santa Catarina, fugindo dos crimes que cometeram nos campos paraguaios e argentinos.

Em 2017, a China foi flagelada pelos gafanhotos.Em fevereiro deste ano, em meio à pandemia da COVID-19, ela sofreu outra vez o flagelo dos gafanhotos do deserto em suas plantações . Quem a salvou? Os patos. Não os amarelos da Fiesp. Os patos mesmo (da família Anatidae). Aquelas aves que deslizam suaves sobre as águas dos lagos sem se molharem, pois sua cobertura é impermeável. Patos comem gafanhotos. Pássaros também, mas não têm a disciplina e a tinhosidade dos patos, que seguem a nuvem de gafanhoto aonde ela for. Sapos também comem gafanhotos, mas se fartam logo e não dão conta de comer uma nuvem deles. Botamos venenos em tudo, morreram os pássaros, os patos, os sapos. Eles comiam gafanhotos. Derrubamos florestas, onde os gafanhotos poderiam viver de modo isolado, que é seu comportamento original, e encontrar verdinhos para comer. Desertificamos o planeta. Mudamos o comportamento dos gafanhotos, agora eles se juntam. Aos milhões.

Nuvens de gafanhotos do deserto podem ter de 40 a 80 milhões de indivíduos (Independent News, 11/2/20). Naturalmente, são seres que preferem viver sozinhos. Mas se há condições de acasalamento, exageram nas festas nupciais e formam esse exército devastador. Se não são contidos em sua ânsia reprodutiva, podem multiplicar-se por 500.

Uma nuvem dessas voa mais de 100 km/dia. E quanto comem? Senta-te à mesa. Cada indivíduo pode devorar em 24 horas o tanto do seu peso: uns dois gramas de folhas verdes. Uma nuvem de gafanhotos pode dar cabo de 80 toneladas de folhas verdes por dia. Eles vivem por cinco meses, uns dois ou três desses, comendo como adultos. Uma nuvem devora 4.800 toneladas em cinco meses, o tanto que dois milhões de humanos comeriam nesse tempo e dessa colheita, a uma média de 2,3 kg/dia.

Os gafanhotos comem todas as colheitas destinadas aos humanos e aos animais que os humanos querem porque querem matar pra comer, feito gafanhotos, que não se contentam com pouco, muito menos com um prato único. Gafanhotos também devoram a grama das pastagens de bovinos, ovinos e outros rebanhos pastoreados. Enfim, brotou da terra uma folhinha de capim ou de trigo, de mandioca, de milho, de arroz, de cana, de soja, do que for, glup! Já era!

Os gafanhotos estão infernizando a África e a Ásia desde o ano passado, mas neste ano foi de lascar! Desde os idos de janeiro, nuvens nunca antes vistas, de gafanhotos, tomaram conta das colheitas na Etiópia, no Quênia, na Somália, na Eritreia, em Uganda, no Sudão, no Egito (África) e no Irã, na Índia e no Paquistão (Ásia). Uganda já enfrentou neste ano três levas de gafanhotos, idos do Quênia.

Em outubro e novembro ocorreram chuvaradas 300% acima do normal, na África, na sequência de uma seca que havia dizimado todas as colheitas. A chuvarada veio de onde? Do desequilíbrio térmico no Oceano Índico, tipo El Niño asiático, denominado “Indian Ocean Dipole”, por conta do aquecimento global. Lembremos que o planeta está mais quente a cada ano, e nos últimos quatro anos foi uma sucessão do recorde de temperatura. Em dezembro, o ciclone Pawan, não o único, mas o último da série de 2019, caiu furioso sobre a Índia.

A seca devasta as plantações. Os ciclones, com seus ventos laminares e enchentes, devastam as plantações. Os gafanhotos ou as gafanhotas aproveitam o solo arenoso e úmido deixado pelo ciclone e ali põem seus ovos, que podem chegar a 80 por bolsinha enterrada a uns 10 cm na areia. Em um metro quadrado de areia úmida, podem ser encontrados 1.000 dessas cápsulas, explica a FAO em sua FAQ’s sobre gafanhotos. Portanto, 80 mil novos gafanhotos em apenas uma ninhada. Mas cada fêmea pode botar três ninhadas com ovos para novas 80 fofinhas criaturinhas, as “ninfas”.

Assim que nascem, aos milhões, as ninfas precisam de comida fresquinha, sabe aqueles fiozinhos de capim ou de cereais que acabam de nascer? Pois é. Os bebês vegetais e seus antecessores mais crescidinhos são devorados pelos bebês e seus progenitores gafanhotos. Tudo é devorado pelos gafanhotos, das plantações de mandioca às de milho, cana-de-açúcar, cereais, porque são fontes ricas em proteínas vegetais. É o que gafanhotos comem. Estão nos ensinando há milhares de anos, desde as famigeradas “pragas do Egito”, onde estão as proteínas essenciais, mas não quisemos aprender. E os humanos e os animais que aqueles criam para matar ficam sem o que comer. E daí vão fritar e comer os gafanhotos, porque são “ricos em proteínas”. Vindas de onde? Das plantas que devoraram. Economiza planeta e energia comer direto as plantas, mas os humanos sempre investem 100%, produzindo proteínas vegetais para servirem aos animais que em seguida eles matam pra obter de volta menos de 10% do tanto de proteína ali investida. Gafanhotos e todas as outras espécies animais não usam essa “lógica” na contramão. Só humanos são capazes de uma “humanice” como essa.

Agora é a vez da Argentina (G1, 23/6/20). O tratamento dispensado a esses gafanhotos são toneladas e toneladas de venenos organofosfatos, lançados de aviões sobre as áreas onde ocorrem as devoras, Melathion ULV e Melathion EC,são dois destes venenos (Global Times, 10/6/20), que a China enviou à Uganda, pois não dá pra enviar patos nem galinhas em tamanha quantidade, da Ásia à África, então vai veneno mesmo, mais fácil de transportar e de controlar na hora de aplicar. Ou a gente fica sem o que comer, ou o que nos oferecem é veneno puro. Por serem bem pequenos, pesam 2g, comparados com nossa massa e volume, os gafanhotos morrem lá na cena envenenada. Nós morreremos mais tarde, porque pressa ninguém tem de morrer envenenado. A pressa os humanos gastam toda para matar.

Há solução não envenenada? Há. Mas não interessa aos mercadores dos venenos. Na China, nos ataques do exército gafanhoteiro em 2017 e em 2020, quem salvou da fome os chineses da região flagelada foi o exército dos patos. Sim. Patos e mais patos. Cada pato pode comer até 200 gafanhotos por dia. Galinhas também os comem, mas menos, bem menos, uns 70 por dia (Global Times, 28/2/20). Mas, uma dessas nuvens de gafanhotos na farra devastadora, pode ter até 40 milhões deles. Então, fiz as contas.

Se botarmos um exército de 200 mil patos, em um dia, no campo onde está o exército dos gafanhotos, o problema está resolvido. O das plantações, claro. Porque é preciso calcular a vazão sanitária de 200 mil patos excretando, cada um, naquele dia 800 g de gafanhoto digerido. Um gafanhoto pode pesar 2 g e comer o tanto que pesa. [Nota: na postagem original havia citado o peso dado por uma das fontes jornalísticas, de 10 a 30 g por animal Em novas buscas encontrei o dado de 2 g por gafanhoto, então refiz o cálculo da excreta dos patos e das galinhas para 4 g por gafanhoto, metade do peso é dele, a outra metade é do alimento que ele ingeriu]. Então, ao final de um dia, os patos terão excretado 160 toneladas de gafanhotos digeridos.

Para processar a digestão dessa matéria, os patos precisam de muita água. Aí temos um problema a equacionar. A nuvem de gafanhotos deveria estar em alguma plantação em torno de algum lago. Mas nem gafanhotos nem plantações nem lagos são algo que se possa deslocar e reunir nas condições ideais, para que o plano pato-lógico, bio-lógico de contenção de gafanhotos seja bem sucedido e ninguém cobre o erro no pescoço do pato.

Bem, no plano de usar patos em vez de venenos, precisa incluir o destino de 160 toneladas de excreta patal. O bom do pato é que ele come até as ovas escondidas nas areias e as ninfas dos gafanhotos que por acaso estiverem ali sendo geradas para dar cabo da próxima plantação ou pastagem. E, nesse banquete farto, o pato não se interessa pelas plantas, só pelos gafanhotos.

Mas, findo o uso não letal (para o ambiente) desses animais, o que seria deles? Nem preciso escrever. Mas faço a ronda redonda, inteira, que é pra gente poder ver como é difícil corrigir um erro sem cometer outros, quando a lógica usada para solucionar o problema é a mesma que levou ao erro (Einstein).

E se fossem usadas galinhas? Elas também não envenenam o solo, nem o ar, nem a colheita, só se interessariam pela fartura de gafanhotos ali. Uma galinha pode comer até 70 gafanhotos por dia. Beleza! Nem pensar! As galinhas têm mente curiosa, como quase todas as crianças e muitos adultos, então elas se distraem facilmente da tarefa. Além disso, dizem os especialistas que estudam essas soluções, elas não podem voar seguindo, ou, melhor, perseguindo a nuvem dos gafanhotos, como o fazem os patos, que são mais focados no dever a cumprir.

Seriam necessárias 570 mil galinhas para devorar uma nuvem de 40.000.000 de gafanhotos e resolver o problema em um dia. O problema da excreta se mantém. Onde e como armazenar 160 toneladas de excreta de gafanhotos digeridos por elas? Tudo pode ser bem equacionado, mas requer uma engenharia ambiental e animal que não pode ser desenhada da noite para o dia. É preciso que tudo seja levado a campo na hora certa (transporte em condições sanitárias ideais), para que o combate seja bem sucedido. Mas é complicado transportar 1,7 tonelada de tropa galinácea pra lá e pra cá, e resolver ainda a questão das 180 toneladas de excreta gafanhotada. O tanto de vírus e de bactéria ali presente acabaria por requerer “anti-bióticos”, eufemismo para “venenos” também.

E quanto à vida dos gafanhotos, além da vida dos patos e das galinhas após seu uso como controladores biológicos? Todos esses cálculos nem levam em conta isso, não é mesmo? Afinal, gafanhotos são “predadores” e, como tais, têm que morrer. O mesmo se aplica aos humanos? Não. Nossa ética é de mão única, antropocêntrica e especista. E nós sempre a guiamos na contramão dos interesses dos outros animais. Animais não fazem isso conosco.

Como se formam as condições objetivas ambientais que levam agora à proliferação dessas nuvens de gafanhotos, em números nunca antes vistos? Pela obra, lá atrás, da comilança humana de carnes, laticínios e ovos, couro, lã, peles, que leva à emissão de 70% dos gases de efeito estufa ao redor do planeta. Sim, criar, matar, empacotar e transportar os restos mortais de 70 bilhões de animais pelo mundo afora, por ano, esquenta o planeta. Tudo requer queima de combustíveis fósseis.

Bem, o calor do Sol detido contra a troposfera, de modo cada vez mais intenso, levou os oceanos a se tornarem mais quentes. O planeta está cada vez mais quente, não apenas os oceanos. Em 20/6/20, Verkhoyansk, uma aldeia siberiana, teve 38° C de temperatura, a mais alta já registrada lá em toda história, que nunca passou dos 32° C até então (Accuweather News, 23/6/20).

O Ártico e a Antártida degelando. Descomprimindo placas tectônicas, que soltam suas risadinhas nervosas lá no fundo dos oceanos, desmoronando edificações e provocando subida dos mares para cima da terra. Secas em uma região. Degelos em outras. Chuvaradas diluvianas. Tempestades de areia do Sahara, também nunca antes tão extensas e densas, atingindo o Golfo do México no mesmo dia. Ciclones. Insetos e outros patógenos se reproduzindo em escala não usual também. Aí temos os gafanhotos e os vírus. Eles não têm culpa de nada.

A responsabilidade pelo desequilíbrio ecossistêmico é dos humanos. O mesmo se dá com os vírus que ora acamparam nas células humanas. Antes eles estiveram alojados por milhões de anos nos organismos de outros mamíferos (morcegos ferradura, por exemplo, pangolins, civetas) sem lhes causar mal algum. Destruímos as florestas, forçamos aqueles animais à proximidade com animais que são mortos pra comilança. No manejo e na matança dos rebanhos domesticados (contato com sangue, gorduras, pele, couro, proteínas) o contágio foi inevitável (SARS, MERS, COVID-19, Ebola).

Vírus, terremoto e gafanhotos estão se juntando, como se fosse a cena apocalíptica dos textos proféticos que sempre nos causam impacto. Mas tudo isso sempre existiu. E parece que o impacto causado em eras passadas em nossos antepassados não ajudou a humanidade a entender que dois erros nunca fazem um acerto. Ou entendemos isso de uma vez, ou sucumbiremos, após impedir ao redor do planeta que a vida siga em sua diversidade, sem manipulação ou manejo humano. Animastê!

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